CAPÍTULO 10: O Ponto de Encontro
Às 17:15, o céu de São Paulo começou a escurecer sob uma tonalidade púrpura e violenta. O ar cheirava a poeira, fumaça de óleo e tempestade iminente.
Elena, Gabriel e Leo avançavam em ritmo acelerado pelas encostas que levavam ao bairro do Pacaembu. Leo mancava levemente, mas o curativo de Elena mantinha a ferida firme. Gabriel ia à frente, o bastão de metal em uma mão e a câmera fotográfica batendo contra o peito, os olhos atentos a qualquer movimento entre os veículos destruídos.
Quando dobraram a última grande curva que dava vista para o vale do estádio, o cenário que encontraram era dantesco.
O Estádio do Pacaembu estava cercado por grandes barreiras de concreto e redes de arame farpado. Na praça em frente, holofotes militares iluminavam a multidão de centenas de civis desesperados que tentavam entrar pelos portões de evacuação. Helicópteros de transporte militar rugiam no ar, decolando um após o outro do gramado central.
E avançando por trás da multidão, atraída pelo barulho dos motores e pelas luzes, havia uma onda sombria de centenas de infectados, surgindo de todas as avenidas periféricas como um rio de sombras grotescas.
— O perímetro foi quebrado no setor norte! — ressoou o alto-falante militar. — Fechando portões principais em cinco minutos! Repito: fechando portões!
— Temos que correr! — gritou Gabriel.
Eles dispararam pela descida da avenida. O pânico na praça era absoluto. As pessoas se empurravam contra a grade enquanto os soldados em cima dos caminhões gritavam para manterem a ordem.
A cinquenta metros do portão principal, a massa de infectados atingiu a lateral da multidão. O caos irrompeu. Pessoas começaram a correr em todas as direções, pisotando barreiras e umas às outras.
— Mantenham-se juntos! — gritou Elena, segurando o braço de Leo enquanto Gabriel abria caminho na força física contra a multidão em pânico.
Um infectado — uma figura desfigurada vestindo terno rasgado — surgiu do meio da poeira, lançando-se diretamente contra Leo.
Gabriel reagiu por instinto. Ele girou o corpo e desferiu um golpe violento com o bastão de metal no crânio da criatura, derrubando-a no asfalto. Mas o impacto fez com que o bastão se partisse em dois, e o impulso de três outros infectados arremessou Gabriel contra a lateral de um ônibus abandonado.
— Gabriel! — Elena gritou, tentando voltar.
— Leve o Leo para o portão! VAI! — berrou Gabriel, usando a câmera fotográfica pesada para golpear o rosto de uma das criaturas que o prensava contra a lataria.
— Não sem você! — Elena sacou o bisturi reservado e se lançou na direção de Gabriel, cravando a lâmina de aço na têmpora do infectado que agarrava a jaqueta dele.
A criatura caiu inerte. Gabriel aproveitou a brecha, empurrou o outro atacante e segurou a mão de Elena com força desesperada.
— Agora! Corre!
Eles agarraram Leo e correram os últimos vinte metros. As grades de ferro do portão principal do estádio começaram a ranger, deslizando pesadamente sobre os trilhos para fechar a entrada.
— Esperem! Tem mais três aqui! — gritou um dos soldados no topo da barreira de concreto.
Gabriel empurrou Leo e Elena pelo vão de meio metro que ainda restava na grade. O soldado puxou Leo para dentro, enquanto Gabriel se espremeu pela abertura no exato segundo em que o metal da porta colidiu contra o batente com um estrondo definitivo.
CLANG.
A trava pesada caiu. Do lado de fora, dezenas de mãos infectadas começaram a se projetar através das grades, arranhando o ar em vão.
Dentro do estádio, o som das pás dos helicópteros abafava a gritaria externa. Refretores brancos e potentes cortavam a escuridão, e médicos de macacão amarelo corriam com macas.
Gabriel e Elena caíram no chão de concreto da rampa de acesso, arfando, os corpos cobertos de suor, poeira e sangue. Leo caiu ao lado deles, chorando de alívio.
Elena olhou para Gabriel. O rosto dele tinha um corte no supercílio, o casaco estava rasgado, mas seus olhos castanhos brilhavam com uma vida intensa e indomável.
Sem dizer uma única palavra, Elena se jogou nos braços dele. Gabriel acolheu-a contra o peito, apertando-a com tanta força que parecia querer fundir os dois em um só. Eles se beijaram no meio do caos do estádio, um beijo longo, desesperado e vitorioso, cercado pela luz dos refletores e pelo som dos helicópteros que os levariam para longe dali.
Eles haviam sobrevivido à queda do mundo. E tinham feito isso juntos.