A noite caiu devagar, e Nanda ficou sentada na beira da cama, olhando para a tela do celular. O dedo pairou sobre o botão de enviar por tanto tempo que já nem lembrava quanto tempo tinha passado. Mas ela enviou. De verdade. Escreveu tudo o que sentia — a saudade que doía, o vazio que ficou, o quanto precisava dela — e apertou sem apagar.
Pouco depois, o aparelho vibrou. Uma mensagem. Depois outra. E mais uma. Era Mariana. Escrevera que também sentia falta, que tinha medo de ter sido esquecida, que queria voltar a conversar todos os dias. Nanda leu e releu várias vezes, com os olhos marejados, e respondeu que também queria.
Na manhã seguinte, encontrou Lucas na entrada da escola. Ele estava encostado no muro, com as mãos nos bolsos, olhando para o chão. Ao vê-la, sorriu — aquele sorriso que sempre fazia tudo parecer mais leve. Perguntou se ela tinha dormido bem, e pela primeira vez em muito tempo, ela respondeu que sim, de verdade.
Caminharam juntos até a sala. Ele não soltou a mão dela, e ela não afastou a sua.
Os dias que vieram foram diferentes. Mariana e Nanda voltaram a falar todas as noites. Descobriram que ambas tinham tido medo de perder a outra, que ambas se sentiam sozinhas às vezes, que ambas esperavam que a primeira desse o passo. A distância ainda doía, mas o silêncio que as separava já não existia mais.
Com Lucas, tudo parecia o mesmo e ao mesmo tempo completamente diferente. Ele continuava sendo o melhor amigo dela, mas havia algo mais ali — um cuidado mais perto, um olhar que demorava mais, um toque mais suave. Às vezes ela o pegava olhando para si e desviava o olhar, mas agora com um sorriso, não com receio.
A dúvida não desapareceu de todo. Às vezes, de noite, Nanda pensava se ele sentia o mesmo, se estava confundindo as coisas, se ao falar tudo acabaria. Mas mantinha essas perguntas para si mesma, como sempre fizera.
Uma tarde, estavam sentados no banco da praça, o mesmo de sempre. O sol tingia o céu de rosa e laranja, devagar, sem pressa. Lucas ficou calado por um tempo, mexendo na grama com os dedos, depois virou-se para ela. A voz soou mais baixa, mais séria.
— Nanda… tem uma coisa que quero te falar faz tempo. Sempre esperei que você estivesse pronta primeiro. Não queria te assustar.
Ela ficou parada, olhando para ele, sem saber o que esperar.
— Eu vejo você — continuou ele, olhando direto nos olhos dela. — Vejo quando se afasta. Quando fica quieta demais. Quando pensa que ninguém percebe. E… não quero ser só o seu melhor amigo. Não mais.
Respirou fundo e disse, quase num sussurro:
— Gosto de você, Nanda. Mais do que amizade. Faz tempo.
O coração dela disparou. Tudo o que ela guardara por tanto tempo, tudo o que pensou nunca poder dizer, estava ali, sendo dito por ele, primeiro.
— Eu também — respondeu, com a voz tremida. — Tinha medo. De não ser suficiente. De estragar tudo.
Lucas sorriu, e os olhos dele brilharam sob a luz do entardecer. Tocou o rosto dela com delicadeza.
— Você não vai estragar nada. E é mais do que suficiente. Do jeitinho que é. Com todos os medos e silêncios.
Ficaram assim, olhando um para o outro, enquanto o sol desaparecia no horizonte. Não havia pressa, não havia necessidade de ter todas as respostas agora.
Nanda ainda teria dias difíceis. Ainda haveria momentos em que se questionaria quem era, em que o mundo pareceria alto demais e ela se sentiria pequena. Mas agora não estava mais sozinha. Tinha Lucas, que a enxergava. Tinha Mariana, que voltou. E tinha a si mesma, aprendendo, devagar, a ficar.
E talvez… só talvez… isso fosse o suficiente.