Meu filho disse hoje que estava com fome.
Durante um tempo eu tive também.
Meu pai disse: "Agradece o que tem."
Meu avô, falecido, disse o mesmo também.
Meu bisavô, eu já não lembro bem.
Sou mais um Silva qualquer,
Um dos muitos que levantam todo dia
Sem mudas pra plantar,
Na terra que nem minha é.
Agora há pouco, lembrei da infância.
Antes trabalhava no sinal,
Depois o governo bateu o martelo.
Com a nova lei nacional,
Fui para o colégio estadual.
Aprendi que a fome que sentia
Era geracional.
Aprendi sobre o governo federal,
Que a ausência de comida no meu prato
Era problema financeiro, e não social.
Engraçado que, na história,
Até o branco chega,
Nunca de fome
O povo originário foi reclamar.
Antes do ouro e da prata,
Da cédula verde,
Dos bancos e dos campos de trigo,
De mortes por mercúrio ninguém ouviu falar.
Aqui na terra do pau-brasil,
Que hoje não se faz presente na paisagem.
Só nas mesas,
Nos ornamentos,
Nas cadeiras daqueles —
Aqueles que acreditam
Que tudo é igual pra todos.
Não é igual pra todos.
Nosso nome é a marca da nossa utilidade:
A madeira vermelha que coloria os tecidos;
O açúcar doce das mãos
Daqueles que nem a si mesmos pertenciam;
O ouro peneirado por braços fortes,
Que matavam os rios
Com o peso de seus metais;
O café cortado por chicotes,
Ou a abolição da história,
Que se faz presente de forma informal.
Hoje você recebe papel,
O mesmo feito do pau-brasil,
Tirado pelos originais.
Hoje você recebe cestas básicas
Com o açúcar dos engenhos.
Hoje toma café, daqueles bem torrados.
Hoje você recebe uma parte da sua história,
E precisa ouvir que vai quebrar o ouro —
O ouro peneirado pela melanina,
Mas que ela, ele não decora.