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Onde o Morro Também Sonha

guimaraes
Pensamento

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bete

Às cinco da manhã no autocarro lotado e ainda sorrir ao chegar a casa. Cá também há quem faça isso todos os dias, e a cidade só lhes vê o endereço, de longe.

Às cinco da manhã no autocarro lotado e ainda sorrir ao chegar a casa. Cá também há quem faça isso todos os dias, e a cidade só lhes vê o endereço, de longe.

Conteúdo da publicação

Não diga que conhece alguém
só porque conhece seu endereço.

Não chame de bandido
quem nasceu onde a cidade
aprendeu a olhar de longe.

Porque o morro não é crime.

O morro é gente.

É a mãe que acorda antes do sol
para trabalhar e colocar comida na mesa.
É o pai que volta cansado
depois de um dia inteiro de luta.
É a criança que corre pela rua
com um sonho enorme
dentro de um corpo pequeno.

É o estudante com um caderno na mão,
tentando escrever um futuro
que o preconceito insiste em apagar.

É o trabalhador que pega ônibus lotado,
enfrenta horas de viagem
e ainda encontra forças
para sorrir quando chega em casa.

Não confunda a pobreza
com falta de caráter.

Não confunda uma comunidade
com criminalidade.

CEP não escolhe coração.
Endereço não escreve caráter.
Favela não define ninguém.

Há pessoas honestas no asfalto
e pessoas honestas no morro.

Há sonhos em prédios altos
e sonhos em casas simples.

A diferença é que alguns
olham para a favela
e enxergam apenas paredes.

Mas quem vive lá
enxerga histórias.

Enxerga o vizinho que ajuda.
A avó que cuida dos netos.
O menino que quer ser jogador.
A menina que sonha ser médica.
O jovem que estuda até tarde
para ser o primeiro da família
a entrar numa universidade.

Enxerga a festa,
o futebol,
a música,
a solidariedade,
a esperança.

E também enxerga as dores.

Porque existem lugares onde a violência chegou,
onde faltam oportunidades,
onde crianças crescem ouvindo sons
que nenhuma criança deveria conhecer.

Mas isso não transforma todos em culpados.

Quem mora na comunidade
não herda o crime.
Herda uma história.

E toda história pode mudar.

Talvez o mundo precise parar
de perguntar:

“De onde você vem?”

E começar a perguntar:

“Para onde você quer ir?”

Porque talvez o próximo grande médico
esteja em uma viela.

O próximo professor,
em uma casa humilde.

O próximo artista,
em uma laje.

O próximo cientista,
em uma comunidade
que alguém um dia chamou
de lugar sem futuro.

Mas futuro existe.

Ele está nos olhos das crianças.

Está nos livros.

Está no trabalho.

Está na coragem de quem acorda
e tenta novamente.

Então, quando olhar para uma favela,
não olhe com medo.

Olhe com humanidade.

Ali existem milhares de pessoas
que não pediram para nascer com menos oportunidades,
mas que todos os dias lutam
para construir uma vida melhor.

E se um dia alguém disser:

“Ele mora na comunidade,
deve ser bandido.”

Que a nossa resposta seja simples:

Não.

Ele pode ser trabalhador.
Pode ser estudante.
Pode ser pai.
Pode ser mãe.
Pode ser artista.
Pode ser professor.
Pode ser alguém simplesmente tentando viver.

Porque antes de qualquer endereço,
antes de qualquer aparência,
antes de qualquer julgamento,

existe um ser humano.

E ninguém deveria ser condenado
pelo lugar onde nasceu.

A favela não é apenas um lugar no mapa.

É lar.

É onde alguém aprendeu a amar,
onde alguém recebeu seu primeiro abraço,
onde alguém sonhou pela primeira vez.

E enquanto houver uma criança
olhando para o céu de uma comunidade
e dizendo “eu quero chegar lá”,

o morro continuará sonhando.

E talvez um dia
o mundo inteiro finalmente entenda:

não é o lugar que define a pessoa.
É aquilo que ela carrega no coração.

Autor: João Guilherme Guimarães de Souza

Thoughts

  • desigrejada_aos_poucos

    Gostei muito do vizinho que ajuda. Rede assim não aparece em mapa nenhum e é a primeira coisa que falta quando a pessoa muda de bairro.

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  • argumento_frouxo

    Trocar 'de onde você vem' por 'pra onde você quer ir' é o truque mais velho de discurso de posse. Só que aqui o truque tá do lado certo: a segunda pergunta obriga quem pergunta a esperar a resposta. Concedo.

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  • dividendoMagro

    Milhares de pessoas é pouco. Só a Rocinha tem uns setenta mil no censo. O poema errou pra baixo, o que é raro.

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  • bete

    Às cinco da manhã no autocarro lotado e ainda sorrir ao chegar a casa. Cá também há quem faça isso todos os dias, e a cidade só lhes vê o endereço, de longe.

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  • Zuleica

    Meu filho, essa mãe que acorda antes do sol tem nome na minha rua, é a dona Cleide, sai quatro e meia pra pegar dois ônibus e ninguém nunca chamou ela de outra coisa que não dona Cleide. O que dói é quando o menino dela sai de boné e vira suspeito na esquina do mesmo bairro onde ela é santa. Esse pedaço aí é a minha esquina.

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  • VivianeCoutinho

    O verso do CEP é o que mais me custa, porque na prática é ao contrário: o código postal decide o prémio do seguro, a taxa do crédito e se a candidatura passa da primeira triagem. O poema pede que o endereço não conte. Cá, e desconfio que aí também, é a primeira coisa que conta. Por isso mesmo faz falta alguém dizê-lo em voz alta.

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  • Ovid

    O menino que quer ser jogador e a menina que sonha ser médica, lado a lado, me fez pensar em como o mundo aplaude um e desconfia da outra até ela aparecer de jaleco. Aposto que você conhece os dois de nome. Vou adicionar a um par de grupos aqui pra chegar a mais gente. Obrigado por compartilhar, @guimaraes!

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  • Rutemaria

    A avó que cuida dos netos é a que me ficou, porque é quase sempre ela que segura a casa toda e nunca ninguém a põe num poema. Tu escreveste isto a pensar numa avó em concreto?

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Não diga que conhece alguém só porque conhece seu endereço.

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