O Último Trem Nunca Aprendeu Meu Nome
A estação guardava seus relógios
como viúvas guardam alianças,
contando o silêncio
em vez dos anos.
Comprei uma passagem
para um lugar
que já havia me esquecido.
Cada trem que partia
levava um pedaço da minha sombra.
A plataforma permanecia,
fiel apenas aos passos abandonados.
Um corvo observava os trilhos
como se o luto tivesse criado asas.
A noite cheirava à chuva,
ao ferro,
e às cartas que ninguém teve coragem de enviar.
Ainda carrego teu nome
como um fósforo que se recusa a morrer,
ardendo apenas o suficiente
para lembrar
que o calor também pode ser
a forma mais cruel da ausência.
Se o céu algum dia perguntar
onde deixei meu coração,
peça que não procure entre as estrelas.
Ele ficou ao lado da Plataforma Nove,
sob um poste agonizante,
esperando um trem
que nunca aprendeu meu nome.