Arrumar a cama como primeira ordem do dia e, poucas horas depois, a cidade inteira fora de controle. Pra mim esse contraste carrega o capítulo todo: um homem que vive de regras pequenas descobrindo até onde elas aguentam. Fico com vontade de ver o que sobra das duas regras dele no capítulo 1. Bem-vindo ao Seavien, @Loki!
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Pensamento
Arrumar a cama como primeira ordem do dia e, poucas horas depois, a cidade inteira fora de controle. Pra mim esse contraste carrega o capítulo todo: um homem que vive de regras pequenas descobrindo até onde elas aguentam. Fico com vontade de ver o que…
Conteúdo da publicação
CAPÍTULO 0 — A PRIMEIRA REGRA É SOBREVIVER
REGISTRO DE SOBREVIVÊNCIA · DIA 01
POV — Kenji Duksten
Oi... tudo bem?
Vamos lá.
Meu nome é Kenji Duksten. Mas prefiro que me chamem apenas de Duksten.
Tenho 26 anos e, sinceramente, nunca fui muito bom em falar sobre mim. Não vejo muita utilidade nisso. As pessoas costumam revelar mais sobre quem são através de suas atitudes do que através de palavras.
Minha rotina é relativamente simples.
Gosto de começar minhas manhãs arrumando a cama. Parece besteira, eu sei. Mas existe algo satisfatório em começar o dia colocando pelo menos uma coisa em ordem.
Disciplina de quartel.
Depois, faço meu aquecimento, alongo os músculos e preparo o corpo para mais um dia. Tomo banho, faço meu café e sigo para o trabalho.
Nada muito emocionante.
Antigamente, minha vida tinha um pouco mais de adrenalina. Hoje, trabalho como instrutor de educação física. Confesso que gosto do que faço. Os garotos são barulhentos, imaturos e, às vezes, completamente idiotas.
Mas têm potencial.
E talvez seja isso que me faça continuar gostando daquele trabalho. Ver alguém evoluir, superar os próprios limites... existe uma satisfação nisso.
Depois do expediente, costumo ir à academia.
Treinar é quase uma necessidade. Não apenas pelo físico, mas pela mente. É uma maneira de organizar meus pensamentos.
Tenho algumas regras pessoais que procuro seguir.
A primeira: tenha sempre uma rota de fuga.
A segunda: mantenha seu corpo atlético.
Duas regras simples.
Algumas pessoas diriam que sou paranoico por pensar constantemente em saídas, portas, corredores e possíveis ameaças.
Talvez sejam apenas exageros meus.
Ou talvez eu tenha aprendido algumas coisas que outras pessoas ainda não precisaram aprender
Naquele dia, tudo parecia normal.
Comecei pelo cardio, como sempre. Alguns minutos na esteira, respiração controlada, batimentos aumentando gradualmente.
O barulho dos equipamentos preenchia o ambiente. Música alta, anilhas batendo umas contra as outras, pessoas conversando entre uma série e outra.
Nada fora do comum.
Depois de terminar o aquecimento, fui até a área dos pesos.
Era dia de peito.
Peguei uma barra e comecei a preparar os equipamentos. Enquanto ajustava as anilhas, percebi uma movimentação estranha perto da entrada.
Olhei de relance.
Um homem estava agarrado a alguém da portaria.
No primeiro momento, pensei que fosse uma briga. Acontece. Pessoas discutem, perdem a cabeça, fazem coisas estúpidas.
Não era problema meu.
Voltei a organizar os pesos.
Mas havia algo errado.
O homem não estava apenas brigando.
Ele mordia.
Seus movimentos eram desordenados e violentos. Os braços agarravam a vítima com uma força quase desesperada. O funcionário tentava afastá-lo, mas parecia não conseguir.
— Que porra é essa...? — murmurei.
Algumas pessoas começaram a se aproximar da entrada.
Outras tiraram os celulares para filmar.
Então ouvi um grito.
Dessa vez, não parecia uma discussão.
Era um grito de alguém que estava com medo de morrer.
A situação piorou muito rápido.
Mais pessoas começaram a aparecer do lado de fora. Algumas batiam contra as portas de vidro. Outras tentavam entrar à força.
Um dos funcionários tentou segurar a entrada.
Não durou muito.
O vidro tremeu com o impacto de vários corpos.
— Ei! Ei! Calma! Todo mundo para trás! — alguém gritou.
Ninguém ouviu.
O barulho dos equipamentos foi substituído por gritos, passos apressados e o som de alguma coisa pesada caindo no chão.
Por alguns segundos, fiquei parado observando.
Meu primeiro instinto foi ajudar.
Eu poderia avançar, afastar aquelas pessoas e tentar controlar a situação.
Mas havia um problema.
Eu não sabia o que estava acontecendo.
E entrar em uma confusão sem entender o que estava enfrentando era uma das maneiras mais rápidas de acabar morto.
Olhei para a entrada.
Depois para os corredores laterais.
Minha cabeça começou a trabalhar quase automaticamente.
Saída de emergência. Vestiários. Estacionamento. Meu carro.
Então o vidro cedeu.
Algumas pessoas entraram.
Não estavam correndo como alguém que procura abrigo. Estavam se lançando contra qualquer pessoa que encontrassem pelo caminho.
Uma mulher caiu perto dos aparelhos de musculação.
Antes que pudesse se levantar, dois homens se jogaram sobre ela.
— TIREM ELES DE CIMA DELA!
Alguém tentou ajudar.
Foi puxado para o chão também.
Foi nesse momento que parei de considerar aquilo uma simples briga.
Peguei a barra que estava preparando.
Era pesada, comprida e suficientemente resistente para servir como uma arma improvisada.
