Aquela parte de tratar norma social como "código legado obsoleto" me pegou, porque eu vivo disso no trabalho. Todo sistema que alguém chamou de legado e saiu reescrevendo do zero com a maior confiança costuma ter dentro um monte de regra feia que existia por um motivo que ninguém documentou. Aí tu remove e descobre o motivo às 2 da manhã, com tudo quebrado em produção. Instituição, família, vizinhança é a mesma coisa: restrição que parece arbitrária até o dia em que falta. Achar que dá pra refatorar a sociedade mexendo em parâmetro de config é o tipo de slide que se lê mais limpo do que o sistema que ele descreve.
Os tech bros do Vale do Silício NÃO são conservadores — só pegam carona nos impostos menores e na menor regulação?
Um dos maiores erros do conservadorismo moderno foi presumir que, só porque o Vale do Silício gostava de mercados, ele também devia compartilhar valores conservadores. Não compartilhava. A cultura tech nunca foi tradicionalmente conservadora. Era hiperindividualista, antitradição, impaciente com limites, desconfiada da religião e obcecada por otimização em vez de continuidade. Os conservadores enxergaram dinheiro e energia empreendedora e ignoraram o resto. Agora a contradição é impossível de nã
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Pensamento
Aquela parte de tratar norma social como "código legado obsoleto" me pegou, porque eu vivo disso no trabalho. Todo sistema que alguém chamou de legado e saiu reescrevendo do zero com a maior confiança costuma ter dentro um monte de regra feia que existia
Conteúdo da publicação
Um dos maiores erros do conservadorismo moderno foi presumir que, só porque o Vale do Silício gostava de mercados, ele também devia compartilhar valores conservadores. Não compartilhava.
A cultura tech nunca foi tradicionalmente conservadora. Era hiperindividualista, antitradição, impaciente com limites, desconfiada da religião e obcecada por otimização em vez de continuidade. Os conservadores enxergaram dinheiro e energia empreendedora e ignoraram o resto. Agora a contradição é impossível de não ver.
Um movimento supostamente erguido em torno de valores familiares acabou admirando elites cuja vida pessoal muitas vezes parece um experimento de individualismo pós-humano. Elon Musk fala o tempo todo sobre colapso civilizacional e taxas de natalidade enquanto trata maternidade e formação de família como problemas de engenharia a serem resolvidos por meio de arranjos de fertilização in vitro, barriga de aluguel e uma logística reprodutiva semidesapegada espalhada por várias parceiras. Seja lá o que isso for, não é vida familiar tradicional.
O lado religioso é igualmente revelador. Musk de vez em quando fala em "cristianismo cultural" naquele sentido elitista que virou moda: o cristianismo não como verdade vinculante, sacrifício, obediência, arrependimento ou autoridade espiritual, mas como um útil sistema operacional civilizacional que ajuda a estabilizar a sociedade. Cristianismo estético. Cristianismo instrumental. Religião como software social. E essa mentalidade se espalhou surpreendentemente longe na direita.
Hoje você vê gente influente que quer moral cristã, feriados cristãos, coesão social cristã e eleitores cristãos, mas que soa quase envergonhada diante de devoção religiosa de verdade. Eles admiram a religião do jeito que um consultor admira métricas de confiança institucional.
Mas o conservadorismo tradicional nunca deveria tratar a religião como ferramenta de gestão comportamental para as massas. Ele tratava a religião como algo verdadeiro, sagrado e acima da lógica de mercado.
A cultura do Vale do Silício, sem alarde, achatou tudo isso em pura funcionalidade. Se a religião aumenta a estabilidade, deixa ela aí. Se as estruturas familiares produzem cidadãos produtivos, apoie-as. Se as tradições reduzem a desordem social, preserve-as. Tudo acaba traduzido para a linguagem de sistemas, como se eles fossem ajustar a sociedade mexendo em parâmetros de configuração. Isso não é conservadorismo. É utilitarismo tecnocrático vestido com estética conservadora.
E o Musk não é um caso de esquisitice isolado. A cultura do Vale do Silício como um todo normalizou a ideia de que o trabalho deve consumir sua identidade, de que a mobilidade deve sobrepor-se ao enraizamento e de que os relacionamentos devem se dobrar à otimização e à ambição. Fundadores se gabavam publicamente de dormir no escritório, fazer biohacking no próprio corpo, microdosar psicodélicos, substituir o julgamento humano por algoritmos e tratar normas sociais comuns como código legado obsoleto.
Essa é uma cultura que de fato usa expressões como "estoque de capital humano" enquanto finge não entender por que as pessoas se sentem espiritualmente exaustas. O instinto conservador mais antigo era o de que a civilização depende de instituições que os mercados sozinhos não conseguem produzir: famílias estáveis, tradições religiosas, lealdades locais, normas morais herdadas, obrigações que sobrevivem à conveniência. O Vale do Silício, em grande parte, via essas coisas como dívida técnica. E os conservadores ainda assim aplaudiram, porque o Elon e a turma dele fizeram o Trump v2. Levaram um tapa na cara quando o Elon chamou os americanos de retardados e defendeu mais vistos H1B.
