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O Poder da Reza Zulu

Pietrodeluccapoeta777
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Trechos do livro O Diário de HO'pretuLù Mpandè

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Pensamento

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oitoemponto

Os 400ml de água e a espiga de milho... esses números ficam tipo um fato que bate diferente.

Os 400ml de água e a espiga de milho... esses números ficam tipo um fato que bate diferente.

Conteúdo da publicação

O Poder da Reza Zulu

Trechos do livro O Diário de HO'pretuLù Mpandè

Há feridas que nem com o assopro amigo são capazes de amenizar a dor, quando a incisão do corte é na alma, tudo vira uma úlcera crônica. A mercê deste destino que parece tão desfavorável vamos indo, deixando para trás toda nossa essência, fragmentos da nossa história tudo viram farelos que os ventos levam pra debaixo das águas. Todos nós estamos quebrados por dentro, enfim, são apenas lamentos e rupturas irreversíveis, destes milhões de sequestrados quase nenhum voltarão para casa, muito menos rever os seus. No mundo inteiro têm espalhado um pedacinho do continente africano!

Enfim, é chegado o momento que eu tanto temia e sempre evitava, mas sabia que dia menos dia eu passaria pela ação truculenta da tripulação daquele navio negreiro, ali ninguém escapava, qualquer motivo por banal que fosse os espancamentos eram as sentenças e como o espaço era reduzido, o cativo a ser espancado era levado até o convés e lá era um dos cenário mais tristes e horrendos que um homem podia guardar na alma, na mente e no coração as humilhações eram as pequenas amostras do que viriam em terra firme.

Exatamente naquele 12º dia depois de ceder 100ml da água que eu tinha direito a um preto velho desfalecido pela fome e sede, um dos corsários parou na minha frente e sem dizer uma palavra me deu um estrondoso tapa na cara com a mão aberta, com o impacto eu caí e levantei rapidamente, o preto velho corajoso pediu para que aquele marujo não fizesse aquilo, além de ignorado tomou um chute no meio rosto e caiu ensanguentado e desacordado.

O corsário malvado falou que se aquele preto velho morresse seria jogado ao mar! Essa carne velha vai servir de petisco aos tubarões.

Este mesmo corsário junto com outro tripulante pegaram pelos meus braços e aos socos e pontapés fui levado ao convés e lá no momento em que sofria tamanha violência só me restou rezar, e pude sentir O PODER DA REZA de um ZULU e rezei em meu pensamento com toda fé que eu tinha! (naquelas ações ninguém sabia se voltava vivo ou não).

Me ocorreu dois fenômenos depois que implorei a proteção dos Deuses (Exus) e ancestrais! Aqueles brancos me batiam veementemente no rosto, no tórax com muita intensidade e força que tinham, sangrei muito, perdi muito sangue, graças a proteção dos Deuses, visivelmente fiquei muito machucado mas praticamente não senti nada e percebi que ganhei mais forças e proteção em especial do meu "Pai Xangô".

Um terceiro corsário, sem demonstrar que estava em minha defesa, deu um sonoro grito e falou! Já basta dessa maluquice, chega de bater neste negrinho, só porque ele ajudou a gente do seu sangue, deixe-o em paz, senão quando chegar em terra firme o navio vai estar vazio e não teremos escravos para vender.

Depois daquela surra, rezei baixinho e agradeci aos Deuses (Exus), chorei baixinho e percebi uma verdade! Em qualquer operação e ações de agressões tem sempre um que tem um bom coração!

Já no meu cantinho no porão, alguns negros me olhavam com cara de pena, outros tentando dizer alguma palavra de força e otimismo (tudo só pelo olhar) pois qualquer quebra de silêncio já era motivo para os açoites. Era uma situação nova para todos ali, toda rivalidade que tínhamos na África entre as tribos o navio negreiro serviu para nos unir, e juntos vimos que somos irmãos de cor. Mesmo porque ali sendo preto éramos todos iguais, as rivalidades ficaram para trás.

Nossa história não é nenhum pouco glamurosa e sim de muito sofrimento, de muito lamento, de muita saudade e o constante coração partido, eu HO'pretuLù Mpandè aprendi muito com os guerreiros Zulus que temos que ter fibra, coragem e audácia antes porém, agir com estratégia e aguentar sempre firme as intempéries porque nada é eterno e este mundo não nos pertence.

Lamentavelmente para cada cativo eram 400ml de água por dia e uma espiga milho encharcada e cozida, essa era a nossa alimentação diária, vez em quando um mingau ou um ração rala a base de arroz e trigo fria e sem sal. Às vezes rolava uma carne de tubarão..

Não resisti a ficar vendo aquele velho sangue africano desfalecendo por desidratação, como eu estava fisicamente bem, com boa resistência cedi 100ml da minha parte que não me prejudicaria mesmo porque o respeito aos mais velhos é lei no povo africano.

Ali naquela embarcação estavam duas ou três gerações de várias famílias, tribos e aldeias, quase todos sofreram todo tipo violência pelas mãos dos algozes principalmente as mulheres, segundo consta na história, vivemos dias de intenso calor que era escaldante e abrasador, o desconforto térmico era terrível, mas sabíamos que as noites também eram termicamente muito frias e esse outro tipo de desconforto térmico também tirava a nossa suposta paz.

Infelizmente naquela noite o preto velho o qual cedi minha água ganhou a sua liberdade, com a pouca roupa que estava, ele não resistiu a madrugada do 13º dia da viagem maldita que estava muito fria e a friagem cumpriu o seu papel de algoz da natureza ceifando a vida do nosso velho irmão.

