Os Demônios da Noite
Mais uma noite...
Mas hoje eu me sinto diferente.
Não como nas outras noites
que eu aprendi a odiar.
Parece que estou presa
dentro da minha própria mente.
Ou seria dentro da minha própria consciência?
Não sinto meus pés.
Não sinto que estou aqui.
É como se meu corpo tivesse ficado para trás
enquanto minha mente continua acordada,
presa em algum lugar que ninguém consegue alcançar.
Parece uma paralisia do sono,
mas sem precisar fechar os olhos.
Essa sensação percorre meu corpo
e deixa calafrios entre minhas entranhas.
Ela me aperta devagar,
como uma corda ao redor do meu pescoço.
Eu só consigo pensar:
Pare...
pare...
eu não quero sentir isso.
Será que são meus pecados?
Não.
Não...
eu não sou uma pecadora.
Eu só quero correr para longe.
Quero fugir dessa sensação
que não me faz bem.
Talvez o maior erro
de quem vive noites assim
seja acreditar que precisa ser um monstro
para merecer ser atormentado.
Mas então...
Por que eu?
Se, em vez de machucar as pessoas,
eu sempre deixei que elas me machucassem?
Eu não sou uma vilã.
Sou apenas alguém tentando sobreviver
a mais uma noite.
Mas esses Demônios da Noite
fazem questão de me mostrar o contrário.
Eles sussurram que talvez seja por isso
que estou sozinha.
E talvez...
Talvez seja isso que mais dói.
Porque hoje,
só por essa noite,
eu queria ter alguém aqui.
Alguém que dissesse:
“Você não precisa enfrentar isso sozinha.”
Mas não há ninguém.
Afinal, todos nós temos
um Demônio da Noite.
A diferença é que algumas pessoas
aprendem a escondê-los.
Elas sorriem durante o dia,
conversam, brincam, vivem...
E ninguém percebe
o que existe atrás dos olhos delas.
Mas eu?
Eu deixei um deles escapar.
E que droga...
Por apenas um dia,
eu queria não me sentir
como a vilã de uma história
que nunca escolhi protagonizar.
Eu peço para eles irem embora.
Mas eles riem da minha cara.
E suas risadas me lembram
das pessoas que um dia me machucaram.
Talvez conviver com pessoas
seja mais doloroso do que conviver com monstros.
Mas eu ainda estou dividida.
Não sei o que dói mais:
As noites
ou as pessoas.
Eu vejo pessoas destruindo umas às outras
e isso me dá medo.
Porque, às vezes,
parece que o ser humano sofre tanto
que acaba esquecendo como ser humano.
E, mesmo tendo medo disso...
Eu até consigo entender.
Olhe para mim.
A Rainha dos Demônios da Noite.
“Você é forte.”
“Você é incrível.”
“Não deixe esses demônios entrarem em você.”
É isso que eu digo para mim mesma.
Mas ninguém me contou
o que fazer quando um deles já está dentro.
Porque, quando ele entra,
não existe simplesmente uma porta
para mandar embora.
E talvez seja essa a parte mais cruel.
Quem somos nós
para acreditar que não temos escolha?
Temos.
Mesmo que seja apenas uma pequena escolha
em uma noite enorme.
Escolher continuar.
Mais uma noite...
Mesmo sem querer.
Talvez seja essa a razão
de ainda estarmos aqui.
E você...
Você não é o único
que tem noites assim.
Nem mesmo uma criança
tem noites perfeitamente bonitas.
Crianças choram.
Crianças sentem medo.
Crianças também conhecem seus próprios demônios.
A diferença é que elas ainda não aprenderam
a esconder o que sentem.
Por isso choram.
Por isso gritam.
Por isso procuram alguém.
E talvez nós, adultos,
deveríamos ter aprendido a fazer o mesmo.
Até quando isso vai acabar?
Eu não sei.
Talvez amanhã.
Talvez depois.
Talvez demore mais uma noite.
Mas, por favor...
Não vire outra pessoa
só porque os seus demônios querem isso.
Continue sendo quem você é.
Porque eu?
Eu deixei um deles entrar.
E, pouco a pouco,
comecei a me tornar parte dele.
Não porque sou uma pessoa ruim.
Mas porque tudo que eu carregava
era tristeza demais
para continuar escondendo.
Eu quero que ele saia.
Eu realmente quero.
Mas algumas coisas não desaparecem
quando simplesmente mandamos embora.
Então...
Não vire igual a mim.
Não deixe seus demônios
decidirem quem você é.
E essa...
Essa foi mais uma das minhas noites.
Uma noite em que eu só queria dormir.
Dormir sem pensar.
Dormir sem lembrar.
Dormir sem sentir.
Talvez amanhã seja diferente.
Talvez exista um final feliz
em alguma página que ainda não li.
Até lá...
Eu espero.
Espero por noites melhores.
E, se você também está lendo isso
em uma noite que parece não ter fim...
Então talvez você entenda.
Talvez você também tenha
um Demônio da Noite escondido aí dentro.
E agora...
Eu vou quebrar a quarta parede.
Só por essa noite.
Olhe para mim.
Sim, você.
Não precisa fingir que está tudo bem.
Você não é um vilão
só porque está sofrendo.
E talvez...
Só talvez...
A gente consiga sobreviver
a mais uma noite.