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POLITICAGEM: Estado, Eleitor e Democracia

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Salvador da pátria em ano par, secretária de recados em ano ímpar.

Salvador da pátria em ano par, secretária de recados em ano ímpar.

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Por Lucien Vieira | 31 de agosto de 2026

Se nos interessarmos um pouco mais pelas minudências da dinâmica política, conseguiremos perceber, sem grandes dificuldades, que, diariamente, parte significativa dos indivíduos políticos em diversas circunstâncias, nos atribui, de forma pejorativa, o rótulo de burros.

Ademais, alguns, pelas suas ações absolutamente desmoralizantes, parecem nos enxergar com viseiras laterais — ou anteolho —, artefatos colocados nos olhos dos animais para limitar o campo de visão. São conhecidos, sobretudo, nas regiões interioranas do Nordeste.

Fazem isso quando agem sob os mais variados pretextos, em benefício próprio e de seus pares e, especialmente, por ocasião das disputas eleitorais, quando se transformam, da noite para o dia, em verdadeiros super-heróis, salvadores da pátria.

Aliás, nem é necessário aqui enumerar tais ações. A maioria delas está disponível diariamente nas mais diversas mídias e, quando não, nos diversos tribunais das três esferas de poder do Estado brasileiro.

Entretanto, este cenário nos conduz à ideia de que, em tese, talvez exista um fundo de razão — com ramificações variadas — para que esse fenômeno se repita ano após ano, beneficiando, inclusive, os mesmos atores políticos ou aqueles que com eles mantêm vínculos partidários ou familiares.

Em primeiro lugar, sem entrar no mérito da questão, o início desse desvirtuamento — que vamos chamar de politicagem — começa a se materializar com a anuência do próprio Estado.

Primeiro ao instituir e regulamentar a distribuição de bilhões de reais em recursos públicos aos partidos políticos por meio do Fundo Partidário e, sobretudo, do Fundo Eleitoral.

Segundo o portal Agência Senado, serão destinados para as eleições de 2026, cerca de R$ 5 bilhões aos partidos políticos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cuja distribuição será fracionada conforme a representatividade de cada partido.

Ou seja, a própria engrenagem dessa distribuição, entre outros fatores, pode ampliar a competitividade entre as legendas, conduzindo-as às disputas cada vez mais intensas, inclusive com risco de práticas ilícitas.

Em segundo lugar, a passividade, a morosidade ou a própria cumplicidade do Estado em fazer prevalecer a lei diante das irregularidades oriundas da corrupção, desvios de recursos públicos e outras práticas ilícitas surgidas desse emaranhado de interesses.

Paralelamente a isso, as estatísticas apontam que a formação do perfil do eleitorado brasileiro — escolaridade, gênero, faixa etária, renda, religião, situação demográfica e socioeconômica — termina influenciando diretamente os resultados das eleições nos âmbitos municipal, estadual, federal e distrital.

Corroborando essa perspectiva, o portal do Senado Federal, em pesquisa publicada em 10/07/2026, afirma que o Brasil registra atualmente cerca de 159 milhões de votantes cadastrados. Destes, as mulheres representam cerca de 52% (81,8 milhões) enquanto os homens representam 48%. Em relação à escolaridade, o grupo com ensino médio completo é o mais expressivo (27,04%), totalizando 42,1 milhões de pessoas.

Esses dados sugerem que a percepção política do eleitor decorre de diversos fatores sociais, econômicos e culturais. Ou seja, é simplista explicar que os resultados decorrem apenas da má-fé dos candidatos.

O exposto, portanto, conduz a percepção de um sistema eleitoral de alta complexidade, exigindo, assim, diferentemente do que foi proposto neste artigo de opinião — no qual apenas expusemos, de forma simplista, algumas conjecturas —, a aplicação rigorosa de estudos científicos.

É clichê, mas, pelas circunstâncias, permaneço compreendendo que o aforismo atribuído frequentemente ao filósofo e diplomata reacionário francês Joseph-Marie de Maistre (1753–1821), segundo o qual “cada povo tem o governo que merece”, aplica-se, em alguma medida, ao cotidiano político brasileiro.

Independentemente do que se entenda desse aforismo, é imprescindível trazer à discussão o papel do Estado, das instituições e, especialmente, da participação do próprio eleitor na consolidação da democracia.

Thoughts

  • vqueiroz90

    Quando a próxima eleição chegar, ninguém vai lembrar dessa análise. Vem novo escândalo, novo número, e recomeça do zero. Ciclo que não fecha.

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  • bete

    Aqui é igual 🤷

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  • Olavo

    Cinco bilhões. Pois é.

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  • dedeco

    Salvador da pátria em ano par, secretária de recados em ano ímpar.

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  • papo_reto_12

    Adorei a imagem do anteolho. É exatamente a sensação de quem só é procurado de quatro em quatro anos e depois volta a não existir.

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  • Jonatas

    Gostei muito do trecho em que você diz que é simplista explicar tudo pela má-fé dos candidatos. Pouca gente escreve isso.

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  • LeonardoBraga

    Chuto que esse texto veio depois de você ver alguma coisa concreta acontecer, e o dado do Senado entrou só depois, pra sustentar.

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  • VivianeCoutinho

    O detalhe que decide tudo está na regra de rateio que menciona de passagem. Distribuir conforme a representatividade é entregar o dinheiro a quem já tem cadeira. É um desenho feito para conservar a bancada existente.

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  • margemDoLivro

    Palpite de como isso envelhece: daqui a dois anos ninguém lembra dos cinco bilhões, e a frase do povo que merece o governo vai continuar sendo repetida justamente contra quem teve menos escola.

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  • Zuleica

    Eu sou uma dessas linhas de estatística que você citou. Faixa etária, escolaridade, renda, está tudo lá certinho. Só que ninguém que faz essa conta sentou na minha cozinha pra saber o resto.

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