Psicomotricidade na Educação Infantil: promoção da coordenação, da autorregulação e da aprendizagem
Por: Professor Edson Carlos de Sousa Leal
A psicomotricidade ocupa um lugar fundamental na Educação Infantil porque considera a criança de maneira integral, articulando movimento, corpo, emoções, relações sociais e processos cognitivos. Nessa perspectiva, brincar, correr, saltar, equilibrar-se, manipular objetos, desenhar, recortar, montar e participar de jogos corporais não são apenas atividades recreativas: são experiências que contribuem para o desenvolvimento global da criança e para a construção de aprendizagens significativas.
O conceito de psicomotricidade ultrapassa a ideia de simples desenvolvimento motor. Ele envolve a relação entre corpo, movimento, afetividade e pensamento. Para Fonseca (2008), a psicomotricidade compreende o indivíduo em sua totalidade, considerando a interação entre aspectos motores, cognitivos e socioemocionais. Assim, trabalhar o corpo na escola significa também favorecer condições para que a criança organize suas ações, desenvolva autonomia e estabeleça relações mais adequadas consigo mesma, com os colegas e com o ambiente.
A coordenação motora constitui uma das dimensões mais evidentes desse processo. Na Educação Infantil, atividades como encaixar peças, modelar massinha, pintar, desenhar, rasgar papel, utilizar tesoura, empilhar objetos e realizar circuitos motores contribuem para o aperfeiçoamento da coordenação motora fina e ampla. A criança aprende gradativamente a controlar seus movimentos, ajustar sua força, perceber seu corpo no espaço e executar ações com maior precisão.
Segundo Oliveira (2010), o desenvolvimento psicomotor está diretamente relacionado às experiências corporais vivenciadas pela criança, pois é por meio da ação sobre o ambiente que ela amplia suas possibilidades de conhecimento. Nesse sentido, “o movimento é um dos primeiros instrumentos de aprendizagem da criança”(OLIVEIRA, 2010).
A psicomotricidade também apresenta importante contribuição para a autorregulação. Uma criança que participa de brincadeiras com regras, espera sua vez, controla a intensidade dos movimentos, interrompe uma ação quando solicitado e aprende a lidar com pequenas frustrações está desenvolvendo habilidades que ultrapassam o campo motor. Ela está aprendendo a controlar impulsos, administrar emoções, respeitar limites e adequar seu comportamento às diferentes situações sociais.
Nesse contexto, atividades psicomotoras podem ser planejadas para favorecer não apenas a movimentação corporal, mas também a atenção, a memória, o autocontrole e a capacidade de seguir instruções. Jogos como “estátua”, circuitos com comandos, brincadeiras de imitação, atividades de equilíbrio e jogos de alternância de turnos possibilitam que a criança exercite o controle do comportamento de maneira lúdica.
Como destaca Wallon (2007), o desenvolvimento infantil não pode ser compreendido separando-se emoção, movimento e inteligência. O autor enfatiza a importância da dimensão corporal e afetiva na constituição da criança. Em uma perspectiva walloniana, portanto, o corpo não é apenas um instrumento utilizado pela criança para executar atividades: ele participa ativamente da construção de sua personalidade e de sua relação com o mundo.
“O movimento, em sua relação com o meio, constitui uma das bases da atividade psíquica da criança e participa da construção de sua personalidade.” (WALLON, 2007).
Essa compreensão permite perceber que a psicomotricidade pode contribuir significativamente para a aprendizagem escolar. A criança que desenvolve consciência corporal, orientação espacial, lateralidade, equilíbrio e coordenação encontra melhores condições para realizar determinadas tarefas escolares. A escrita, por exemplo, exige controle dos movimentos das mãos, coordenação visomotora, organização espacial e domínio progressivo da lateralidade.
Da mesma maneira, noções como dentro e fora, em cima e embaixo, perto e longe, direita e esquerda, antes e depois podem ser trabalhadas inicialmente por meio de experiências corporais. Antes de compreender determinados conceitos de maneira abstrata, a criança precisa vivenciá-los concretamente. O corpo, portanto, funciona como uma importante referência para a construção do conhecimento.
Le Boulch (1987) defende uma educação psicomotora que considere o movimento como elemento essencial para o desenvolvimento da criança. Nessa perspectiva, as experiências corporais devem ser planejadas de modo a permitir que a criança explore o espaço, reconheça suas possibilidades e limites e desenvolva progressivamente sua autonomia.
“A educação psicomotora deve ser considerada como uma educação de base na escola elementar.” (LE BOULCH, 1987).
