Kant escreveu sobre os limites da razão.
E talvez essa tenha sido uma das primeiras coisas que me fizeram pensar:
e se nem tudo puder ser compreendido?
Passei muito tempo acreditando que precisava entender para crer.
Como se Deus precisasse passar primeiro pela minha razão antes de alcançar meu coração.
Mas a razão tem limites.
E quando ela chega ao seu limite, o que fazemos?
Kierkegaard chamou de salto.
O salto da fé.
Aquele instante em que você chega onde as respostas terminam e precisa decidir se vai confiar.
Porque a ciência pode explicar como o coração bate,
mas pode ela explicar por que ainda amamos?
Pode observar o universo,
mas pode responder por que existimos?
Pode estudar o homem,
mas pode explicar completamente a sua sede por sentido?
Então veio Nietzsche.
O homem que declarou:
“Deus está morto.”
E ainda assim, foi ele quem me ensinou algo que talvez eu nunca tivesse percebido:
nem tudo precisa ser resolvido pela razão.
Nietzsche passou a vida questionando certezas, desconfiando dos valores, confrontando aquilo que o homem chamava de verdade.
E então eu pensei:
Como pode justamente ele, que negou Deus, me fazer enxergar que talvez eu estivesse tentando encontrá-Lo no lugar errado?
Talvez Deus não seja uma equação esperando solução.
Talvez a fé não seja a ausência de perguntas.
Talvez seja continuar caminhando mesmo quando algumas delas permanecem sem resposta.
A Bíblia já perguntava:
“Porventura, desvendarás os arcanos de Deus?”
E Paulo escreveu:
“Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis, os seus caminhos!”
Talvez eu possa estudar.
Questionar.
Pensar.
Duvidar.
Mas chegará o momento em que minha razão olhará para o abismo e reconhecerá:
daqui eu não consigo passar.
E talvez seja justamente ali que começa a fé.
Não porque deixei de pensar,
mas porque finalmente entendi que não preciso compreender tudo para confiar em Deus.
“Confia no Senhor de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento.”
Kant me mostrou o limite.
Kierkegaard me mostrou o salto.
Nietzsche me ensinou a questionar até mesmo aquilo que eu julgava saber.
E a Bíblia me ensinou o que fazer depois disso:
confiar.
Porque talvez nem tudo que é verdadeiro precise primeiro caber na minha razão.
Talvez Deus seja justamente isso:
o lugar onde o meu entendimento termina e a minha fé começa.
Gabriel Anjos