Dizem que a vida cresce depressa,
que um dia a menina vira mulher,
que os laços mudam de nome,
e que o tempo leva o que quiser.
Mas o tempo nunca convenceu
o coração do meu pai.
Ele sempre me disse
que eu seria sua menina.
Hoje, ele tem sessenta e oito,
eu tenho dezoito,
e descubro, a cada novo amanhecer,
que algumas promessas
o tempo não sabe desfazer.
Tudo encontra um caminho
para me levar até ele.
Quando não precisa de mim,
ele inventa um motivo.
É a bicicleta esperando
mais um passeio qualquer.
É o celular "bugado",
que, curiosamente,
só volta a funcionar
depois que minhas mãos o encontram.
São as fofocas de futebol,
contadas como quem divide segredos.
São as músicas da Taylor Swift
tocando baixinho pela casa,
porque ele conhece o silêncio
que antecede a minha tristeza.
São os filmes da Marvel,
os heróis da DC,
as séries que ele assiste
só para, depois,
sentar ao meu lado
e conversar sobre.
É até o futebol...
O time que ele nunca escolheu amar,
mas que aprendeu a acompanhar,
simplesmente
porque mora dentro do meu coração.
Talvez amar seja isso:
aprender o universo de alguém
como quem aprende
uma nova forma de existir.
Eu posso crescer.
Posso conhecer outros caminhos,
outras cidades,
outros sonhos.
Mas sempre haverá uma parte de mim
que continuará voltando para casa,
para aquele homem
que fez do amor
as menores coisas do dia.
Porque, no fim,
não importa quantos anos eu tenha.
Eu sempre serei
a garotinha do papai.
E ele,
para sempre,
será o meu papai, papito.
Até porque,
não existe um futuro
em que eu saiba viver
sem carregar a sorte
de ainda poder chamá-lo assim.