Há alguns dias, ando bastante reflexiva, pensando nas pessoas queridas que já partiram deste plano e que, visivelmente, já não estão mais presentes entre nós.
Em especial, tenho pensado muito no meu padrasto. Na sua ausência, sim, mas, principalmente, no tempo em que tive o privilégio de sua presença.
Eu nunca morei na mesma casa que meu pai. Nunca tive aquela presença paterna cotidiana, até que minha mãe se casou com meu padrasto. E, quando isso aconteceu, senti ciúmes, resistência. Eu não queria me adaptar àquela nova presença. Até então, sempre fomos eu, minha mãe e minha avó. Quando minha avó faleceu, eu tinha apenas sete anos, e minha vida até então, cotidianamente, era feita só de mulheres. Minhas referências eram femininas, mulheres que eu conhecia desde sempre, que faziam parte de tudo o que eu entendia como lar. E eu não queria que isso mudasse.
Mas, para além da minha vontade, a vida mudou. E ainda bem.
Conviver com meu padrasto foi uma bênção na minha vida. Vivemos juntos por apenas cinco anos, até que ele, infelizmente, faleceu. Mas hoje não venho falar da sua partida. Venho falar da sua presença. De como ele preencheu o cotidiano com seu amor mais sincero por uma criancinha de oito anos, muito levada e, como eu mesma disse, resistente.
Ele soube amolecer toda aquela marra com o passar dos dias, dos meses. E, quando percebi, já tinha nele um melhor amigo, um confidente, alguém em quem eu confiava, alguém que me fazia sentir segura. Para mim, se ele estava ali, nada de ruim poderia acontecer comigo ou com minha mãe. Ele realmente se tornou aquele velho estereótipo do pai super-herói, aquele que, aos olhos de uma criança, parece capaz de proteger o mundo inteiro.
Ele me ajudava com os deveres de casa, principalmente os de matemática. Levava-nos para passear e também me dava broncas, das quais me lembro até hoje. Broncas e ensinamentos que, junto com tudo aquilo que aprendi com minha mãe, ajudaram a moldar o meu caráter e que continuam comigo na vida adulta.
E fico pensando em como a presença de alguém e a transformação que essa pessoa provoca em nossas vidas não têm necessariamente a ver com o tempo. Em apenas cinco anos, ele se tornou minha referência, meu porto seguro, meu lugar de confiança. E, mesmo depois de dezesseis anos da sua morte, tudo isso permanece vivo até hoje.
Todas as pessoas próximas a mim, inclusive aquelas que só me conheceram depois da partida dele, sabem de alguma história nossa que, em algum momento, eu já contei. Conhecem um pouco da transformação que ele provocou na vida da minha mãe e na minha. É como se, de tanto falar dele, eu encontrasse um jeito de mantê-lo por perto. Como se cada lembrança compartilhada fosse uma pequena maneira de dizer que ele continua aqui, mesmo sem estar.
E, entre tantas lembranças, há uma que sempre me emociona, a do nosso último momento juntos.
Eu sempre amei pipoca. Já era noite, bem tarde, e eu estava com muita vontade de comer. Minha mãe não queria fazer e também não queria que eu fizesse. Ela já estava cansada, pensou na bagunça, na panela para lavar e não deixou.
Ele ouviu a nossa conversa e, geralmente, teria concordado com minha mãe. Ele era uma pessoa muito organizada, que gostava da casa limpinha, e eu tinha certeza de que também não me deixaria fazer pipoca àquela hora. Mas, curiosamente, naquele dia, ele ficou do meu lado. Concordou comigo e disse que ele mesmo faria.
Então, eu e minha mãe ficamos ali, esperando com ele na cozinha.
Os milhos começaram a estourar. Ele havia colocado bastante, e era um estouro atrás do outro. O cheiro já estava delicioso, e eu, com água na boca, mal conseguia esperar. Ele, com toda a calma do mundo, pedia que eu tivesse paciência, que ainda havia mais milhos para estourar.
E eu esperava, ansiosa, enquanto ele cuidava daquelas pipocas com a tranquilidade de quem não tinha pressa alguma.
