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O que nos é vedado

MaiconGuilherm
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Pensamento

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EsquinaDaLeitura

Égua, esse eu dava pro seu Raimundo, que passa o dia xingando o noticiário e pedindo tiro pra tudo. Ia ficar bravo com o ponto vermelho dançando na testa da moça também, e ia jurar que a velha é invenção. Dá pra ver que tu escreveu pensando em gente assim

Égua, esse eu dava pro seu Raimundo, que passa o dia xingando o noticiário e pedindo tiro pra tudo. Ia ficar bravo com o ponto vermelho dançando na testa da moça também, e ia jurar que a velha é invenção. Dá pra ver que tu escreveu pensando em gente assim, a calçada decidindo a morte antes de saber o nome do homem.

Conteúdo da publicação

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O QUE NOS É VEDADO

Quatro e quinze da tarde.

Vários carros da polícia em frente a um minimercado. Daqueles pequenos que vêm rápido à memória. Policiais nervosos.

Atrás do cordão de isolamento, o povo. Curiosos, aflitos. Espectadores.

Um policial com megafone:

"Não faz besteira... qual o nome dele?"

O outro, ao lado:

"Parece que é Luis."

"Não faz besteira, Luis. Ainda dá pra resolver."

Dentro, gente sentada no chão, com medo. Também espectadores.

Em pé, Jair. Homem comum, roupa comum, apontando uma espingarda velha para a cabeça de uma moça que chorava e chamava pela mãe, pelo pai, por Deus.

"O que você quer?", grita o megafone.

"Respostas. Só respostas. E de hoje não passa."

Jair tinha entrado minutos antes. A moça estava no caixa, pagando um shampoo. Ele atirou para cima.

"Todo mundo sentado ou vocês vão saber do que eu sou capaz!"

Ele tremia. Havia ódio e medo na voz. Com o tiro, pó de concreto caiu. Gritos. Produtos caindo. Caos. Apenas um caos abrupto.

"Desculpa, menina. Mas cansei de esperar. E hoje eu vou conseguir."

"Fecha a porta", disse Jair para um menino sentado.

O menino obedeceu e voltou a sentar. Vizinhos chamaram a polícia. Ela chegou. Depois, as TVs. Os abutres da internet. Os curiosos. O cenário estava completo.

"Cala a boca, não faz nada e você já já vai pra casa. Se der tudo certo, vai ser rápido", Jair sussurrou no ouvido da refém.

"O que você quer, Luis? Podemos ajudar, você não está sozinho", disse o megafone.

Jair começou a rir e chorar ao mesmo tempo.

"Você não está sozinho? Kkkkk deve ser do manual anti-malucos, né?"

A moça, desesperada, ouviu ele dizer baixinho:

"Nem pra falar meu nome o mundo fala..."

Foi quando alguém da multidão que o conhecia gritou:

"JAIR, MOÇO! O HOMEM SE CHAMA JAIR!"

O policial emendou rápido:

"Jair, perdão... vamos negociar."

Jair gritou:

"Então tá bem! Mas não vai ser com você!"

O policial olhou para os outros, com espanto.

"Eu sei o que eu quero. E se eu não tiver minha resposta, pela primeira vez na minha vida, vai acabar como EU quiser!"

Os curiosos só aumentavam. Todas as TVs já estampavam:

AO VIVO: BANDIDO MANTÉM REFÉM SOB MIRA, POLÍCIA NEGOCIA!

A rua congestionou. Buzinas. Carros. Lotação. Mãe com a mochila dos filhos numa mão e o filho na outra. Pipoqueiro olhando e vendendo.

"O que tá acontecendo?"

"Sei lá, deve ser por causa de droga, né?" - conversas de calçada.

"Eu sempre fiz tudo certo. O último a sair, o primeiro a chegar. Resisti a todas as tentações. Nunca hesitei diante do que era errado. Bom filho, bom pai... só quero minha resposta... e só um pode me dar... e não é você!", desabafou Jair.

A moça já não chorava mais. Começava a ouvi-lo.

"Calma, Jair... você tá confuso... isso acontece."

Lá fora, o povo já tinha seu veredito: morte. Morte do Jair e de quem fosse preciso para matar o Jair.

