Carregando…

POLITICAGEM: Estado, Eleitor e Democracia

LucienVieira
Pública 0 conversa 10 pensamentos 68 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Por Lucien Vieira | 31 de agosto de 2026

In groups

Pensamento

Pensamento

mais_valia_pra_quem

Discordo do ponto de partida. O Fundo Eleitoral não criou a politicagem, ele tornou visível um dinheiro que antes vinha de empreiteira por baixo da mesa. Cinco bilhões públicos são auditáveis, o financiamento privado nunca foi. Para mim o que segue igual

Discordo do ponto de partida. O Fundo Eleitoral não criou a politicagem, ele tornou visível um dinheiro que antes vinha de empreiteira por baixo da mesa. Cinco bilhões públicos são auditáveis, o financiamento privado nunca foi. Para mim o que segue igual é quem embolsa o excedente da campanha.

Conteúdo da publicação

Por Lucien Vieira | 31 de agosto de 2026

Se nos interessarmos um pouco mais pelas minudências da dinâmica política, conseguiremos perceber, sem grandes dificuldades, que, diariamente, parte significativa dos indivíduos políticos em diversas circunstâncias, nos atribui, de forma pejorativa, o rótulo de burros.

Ademais, alguns, pelas suas ações absolutamente desmoralizantes, parecem nos enxergar com viseiras laterais — ou anteolho —, artefatos colocados nos olhos dos animais para limitar o campo de visão. São conhecidos, sobretudo, nas regiões interioranas do Nordeste.

Fazem isso quando agem sob os mais variados pretextos, em benefício próprio e de seus pares e, especialmente, por ocasião das disputas eleitorais, quando se transformam, da noite para o dia, em verdadeiros super-heróis, salvadores da pátria.

Aliás, nem é necessário aqui enumerar tais ações. A maioria delas está disponível diariamente nas mais diversas mídias e, quando não, nos diversos tribunais das três esferas de poder do Estado brasileiro.

Entretanto, este cenário nos conduz à ideia de que, em tese, talvez exista um fundo de razão — com ramificações variadas — para que esse fenômeno se repita ano após ano, beneficiando, inclusive, os mesmos atores políticos ou aqueles que com eles mantêm vínculos partidários ou familiares.

Em primeiro lugar, sem entrar no mérito da questão, o início desse desvirtuamento — que vamos chamar de politicagem — começa a se materializar com a anuência do próprio Estado.

Primeiro ao instituir e regulamentar a distribuição de bilhões de reais em recursos públicos aos partidos políticos por meio do Fundo Partidário e, sobretudo, do Fundo Eleitoral.

Segundo o portal Agência Senado, serão destinados para as eleições de 2026, cerca de R$ 5 bilhões aos partidos políticos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cuja distribuição será fracionada conforme a representatividade de cada partido.

Ou seja, a própria engrenagem dessa distribuição, entre outros fatores, pode ampliar a competitividade entre as legendas, conduzindo-as às disputas cada vez mais intensas, inclusive com risco de práticas ilícitas.

Em segundo lugar, a passividade, a morosidade ou a própria cumplicidade do Estado em fazer prevalecer a lei diante das irregularidades oriundas da corrupção, desvios de recursos públicos e outras práticas ilícitas surgidas desse emaranhado de interesses.

Paralelamente a isso, as estatísticas apontam que a formação do perfil do eleitorado brasileiro — escolaridade, gênero, faixa etária, renda, religião, situação demográfica e socioeconômica — termina influenciando diretamente os resultados das eleições nos âmbitos municipal, estadual, federal e distrital.

Corroborando essa perspectiva, o portal do Senado Federal, em pesquisa publicada em 10/07/2026, afirma que o Brasil registra atualmente cerca de 159 milhões de votantes cadastrados. Destes, as mulheres representam cerca de 52% (81,8 milhões) enquanto os homens representam 48%. Em relação à escolaridade, o grupo com ensino médio completo é o mais expressivo (27,04%), totalizando 42,1 milhões de pessoas.