Quando desligou o fogo e despejou tudo na bacia, aconteceu algo que até hoje guardo com carinho, nenhum milho ficou sem estourar. Todos haviam se transformado em pipocas crocantes, exatamente do jeito que eu gostava.
No dia seguinte, bem cedinho, ele viajou a trabalho, e nunca mais voltou.
Teve um infarto, e eu nunca mais pude conversar com ele. Foi um dos dias mais difíceis da minha vida. Sem aviso, sem que tivéssemos a chance de nos preparar, tudo mudou. O mundo que eu conhecia já não era o mesmo, e foram necessários meses para que minha mãe e eu começássemos a assimilar o que havia acontecido. Mas o tempo e a fé têm seus próprios modos de transformar as coisas.
Nos meses seguintes, eu não me lembrava daquela cena da pipoca. Não conseguia acessar a leveza daquele momento, a simplicidade daquela noite, o amor escondido em um gesto tão cotidiano. Eu me lembrava apenas da dor. A ausência era tão grande que parecia ocupar todos os espaços, até mesmo aqueles onde antes moravam as boas lembranças.
Mas, aos poucos, o tempo foi abrindo espaço. Os momentos felizes começaram a voltar à minha mente e ao meu coração. Eu e minha mãe conseguimos voltar a falar da sua presença, a compartilhar histórias, a rir de algumas delas e a nos emocionar com tantas outras. Claro, a emoção era, e ainda é, inevitável. Mas, pouco a pouco, tudo foi encontrando um novo lugar dentro de nós. As lembranças foram se ressignificando, e a saudade, sem deixar de doer, também passou a aquecer.
Até que, um dia, nos lembramos da última pipoca que ele fez para mim. Lembramos que todos os milhos haviam estourado. E acho que aquela foi a primeira e a última vez que isso aconteceu.
Sempre que fazemos pipoca, sobra um milhozinho ou outro, teimoso, que insiste em não estourar. Mas eu não fico brava com isso, pelo contrário. De alguma forma, sorrio por dentro, porque me lembro de que aquela pipoca perfeita precisava ser marcada por ele. Precisava pertencer àquele momento, àquela noite, àquele homem que transformou para sempre as nossas vidas.
Hoje, gosto de pensar que aquela pipoca foi uma espécie de despedida que a vida nos permitiu viver sem que soubéssemos. Um instante tão simples, tão comum, que só depois ganhou a dimensão de uma lembrança eterna. Naquela noite, eu só queria comer pipoca. Não fazia ideia de que, sem saber, estava guardando comigo um dos últimos gestos de amor que receberia dele.
E talvez seja assim que o amor permaneça escondido nas pequenas coisas, nos detalhes que, enquanto acontecem, parecem não ter nada de extraordinário, mas que o tempo transforma em tesouros. Uma conversa na cozinha, uma vontade atendida, a paciência de esperar todos os milhos estourarem. Coisas pequenas para o mundo, mas imensas para quem fica.
Tenho certeza de que ele continua intercedendo por nós, com sua alma bondosa e repleta de amor. Gosto de acreditar que, de alguma forma, sua presença ainda nos acompanha, mesmo que agora se manifeste de maneiras que os olhos não podem ver.
E que bom poder lembrar da sua presença. Que bom perceber que, apesar da brevidade dos nossos cinco anos juntos, ele deixou marcas que dezesseis anos de ausência não foram capazes de apagar. Porque, no fim, talvez o tempo de uma presença não se meça pelos anos que ela dura, mas pela eternidade que ela inaugura dentro de nós.
Algumas pessoas passam por nossas vidas e deixam lembranças. Outras nos transformam de tal maneira que continuam vivendo em quem nos tornamos.
Ele foi assim.
E, toda vez que uma pipoca deixar um milhozinho sem estourar, uma parte de mim voltará àquela cozinha, àquela noite, àquele amor. E eu me lembrarei de que tive a sorte de ter ele em nossas vidas. Porque há ausências que o tempo não preenche, mas há presenças tão bonitas que nem mesmo a perda consegue levar por inteiro.