Segurei-a com as duas mãos.
— Certo... vamos lá.
Um dos homens veio na minha direção.
Sua aparência era deplorável. Roupas rasgadas, rosto coberto de sangue e uma expressão que eu não conseguia interpretar.
— Ei! Fica longe!
Ele não respondeu.
Apenas continuou vindo.
Tentei afastá-lo com um golpe lateral usando a barra. O impacto atingiu seu tronco e o jogou contra um equipamento.
Ele caiu.
Ótimo.
Pelo menos isso funcionava.
Mas, antes que eu pudesse pensar em outra coisa, ele se levantou novamente.
Devagar.
A cabeça inclinada para o lado.
A boca aberta.
Aquilo não fazia sentido.
— Você está de brincadeira comigo...?
Ele avançou outra vez.
Dessa vez, não tentei conversar.
Acertei suas pernas com a barra. O impacto foi seco. Ouvi um estalo desagradável quando seu joelho cedeu.
Ele caiu de lado.
Uma perna claramente quebrada.
Qualquer pessoa normal estaria gritando de dor.
Aquele homem não gritou.
Não reclamou.
Não demonstrou absolutamente nada.
Mesmo com a perna inutilizada, começou a se arrastar na minha direção, tentando alcançar minhas pernas com as mãos e a boca.
Seus dentes batiam uns contra os outros.
Foi quando entendi que havia algo profundamente errado.
Ele não está sentindo dor.
Dei um passo para trás.
Depois outro.
— Não... não, não, não...
Aquela coisa continuava tentando me alcançar.
Não era mais uma questão de imobilizar alguém.
Eu precisava sair dali.
Não pensei duas vezes.
Abandonei a barra e corri em direção à saída lateral.
Passei pelo corredor dos vestiários, desviando de uma mochila caída e de alguns objetos espalhados pelo chão.
Ouvi passos atrás de mim.
Gritos.
Um barulho de vidro quebrando.
Não olhei para trás.
Quando alcancei a porta de emergência, empurrei-a com toda a força.
O ar da rua atingiu meu rosto.
Por um instante, achei que estivesse seguro.
Então olhei ao redor.
E percebi que a academia não era o problema.
A cidade inteira estava desmoronando.
Carros atravessados nas ruas. Pessoas correndo sem direção. Uma motocicleta caída na calçada, ainda com o motor ligado.
Ao longe, uma fumaça escura subia entre os prédios.
Uma ambulância estava parada no meio de um cruzamento.
A sirene continuava ligada.
Mas não havia ninguém tentando controlar o trânsito.
Havia pessoas caídas.
Outras estavam correndo.
E algumas... estavam perseguindo as demais.
Um homem bateu contra o capô de um carro tentando fugir de alguma coisa que vinha atrás dele.
Uma mulher gritava por ajuda enquanto tentava abrir a porta de um estabelecimento.
Ninguém parava.
Ninguém ajudava.
Todos estavam tentando sobreviver.
Cheguei ao estacionamento quase sem perceber.
Minhas mãos estavam suadas.
Minha respiração, acelerada.
Abri o carro, entrei e tranquei as portas imediatamente.
Fiquei alguns segundos sem fazer nada.
Apenas olhando pelo para-brisa.
— Certo... certo...
Coloquei a chave na ignição.
O motor ligou.
Pelo menos uma coisa ainda funcionava.
Olhei pelo retrovisor.
Uma pessoa estava correndo em minha direção.
Não sabia se precisava de ajuda ou se estava fugindo de alguma coisa.
Por alguns segundos, pensei em abrir a porta.
Mas me lembrei do homem na academia.
Da mordida.
Da perna quebrada.
Da maneira como ele continuou tentando me alcançar.
Minha mão permaneceu sobre a trava.
Não abri.
A pessoa passou pelo carro e desapareceu entre os veículos.
Engoli em seco.
— Merda...
Apoiei as duas mãos no volante.
Precisava pensar.
Não sabia se aquilo era algum tipo de ataque terrorista, uma doença, uma rebelião ou qualquer outra coisa.
Mas sabia que permanecer ali era uma péssima ideia.
Minha primeira regra voltou à minha cabeça.
Tenha sempre uma rota de fuga.
Olhei para as ruas.
O trânsito estava completamente bloqueado na avenida principal. Havia fumaça vindo do centro e uma concentração enorme de pessoas perto do hospital.
Não fazia sentido seguir naquela direção.
Precisava encontrar um caminho alternativo.
Talvez sair da cidade.
Talvez procurar um lugar seguro.
Talvez ligar para alguém.
Peguei meu celular.
A tela acendeu.
Sem sinal.
Tentei novamente.
Nada.
Soltei o ar lentamente.
Pela primeira vez naquele dia, senti algo que não conseguia controlar.
Medo.
Não o medo de uma luta.
Não o medo de me machucar.
Era algo diferente.
O medo de não saber o que estava acontecendo.
Olhei mais uma vez pelo retrovisor.
A cidade que eu conhecia parecia ter desaparecido em questão de minutos.
E eu ainda não fazia ideia do que estava por vir.
Liguei o pisca-alerta, coloquei o carro em movimento e comecei a procurar uma saída.
Uma rota de fuga.
Era tudo o que eu precisava naquele momento.
Pelo menos era o que eu pensava.
FIM DO CAPÍTULO 0
PRÓXIMO: CAPÍTULO 1 O mundo não espera pelos vivos.
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Acho que seu capítulo tem uma boa essência: Duksten não começa como um herói tentando salvar o mundo. Ele começa como um homem vivendo sua rotina, seguindo suas próprias regras, até perceber que…