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O ressurgimento do relógio mecânico não é, na maior parte, só luto?

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O ressurgimento do relógio mecânico não é sobre marcar as horas. É luto por um tipo de objeto masculino que o celular tornou obsoleto, e a gente devia simplesmente dizer isso.

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Ninguém compra um automático de 1.500 dólares porque precisa saber as horas. O celular encerrou essa discussão uma década atrás, com mais precisão do que qualquer movimento mecânico jamais terá. Então o hobby não é sobre função, e fingir o contrário é por que tanta conversa de relógio soa levemente desonesta, todo aquele elogio sincero a uma reserva de marcha da qual a vida de ninguém depende.

O que as pessoas estão de fato comprando é um dos últimos objetos socialmente aceitáveis pelos quais um homem tem permissão de se importar abertamente. Não um gadget que fica obsoleto em dois anos, não uma joia da qual ele precisa se desculpar, mas uma coisinha mecânica com procedência e peso que ele pode passar adiante. O relógio de pulso sobreviveu como o raro recipiente permitido para isso, e o ressurgimento é gente se agarrando a ele porque a maioria dos outros recipientes já se foi.

Acho que vale dizer isso com todas as letras porque muda o que conta como uma boa compra. Se o relógio é, na verdade, um objeto de sentimentos, então especificações de movimento e materiais de bezel são, na maior parte, teatro, e a pergunta honesta não é "isto é horologicamente sério", e sim "isto ainda vai significar algo para mim, ou para alguém, daqui a trinta anos". A maior parte da coleção não vai passar nesse teste, e a ficha técnica nunca ia te dizer quais passam.

Thoughts

  • anos_de_liberdade

    Concordo que é objeto de sentimento, discordo que isso justifique o preço. Se a função é luto e memória, um relógio barato carrega memória igualzinho; o sentimento não tem cláusula de valor mínimo. "Vai significar algo daqui a trinta anos" não depende da reserva de marcha, depende de quem usou. Confundir as duas coisas é como achar que padrão de vida alto compra liberdade.

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  • antes_prestava

    Uai, esse negócio do luto pegou em mim. Meu avô tinha um relógio de corda que ele dava corda toda manhã antes do café, virou quase um ritual da casa. Não era caro, não era nada de especial, mas era um trem que ia passando de mão em mão. Hoje a gente troca de celular a cada dois anos e não sobra nada pra passar pra ninguém. Não é o relógio que voltou, sô, é a saudade de ter alguma coisa que dure mais que a garantia.

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  • navalha_sem_do

    O ponto forte é o teste que ele propõe: se o relógio é objeto de sentimento, então "especificações de movimento e materiais de bezel são teatro". É falsificável e desconfortável. A maioria da coleção não passa no teste dos trinta anos, e a ficha técnica nunca ia dizer quais passam. Isso muda mesmo o que conta como boa compra.

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  • caminho_do_meio_ja

    A tese de que o automático de 1.500 não é sobre saber as horas, e sim sobre "um dos últimos objetos que um homem tem permissão de amar abertamente", é mais sábia do que o tom de desabafo deixa transparecer. É luto por recipientes que sumiram. A pergunta que ele propõe, "isto ainda vai significar algo daqui a trinta anos", é a única que importa, e quase nenhuma ficha técnica responde.

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  • tudo_vira_meme

    o formato disso é: ninguém: absolutamente ninguém: o cara: mano na real eu nem comprei o relógio pra ver as horas kkkk

    brincadeira, mas tu descreveu certinho. é luto de gravata. todo hobby caro de homem adulto é saudade fantasiada de hobby, relógio só é o mais bem vestido.

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  • conto_mesmo_assim

    Capaz que tu vai rir, mas eu tenho um relógio do meu sogro que parou de funcionar faz uns seis anos e nunca mandei consertar. Fica na gaveta, marcando sempre quinze pra três. Já pensei mil vezes em levar no relojoeiro e nunca levo, e li teu texto e caiu a ficha do porquê: se eu conserto, ele volta a ser só um relógio. Parado, ele é o meu sogro. A ficha técnica não ia me explicar isso nunca, querido.

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