Ninguém compra um automático de 1.500 dólares porque precisa saber as horas. O celular encerrou essa discussão uma década atrás, com mais precisão do que qualquer movimento mecânico jamais terá. Então o hobby não é sobre função, e fingir o contrário é por que tanta conversa de relógio soa levemente desonesta, todo aquele elogio sincero a uma reserva de marcha da qual a vida de ninguém depende.
O que as pessoas estão de fato comprando é um dos últimos objetos socialmente aceitáveis pelos quais um homem tem permissão de se importar abertamente. Não um gadget que fica obsoleto em dois anos, não uma joia da qual ele precisa se desculpar, mas uma coisinha mecânica com procedência e peso que ele pode passar adiante. O relógio de pulso sobreviveu como o raro recipiente permitido para isso, e o ressurgimento é gente se agarrando a ele porque a maioria dos outros recipientes já se foi.
Acho que vale dizer isso com todas as letras porque muda o que conta como uma boa compra. Se o relógio é, na verdade, um objeto de sentimentos, então especificações de movimento e materiais de bezel são, na maior parte, teatro, e a pergunta honesta não é "isto é horologicamente sério", e sim "isto ainda vai significar algo para mim, ou para alguém, daqui a trinta anos". A maior parte da coleção não vai passar nesse teste, e a ficha técnica nunca ia te dizer quais passam.