Eu disse adeus,
mas alguma coisa em mim
não entendeu.
Talvez o corpo tenha partido,
talvez os caminhos tenham se separado,
talvez a vida tenha colocado
quilômetros, silêncios e noites
entre nós.
Mas o amor…
o amor não obedece despedidas.
Ele ficou.
Escondido nas coisas pequenas,
no perfume de uma lembrança,
numa música que eu não esperava ouvir,
naquela hora da noite
em que o mundo inteiro se cala
e a saudade resolve falar.
Eu tentei te guardar
onde se guardam as coisas terminadas.
Não consegui.
Porque você não virou passado.
Virou presença
sem corpo.
E talvez essa seja
a forma mais cruel de saudade:
quando alguém já não está
e, ainda assim,
continua acontecendo dentro da gente.
Às vezes penso
que te esqueci.
Então olho para o céu
e alguma estrela
tem o teu nome.
E eu lembro.
Lembro do que fomos,
do que quase fomos,
do que poderíamos ter sido
se a vida tivesse nos encontrado
em outra hora,
com menos medo,
menos feridas,
menos coisas para perder.
E dói.
Dói porque houve verdade.
Porque ninguém sofre assim
por aquilo que não significou nada.
O que tivemos foi grande demais
para morrer simplesmente
porque dissemos que acabou.
Por isso não vou mentir para mim:
há uma parte de mim
que ainda te procura.
Não para exigir que você volte.
Não para rasgar o tempo
e obrigá-lo a nos devolver.
Apenas porque algumas pessoas
entram tão fundo na nossa história
que, mesmo quando partem,
deixam a porta aberta
dentro da alma.
Se um dia
o meu nome atravessar teu pensamento
sem que você saiba por quê,
não lute contra isso.
Talvez seja apenas
aquilo que fomos
lembrando que existiu.
E se algum dia
a saudade apertar
do mesmo jeito que aperta em mim,
não tenha vergonha dela.
Há amores que não pedem retorno.
Pedem apenas
que sejam reconhecidos.
Eu não sei o que o tempo fará conosco.
Talvez transforme tudo em silêncio.
Talvez nos ensine a seguir.
Talvez um dia
a lembrança deixe de doer.
Mas hoje,
se me perguntarem
o que restou de nós,
eu não direi que restou nada.
Direi que restou
o impossível:
um amor que perdeu o caminho,
mas não perdeu a memória
de onde queria chegar.
E enquanto houver
uma parte de mim
que ainda estremecer
ao lembrar de você,
não chamarei isso de fim.
Chamarei de cicatriz.
Porque a morte leva aquilo que termina.
Mas há coisas
que nem a morte consegue levar.
E você…
você é uma delas.