Candidatos que pregam soluções vazias e rápidas chegaram ao palco. Faziam lives, culpavam todos que não estavam com eles.

"Um tiro de sniper e tá resolvido. Me dá uma e a história acaba." Todo mundo tem uma solução rápida.

"Não chega perto!", gritou Jair.

O policial do megafone recebeu uma ligação. Era o governador. Pedido simples: acabe logo com isso.

"Mas senhor, a moça... sim, senhor... mas tem muita gente... sim, senhor, agora mesmo!"

Desligou e disse ao outro oficial, baixo:

"Manda atirar."

Jair não via, mas um ponto vermelho dançava em sua testa. Hora em Jair, hora na moça.

Policiais se aproximaram da porta, esperando uma brecha.

Jair sentiu a barriga doer, formigar. A moça também entendeu o que estava prestes a acontecer.

O que Jair não percebeu foi um funcionário do mercado rastejando lentamente desde o início, tentando a sorte.

Jair se desviou. A moça caiu e bateu a cabeça no caixa. Jair atirou na parede. O paladino da ocasião sentou novamente.

Jair viu os policiais querendo entrar e apontou a arma para a moça já desmaiada do shampoo.

"Se afastem! Não tô pra brincadeira!"

O sniper perdeu o ângulo. Os policiais se afastaram. Calma. Por enquanto.

"Tudo bem, Jair, nos desculpe, TODOS ESTAMOS NERVOSOS AQUI, assim como você."

"Cala a boca!"

"Você venceu, Jair... com quem você quer falar?"

"Ele sabe. E hoje não saio daqui sem resposta."

Nisso, no meio do trânsito parado, um ônibus da terceira idade encostou. Senhoras e senhores que voltavam de um compromisso desceram, olhando preocupados.

Uma senhora comum, cabelos brancos, olhos mansos, bolsa típica de senhora, foi em direção à porta do mercado.

Policiais conversavam entre si. Espectadores discutiam o desfecho. E ela andava. Já perto da porta. Ninguém ligou para ela.

Ela chegou na porta.

Jair, com a moça no colo e a arma apontada, não entendeu.

"Quem é essa velha?"

A senhora entrou.

"Como está a minha menina?"

Jair se assustou.

"Sua filha? Neta?"

Ela balançou a cabeça com um sorriso doce, acenou que sim. E entrou.

"O que tá acontecendo?", perguntou a senhora.

"Ninguém me ouve, ninguém me explica e ninguém me entende."

"Será que não posso te ajudar? Uma velha já viu de tudo e viveu de tudo..."

"Se eu fosse a senhora, iria embora. Eles vão atirar assim que puderem!"

Ela sorriu, olhou para trás e disse:

"Eu sei... mas fique tranquilo, eles gostam da crueldade, mas se envergonham de filmá-la. Temos tempo para conversar."

Olhou para a frente:

"Diga. Tenho todo o tempo que você precisar... vai que a pessoa com quem você busca resposta já já apareça, né?"

Jair, com o olhar já sem esperança e quase voltando da embriaguez de fúria, acenou que sim.

"Me diga, senhora... por quê? Por que? Eu todos os dias busquei ser um ser humano melhor... dei o meu melhor... eu os amava... por quê?"

A senhora, com voz calma, disse:

"Já tive um filho. Ele era tudo para mim."

"Teve?", indagou ele.

"Sim. Ele era a luz da minha vida. Vi nascer, crescer, sonhar..."

Olhou para baixo e continuou:

"Cresceu e se tornou adulto... era construtor de casas... e fazia algo que todos não faziam: era de fácil acesso, não tinha burocracia, não tinha complicações..."

Jair fez uma cara de dúvida.

"Mas pessoas poderosas que já estavam nesse meio se irritaram... até quem tinha casas que meu filho havia construído para eles..."

"O que aconteceu?", perguntou Jair.

"Mataram. Depois de inúmeras tentativas... mataram."

Ela chorou suave. Jair se solidarizou. Se viu nela.

"Ele era bom, você já ouviu falar dele?"

Jair negou.

"Não, quando foi isso?"

"Há pouco tempo... pelo menos para mim. Você não lembra? Foi no mesmo dia que aquele povo foi para a frente da delegacia pedir para soltar aquele influencer que ficou milionário propagando bets..."