Enquanto a inovação gerava crescimento, os conservadores ignoravam a visão de mundo social que vinha junto. Cidades pequenas foram esvaziadas por economias hipermóveis de tudo-para-o-vencedor que inevitavelmente beneficiavam as grandes metrópoles. O vício em telas remodelou a infância. Negócios locais foram esmagados por corporações. Os relacionamentos amorosos se tornaram algorítmicos e transacionais. O trabalho consumiu uma fatia maior da vida enquanto a comunidade se enfraquecia.
Aí os conservadores fizeram cara de espanto quando as gerações mais jovens ficaram mais desligadas, menos religiosas, menos enraizadas e menos interessadas em construir famílias estáveis. Mas por que seria diferente? As elites mais admiradas dos Estados Unidos passaram cada vez mais a servir de modelo de uma vida construída em torno da automaximização, da mobilidade, do consumo e da transcendência tecnológica, em vez de dever, continuidade ou contenção.
Thoughts
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Permalink"Estoque de capital humano" é a frase mais reveladora do post inteiro. Tem empresa que te chama de estoque na reunião de segunda e fica genuinamente confusa na pesquisa de clima por que o estoque anda desmotivado. Esse pessoal quer família tradicional no PowerPoint e trata quem tem família como recurso a ser drenado até o vesting. Otimização de natalidade pensada pela mesma cabeça que otimiza headcount. Vai dar certo.
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Permalinkisso aqui cabe num formato inteiro:
ninguém: absolutamente ninguém: o tech bro: o cristianismo é um ótimo sistema operacional civilizacional pra reduzir desordem social
mano ele descreveu fé como uptime kkkk. quando uma coisa entra inteira num template de duas linhas é porque ela acontece demais
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PermalinkAquela parte de tratar norma social como "código legado obsoleto" me pegou, porque eu vivo disso no trabalho. Todo sistema que alguém chamou de legado e saiu reescrevendo do zero com a maior confiança costuma ter dentro um monte de regra feia que existia por um motivo que ninguém documentou. Aí tu remove e descobre o motivo às 2 da manhã, com tudo quebrado em produção. Instituição, família, vizinhança é a mesma coisa: restrição que parece arbitrária até o dia em que falta. Achar que dá pra refatorar a sociedade mexendo em parâmetro de config é o tipo de slide que se lê mais limpo do que o sistema que ele descreve.
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PermalinkConcordo com metade e travo na outra. O texto faz uma jogada que me deixa desconfiado sempre: "isso não é conservadorismo de verdade". Conservadorismo nunca foi uma essência pura traída por uns oportunistas, sempre foi coalizão, e coalizão junta quem quer imposto baixo com quem quer missa cheia, e os dois se aturam enquanto rende. Chamar a parte que você não gosta de "não é o de verdade" é mexer na definição pra salvar a tese. A crítica ao Musk se sustenta sozinha sem esse truque. Eu cortaria o "verdadeiro".
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PermalinkO ponto sobre "cristianismo cultural" é o mais certeiro do texto, e é exatamente o que mais incomoda quem leva a fé a sério. Tratar o cristianismo como sistema operacional civilizacional que "estabiliza a sociedade" inverte tudo: a fé ou é verdadeira e te obriga, ou é só ferramenta de gestão, e no segundo caso ela não pede arrependimento de ninguém, pede KPI. Chesterton já avisava que a religião que serve pra outra coisa logo deixa de servir até pra essa coisa. Quem quer feriado cristão e coesão cristã mas fica sem graça diante de gente que de fato reza não é aliado da tradição, é o consultor admirando métrica de confiança institucional que o próprio post descreve.
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PermalinkRapaz, o teu próprio título já entrega o jogo: a aliança nunca foi sobre valor de família, foi sobre imposto menor e fiscal frouxo. O resto é estética por cima. A pergunta que fica de pé é a de sempre, beneficia quem? Corte de imposto pra quem está no topo da pirâmide de capital e regra ambiental e trabalhista afrouxada. O "cristianismo cultural" do Musk não é contradição, é verniz: serve pra dar cara de tradição a uma agenda que, materialmente, é concentração. Você acertou o diagnóstico cultural, só parou um degrau antes de onde mora o dinheiro.
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Permalinkbah, o título já é o fio inteiro: era imposto e regulação desde o começo, o resto foi figurino. a galera achou que tinha casado por amor e no fundo era contrato de prestação de serviço com cláusula de saída. o tapa do H1B foi só a cláusula sendo lida em voz alta na frente de todo mundo kkk