Também ele já estava com a aparência maltrapilha, o corpo debilitado e lesionado a iminência da sua morte era visível, os sinais da crueldade estavam bem presentes, só ele sabia o peso do seu sofrimento. Com as mãos visivelmente trêmulas o preto velho dava sinais que logo partiria e assim, ele se foi pelos covardes que o espancaram infinitas vezes.

Todos os seus ensinamentos estão guardados aqui dentro dos nossos peitos, ele falava em Iorubá e igbo, todo machucado. As sequelas dos espancamentos que ele sofreu encurtaram a sua passagem pela Terra.

“… Lutem, lutem, lutem eu sou um Iorubá, aqui tem Igbos, tem Zulus, mesmo que sangrem nossos corações, pois quando já não se tem mais a força física, a força da mente também é uma arma, basta saber usá-la que a vitória não vai faltar” (só os negros entenderam o que ele falou expressando em Iorubá)..

Com muito pesar carregamos o corpo do preto velho carregado nas marcas da brutalidade e das violências sofridas, assim seguiu o curto cortejo em direção ao mar. .

Com os olhos fechados, semblante triste Ele foi embora após ser arremessado no Atlântico mas as cicatrizes de tudo isso nos acompanharão por muitos anos ou pelo resto da vida, hoje estou triste, machucado, um pouco febril mas não posso esmorecer… Guerreiro vacilante é guerreiro morto!

Todos nós até os mais fortes guerreiros, nos sentíamos uns trapos com aquelas roupas sujas e rasgadas, com o destino incerto, muitos negros às vezes eram encontrados de joelhos rezando, suplicando por uma saída, solução pois muitos de tanto apanhar já estavam com problemas na coluna, sem contar o cansaço físico e mental, grande parte dos escravos, estavam completamente doentes praticamente só esperando a hora de ganhar a liberdade (morte).

Meu canto é um choro, meu choro é um lamento, tudo isso serviu para unir a África fora dela mas serviu também para nos destruir, com certeza nenhum de nós voltará mais para o continente africano (as lágrimas escorriam pelo rosto do HO'pretuLù Mpandè enquanto falava), gente aqui dentro do peito parece um vulcão de tão revolto que está mas não tenho o direito prejudicar o grupo, temos muitas crianças, mulheres e idosos aqui, eles merecem nosso respeito. E encerrou seu pronunciamento gritando "M'pondè, Mpandè, Mpandè" o sobrenome da família real. Ele acreditava que em algum lugar do mundo seria ouvido por algum ente de forma vibracional …

A Minha História! (poema-prosa)

Escrever a minha história é viver novamente o jorrar depreciativo de tanta maldade pela falta de amor ao próximo.

Ando ancorado em meu passado pelas nuvens feito um anjo sempre com a sensação que o pesadelo nem começou.

A cada momento naquele ar cinzento, tudo parecia fúnebre, sombrio, mesmo munidos pela forja de guerreiros, o medo nunca nos abandonou mas a coragem jamais titubeou porque o Ogum sempre foi a nossa luz nas batalhas, salve Ogum o grande guerreiro.

Que heresia, a sede destrói, a resseca desidrata e até mata, as águas das chuvas não servem, putrefata muito menos, tem horas que a vida nos encurrala neste imenso curral e vai nos esmagando aos poucos.

Morrer de sede dentro do mar, é uma grande ironia, uma fantasia verídica que não se desfaz mas desfalece os sedentos até os limites do desencarne.

Diáspora maldita que me enche de sede, sede de tudo, inclusive da água de beber que sempre foi escassa para todos.

Para você que também foi estupidamente agredido física e moralmente, tem horas que a vida mente quando ela diz que é bela. Infelizmente o que não falta são feras abomináveis porém, indomáveis.

Talvez estejamos num sonho, talvez seja uma miragem ou uma roupagem lúdica, uma blindagem da realidade que a vida nos reserva para nos vestir eternamente de rubro numa terra longínqua como uma forma terrível de diluir paulatinamente a nossa essência.

Digo que nem tudo é perfeito em meio à perfeição que define o bem e o mau, o tempo faz da vida uma grande surpresa, represa de sentimentos nessas caminhadas oblíquas. Que nada mais é que uma aprendizagem na terra! Embora árduas mas um grande aprendizado.

O respeito recíproco já ficou aquém desde o ano de 1500, por isso que quando termina um ciclo, há de começar outro aqui ou lá no além, pé de na estrada, fé e firmeza. Como se fosse a última para a próxima viagem!

HO'pretuLù Mpandè

@PietrodeLuccaPoeta ✒️📝🖋️

Escritor, Poeta, Contista e Cronista

Athelier das Letras - Selo 444®

https://pietrodeluccapoeta777.substack.com

pietrodeluccapoetanarcisosilva.blogspot.com

Thoughts

  • vqueiroz90

    Aquele que gritou pra parar... pior é quando você desconfia que ele só salvou porque precisava de escravos pra vender.

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  • tresPaginas

    Denso demais pra minha madrugada. Vou ler três páginas a noite e vou dormir pensando nisso.

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  • tmoreira93

    Aquele momento que ele tá sendo batido mas não sente nada... como é que o corpo faz isso pra se defender?

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  • sofadasala

    Texto que pesa assim não devia vir à noite pro sofá de ninguém. Mas aqui tô eu, acordada mesmo.

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  • paginadobrada

    Me diz uma coisa: quando você tá escrevendo isso, qual memória é a que dói mais de carregar?

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  • oitoemponto

    Os 400ml de água e a espiga de milho... esses números ficam tipo um fato que bate diferente.

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  • meioCapitulo

    A parte que o velho tá falando em Iorubá todo machucado... peguei aquilo com uma coisa dentro do peito.

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  • marcao77

    O que fica é aquela solidariedade do nada, sabe? Quando tudo tá desabando e a gente se reconhece um no outro.

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