Na Educação Infantil, essa concepção ganha especial relevância porque a aprendizagem ocorre intensamente por meio da experiência, da exploração e da brincadeira. A criança não aprende somente sentada, ouvindo explicações. Ela aprende quando experimenta, toca, movimenta-se, observa, imita, cria, pergunta, interage e enfrenta desafios adequados à sua faixa etária.
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) também reconhece a importância do corpo e do movimento no desenvolvimento infantil. Entre os direitos de aprendizagem e desenvolvimento estão “brincar”, “explorar”, “expressar” e “conhecer-se”, dimensões que podem ser amplamente contempladas pelas experiências psicomotoras (BRASIL, 2018).
O campo de experiências “Corpo, gestos e movimentos” evidencia essa preocupação ao valorizar situações nas quais as crianças possam utilizar o corpo de diferentes maneiras, expressando emoções, sensações, pensamentos e necessidades. A BNCC destaca que, por meio do corpo, as crianças exploram o mundo, estabelecem relações e produzem conhecimentos.
Assim, a psicomotricidade deve estar integrada ao planejamento pedagógico, e não ser tratada como uma atividade isolada ou meramente complementar. O professor pode transformar diferentes momentos da rotina escolar em oportunidades de desenvolvimento psicomotor: organizar circuitos, propor danças, utilizar músicas com movimentos, realizar brincadeiras tradicionais, trabalhar com bolas e cordas, promover jogos de equilíbrio e criar atividades que envolvam coordenação motora fina.
É importante, contudo, evitar uma visão excessivamente mecanicista. A finalidade da psicomotricidade na Educação Infantil não deve ser simplesmente fazer com que a criança execute movimentos considerados “corretos”. O objetivo é proporcionar experiências significativas, respeitando o ritmo individual e reconhecendo que cada criança apresenta diferentes possibilidades de desenvolvimento.
Nesse aspecto, a intervenção pedagógica precisa ser inclusiva. Crianças com deficiência, transtornos do desenvolvimento ou diferentes necessidades educacionais devem ter acesso às experiências psicomotoras, com as adaptações necessárias. O professor pode modificar materiais, reduzir ou ampliar desafios, utilizar recursos visuais, oferecer apoio físico quando necessário e organizar atividades que permitam diferentes formas de participação.
A psicomotricidade também pode contribuir para a convivência entre as crianças. Brincadeiras coletivas ensinam a compartilhar espaços e materiais, respeitar regras, esperar a vez, cooperar, lidar com perdas e vitórias e reconhecer as necessidades dos colegas. Dessa forma, o desenvolvimento motor articula-se ao desenvolvimento social e emocional.
Pode-se afirmar, portanto, que “educar pelo movimento é também educar para a autonomia, para a convivência e para a aprendizagem”. A criança que aprende a conhecer seu próprio corpo passa a compreender melhor suas possibilidades, seus limites e sua relação com os outros.
Outro aspecto importante é a relação entre movimento e autorregulação emocional. Crianças pequenas ainda estão construindo mecanismos para administrar medo, raiva, ansiedade, frustração e excitação. Atividades corporais planejadas podem oferecer oportunidades para que elas experimentem diferentes estados emocionais e aprendam, gradualmente, estratégias de controle e expressão.
Por isso, a escola precisa evitar práticas que valorizem exclusivamente o silêncio, a imobilidade e a permanência prolongada em atividades sedentárias. O movimento faz parte da infância e precisa ser compreendido como componente do processo educativo. Uma Educação Infantil de qualidade não deve “domesticar” o corpo infantil, mas ajudá-lo a desenvolver-se com segurança, autonomia e consciência.
Em síntese, a psicomotricidade representa uma importante estratégia pedagógica para promover o desenvolvimento integral da criança. Ao trabalhar coordenação motora, equilíbrio, lateralidade, orientação espacial, percepção corporal, atenção, controle dos impulsos, interação social e expressão emocional, a escola contribui simultaneamente para o desenvolvimento motor, cognitivo, afetivo e social.
Portanto, psicomotricidade não é apenas movimento: é movimento acompanhado de intenção, percepção, emoção, relação e aprendizagem. Na Educação Infantil, valorizar o corpo significa reconhecer que a criança aprende com a mente, mas também com as mãos, com os pés, com os sentidos, com as emoções e com todas as experiências que vivencia no mundo.
Referências bibliográficas
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular – BNCC. Brasília: Ministério da Educação, 2018.
FONSECA, Vitor da. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2008.
LE BOULCH, Jean. Educação psicomotora: a psicocinética na idade escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.
OLIVEIRA, Gislene de Campos. Psicomotricidade: educação e reeducação num enfoque psicopedagógico. Petrópolis: Vozes, 2010.
WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes, 2007.