Jair não lembrava.

"Você não quis justiça? Vingança?"

O rosto dela se fechou. Ódio puro:

"Queria despedaçá-los. Castigá-los..."

"Por que não o fez?"

"Sempre vem ao meu ouvido direito a voz do meu filho dizendo: não, nunca."

"Então... qual a lógica?"

Ela respirou e sua voz voltou a ser serenidade. Falou alto, para o mercado inteiro ouvir:

"NÃO ESTÁ A NOSSO ALCANCE O QUE NÃO É DE NOSSA ESCOLHA. ASSIM COMO ACONTECEU COM JESUS EM SEU JULGAMENTO, ASSIM COMO O POVO ESCOLHENDO BARRABÁS... O QUE NÃO É DE NOSSA ESCOLHA NOS É VEDADO."

E completou, baixinho, só para ele:

"Todos os dias, meu filho, alguém escolhe Jesus e outros Barrabás... e todos nós vivemos no mesmo mundo... como vamos esperar não encontrar quem escolheu Barrabás e sermos atingidos pelo seu livre arbítrio?"

Jair abaixou a cabeça. Entendeu. Não era quem ele esperava. Mas teve sua resposta.

Chorou como um filho que acabara de perder a mãe, com a moça em seus braços. Seu mundo voltou a fazer sentido.

A arma caiu. A velha pegou e colocou dentro de sua bolsa típica de senhora.

A polícia entrou. Era o fim do cerco, do show, da pergunta.

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Um ano depois.

Jair está preso. Não havia outro desfecho. Mas estava em paz. Era um detento exemplar. Até os guardas gostavam dele.

"Visita para você, Jair!"

"Quem é?"

"Não sei, mas é bonita."

Jair foi até a sala. Era a moça do shampoo, que agora ele sabe que se chama Madalena.

"Oi, Jair. Vim te trazer boas notícias, o advogado conseguiu diminuir sua pena. Meu pedido ajudou..."

"Obrigado, Madalena... e a velha? Descobriu quem ela era?"

Madalena sorriu:

"Não. Ninguém nunca a viu. Ninguém a conhecia..."

Jair olhou para cima e sorriu.

A vida continua.

FIM

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Thoughts

  • tintaDeTerca

    O funcionário rastejando desde o começo e depois sentando de novo como se nada fosse. Ri alto, a única hora do cerco em que dá pra rir.

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  • ArnaldoBessa

    O Jair dizendo que sempre foi o último a sair e o primeiro a chegar, bom filho e bom pai. Conheci muito homem assim, e a raiva de quem fez tudo certo é a mais perigosa que existe.

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  • poeta93

    Pipoqueiro vendendo. 😶

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  • Oliviamar

    O sniper. Pois.

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  • LivroDeCabeceira

    Adorei a velha guardando a espingarda na bolsa como quem guarda o troco. Que senhora!

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  • EsquinaDaLeitura

    Égua, esse eu dava pro seu Raimundo, que passa o dia xingando o noticiário e pedindo tiro pra tudo. Ia ficar bravo com o ponto vermelho dançando na testa da moça também, e ia jurar que a velha é invenção. Dá pra ver que tu escreveu pensando em gente assim, a calçada decidindo a morte antes de saber o nome do homem.

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  • GasparRibeiro

    O cerco começa a meio da tarde e antes do fim já há candidatos a fazer lives. Isto saiu de algum caso que viste na televisão?

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  • IsauraBrandao

    Menino, essa velha que ninguém conhecia é igualzinha às histórias de santa que minha avó contava, a santa que aparece na hora do aperto, resolve e some sem deixar nome.

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  • Ovid

    O ônibus da terceira idade parando no meio do trânsito foi o detalhe que eu não vi chegando, e me fez pensar em quantas vezes quem resolve uma cena dessas é justamente a pessoa que ninguém olha. Aposto que muita gente vai discutir quem era a velha, e eu prefiro não saber. Obrigado por postar a história inteira!

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  • HoracioMelo

    A velha a andar até à porta enquanto toda a gente discutia o fim. Ninguém a viu porque ninguém olha para quem vai devagar.

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