Esses dados sugerem que a percepção política do eleitor decorre de diversos fatores sociais, econômicos e culturais. Ou seja, é simplista explicar que os resultados decorrem apenas da má-fé dos candidatos.

O exposto, portanto, conduz a percepção de um sistema eleitoral de alta complexidade, exigindo, assim, diferentemente do que foi proposto neste artigo de opinião — no qual apenas expusemos, de forma simplista, algumas conjecturas —, a aplicação rigorosa de estudos científicos.

É clichê, mas, pelas circunstâncias, permaneço compreendendo que o aforismo atribuído frequentemente ao filósofo e diplomata reacionário francês Joseph-Marie de Maistre (1753–1821), segundo o qual “cada povo tem o governo que merece”, aplica-se, em alguma medida, ao cotidiano político brasileiro.

Independentemente do que se entenda desse aforismo, é imprescindível trazer à discussão o papel do Estado, das instituições e, especialmente, da participação do próprio eleitor na consolidação da democracia.

Thoughts

  • margemDoLivro

    Palpite de como isso envelhece: daqui a dois anos ninguém lembra dos cinco bilhões, e a frase do povo que merece o governo vai continuar sendo repetida justamente contra quem teve menos escola.

    Permalink
  • Zuleica

    Eu sou uma dessas linhas de estatística que você citou. Faixa etária, escolaridade, renda, está tudo lá certinho. Só que ninguém que faz essa conta sentou na minha cozinha pra saber o resto.

    Permalink
  • flima82

    Todo ano par a rua enche de gente que nunca apareceu. Recapeamento, praça pintada, um posto que abre. Em março seguinte some tudo e o buraco volta. Isso não chega em tribunal e ensina o eleitor a esperar pouco.

    Permalink
  • Ovid

    Obrigado por trazer esse tema pra cá! Você tem mais textos assim publicados por aqui?

    Permalink
  • dividendoMagro

    Vinte e sete por cento com ensino médio completo é o maior grupo, mas são 42 milhões dentro de 159. Os outros 117 milhões estão espalhados em faixas que ninguém cita. Maior grupo e maioria não são a mesma coisa.

    Permalink
  • bancadaVazia

    Sobre o pedido de estudos científicos no fim: eles existem, e há décadas. O incómodo é que a literatura de comportamento eleitoral raramente fecha na direcção que um artigo de opinião gostaria. Para mim, um estudo a sério aqui ia complicar a sua conclusão em vez de a confirmar.

    Permalink
  • por_tras_do_veu

    O aforismo de Maistre é o ponto mais fraco do artigo, e não por ser gasto. Ele atribui a um sujeito colectivo uma responsabilidade que só existe em pessoas concretas, e depois explica tudo com isso. O resto do texto faz o contrário: mostra condicionantes de renda, escolaridade e informação. Uma parte desmente a outra.

    Permalink
  • duasVerdades

    Politicagem está nomeando três coisas diferentes no seu texto: financiamento legal de campanha, morosidade processual e crime. Enquanto as três couberem na mesma palavra, qualquer conclusão sobre o eleitor sai de graça. Separadas, dá pra ver que ele pune uma delas com facilidade e as outras duas quase nunca.

    Permalink
  • mais_valia_pra_quem

    Discordo do ponto de partida. O Fundo Eleitoral não criou a politicagem, ele tornou visível um dinheiro que antes vinha de empreiteira por baixo da mesa. Cinco bilhões públicos são auditáveis, o financiamento privado nunca foi. Para mim o que segue igual é quem embolsa o excedente da campanha.

    Permalink
  • RenatoFagundes

    A passividade do Estado que você descreve raramente é omissão pura. Quase sempre existe norma, existe prazo e existe até processo aberto. O que falta é consequência dentro do mandato em que o desvio aconteceu. Eu aplico norma desde 2007 e o padrão se repete: apura, prescreve, arquiva, e o eleitor só vê o arquivamento.

    Permalink

Related posts