Theo viu Ceres desaparecer dentro do colégio.
Pensou na reunião que Mãe Ceres queria com Daime.
Não se preocupou.
Com certeza era por causa dos rendimentos dele. Daime estava quase pronto para voltar a jogar flagball.
O sangue de Koee havia feito aquilo.
Theo ficou feliz.
A jovem de pele pálida, olhos vermelhos e cabelos platinados havia conseguido tirar Daime da cadeira de rodas.
Aquilo parecia mostrar que Mãe Ceres estava evoluindo.
Construindo novos horizontes.
Ou apenas sofisticando ainda mais sua jaula.
Mais confortável.
Mais dinâmica.
Mãe Ceres movia as jaulas com uma eficiência absurda.
Theo sorriu, misturando ódio e admiração pela Grande Mãe.
Como ela consegue?
Tanto poder sem esforço.
Sem guerras.
Sem mortes.
Sem conflitos.
Como ela havia conseguido derrubar Omni Opus com algo tão banal quanto um infarto fulminante?
Theo ainda assistia à entrevista de Mãe Ceres, transmitida internamente para toda Ceres.
Mãe.
Grande Mãe.
Magnânima.
Ela o amava como ele era.
Disso ele tinha certeza.
Ela precisava dele.
E ele confiava nela.
Confiava seu amor a ela, mesmo que fosse torto.
— Mãe Ceres que nos alimenta, educa e devora!
Theo partiu em direção ao colégio.
Sua barriga roncou de fome.
Na biblioteca, Kan estava em uma sala fechada.
As paredes de vidro permitiam que se enxergasse o interior, mas o isolamento acústico impedia que as conversas incomodassem os outros alunos.
Era uma sala feita para leitura e discussão.
Kan estava sozinho.
Até Gris chegar.
Ela entrou e sentou-se diante dele.
Observou-o.
Então sorriu.
Um sorriso cínico, quase como se soubesse alguma coisa.
Como se desconfiasse de algo.
Os dois ficaram em silêncio.
Kan olhou para Gris.
Não havia atração entre eles.
Ambos planejavam a liderança do colégio havia meses.
— Diga logo... por que esse sorriso?
— Não é nada.
— Gris... seus cabelos platinados curtos e seus olhos cor de mel não me enganam. Você não sabe mentir.
— Pode ser. Mas você me conhece pouco, Kan. Muito pouco.
— Sei. Alguma ideia?
— Sei.
Gris fez uma pequena pausa.
— Um palpite.
Kan esperou.
— Onde dói em Ceres.
Kan riu, debochando.
— Ótima piada. Você batendo de frente com Ceres? Como? Ela quase quebrou as costelas de Theo. Você viu como ele ficou. Estropiado. Dava dó. Parecia um cachorro ferido.
Gris continuou tranquila.
— Não se engane. Uma derrota assim seria difícil.
Kan ficou pensativo.
— Seria interessante isso. Vocês duas lutando para valer. Sei que você é tão forte quanto ela. E isso vai acontecer na disputa pela liderança. Seria legal ver vocês duas arrancando sangue uma da outra.
Gris levantou uma sobrancelha.
— Vocês duas se suportam.
— Pode ser.
— Mas quem disse que isso vai acontecer?
Kan sorriu.
— Nossa. Não sabia que você seria suja a ponto de acabar com ela pelas costas.
Gris o encarou.
— Você sabe que não sou assim.
— Não é. Isso eu sei.
Alguns alunos começaram a sair da biblioteca.
Um sinal indicou que a refeição estava pronta.
Kan e Gris olharam para a porta.
Nenhum dos dois saiu.
— Me conte — disse Kan. — Nem precisa de detalhes.
Silêncio.
Gris olhou para os lados.
— Para derrotar Ceres, você simplesmente precisa fazer com que ela duvide disso.
Kan franziu a testa.
— Não entendi nada.
— E não quero saber.
Gris sorriu.
— Derrotá-la no campo dela.
Kan ficou alguns segundos pensando.
— Um palpite forte?
— Noventa e cinco por cento.
— E os outros cinco?
Gris olhou para ele.
— A casca de banana?
Os dois começaram a rir.
— Essa foi boa.
Gris olhou para o relógio e depois para o teto da biblioteca.
— Ceres se importa demais com a liderança. Demais. É isso que vou usar contra ela.
— Interessante.
Kan recostou-se na cadeira.
— Theo é o contrário. Ele não se importa. Adora fazer pirraça com Ceres. Esses dois se merecem.
— Isso é verdade.
Gris cruzou os braços.
— Eles têm alguma coisa que Mãe Ceres protege. Os dois não ligam para as leis do colégio.
Kan assentiu.
— Nem detenção funciona.
— E olha que lá eles torturam mesmo.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos.
Kan então sorriu.
— Na arrogância de Theo, vou derrotá-lo.
Gris o observou.
— Esse é o ponto fraco dele?
— Não.
Kan sorriu mais.
— O ponto fraco dele é justamente não se importar.
Gris entendeu.
— Ele está pouco se importando com a liderança.
— Exatamente.
Gris levantou-se.
— Então vamos para o refeitório?
Kan também se levantou.
— Talvez tenha banana na sobremesa.
Os dois começaram a rir novamente.
O riso incontrolável ecoou pela sala fechada.
Alguns alunos passaram pelo corredor e olharam assustados para dentro.
Sabiam quem estava ali.
Sabiam que aqueles dois disputariam a liderança contra Theo e Ceres.
E, pela primeira vez, perceberam que talvez aquela disputa fosse muito maior do que uma simples competição escolar.
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