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Manuscrito das três faces

miguelv341
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Sutra moral do céu (1)

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Sutra moral do céu (1)

Através do vento, implacável e insistente, as frestas mal vedadas da janela cintilavam, fazendo as tábuas da sala gemer em protesto.

Na casa dos cinquenta, a barba por fazer salpicada de fios grisalhos, uma pele tão corroída quanto a madeira envelhecida ao seu redor, suspirando apenas em tédio do aguardo.

Do vazio gélido que se alastrava no interior, refletindo uma aridez sem fim que parecia estar sugando sua vitalidade pouco a pouco.

O silêncio pesado da sala, preenchido por seu tédio, foi subitamente rompido pelo murmúrio inconfundível do velho conhecido, uma voz nítida que fez com que os ossos deste homem estremecessem.

— O tempo parece estar preso... como eu, querido amigo.

Sentindo o sangue correr furiosamente nas veias, animando-se naquele instante, expulsando o tédio, incendiando seu coração de motivação e animação.

"Estive em aguardo da sua visita!", sua voz exaltava a adrenalina que corria em suas veias, despertando-o da letargia que o dominava há anos.

— Então, sem mais enrolação, e lá vamos nós.

A escuridão palpável na sala, densa como veludo úmido, uma teia sutil se alinhou, ganhando peso, aumentando e dando forma à abertura da grande passarela policromática.

Respirando fundo de animação, ele sentiu a força de atração do outro lado o puxando para lá. "Lidere o caminho, velho amigo."

A luz se intensificou e as sombras se moveram em silêncio atrás deles; as brumas do tempo esvaíram-se.

E o odor que emanava dali, uma mistura doce de algodão-doce e ozônio, era simultaneamente convidativo e terrivelmente sinistro, um convite para o abismo, para o além.

O jinn, com seu brilho intrínseco nos olhos, parecia sorrir. "Você está pronto para ver?", a voz etérea perguntou novamente, mais perto agora, quase dentro de sua própria mente.

"Sim!" Tomado pela coragem, o velho avançou, sendo engolido pela passarela.

Uma passagem formada do passado indistinto, feito de ecos e sombras, agitando-se no íntimo das entranhas do eremita branco. Como uma memória clara, um evento definido, uma sensação permanente, como as gotas da chuva que escorrem lentas e inexoráveis sobre a estrada encharcada da passarela policromática.

Um véu que cobre um oceano negro com a cor da tristeza.

"Eu sou um observador silencioso desse espetáculo de decadência, sinto a frieza da solidão desse antro de desolação, do qual sinto a natureza de Nun se infiltrar em cada fenda da minha alma." Suspirando profundamente, em satisfação com esta atmosfera decadente da qual a vida se iniciou: "A beleza se tornou um conceito distante, quase irreal. Perdeu o viço, o perfume, a promessa de alegria que antes irradiava. Agora, a vida se assemelha ao lento e inexorável declínio de uma flor que outrora desabrochou com exuberância. As pétalas, antes vibrantes e cheias de vida, murcham e se desprendem, uma a uma, levadas pelo vento da desilusão."

Apoiando-se em sua bengala, o velho de cabelos e barba branca tossia fortemente, retirando um lenço da bolsa e levando-o até a boca, limpando o sangue que escorria. Olhando para o lenço ensanguentado, o homem suspirou. "Meu tempo está se esgotando."

Dirigindo-se à frente do seu jinn, ele embarcou no grande navio, dirigindo-se aos convés amplos e escalonados, reforçados por vigas gravadas capazes de emitir ondas de som primordial que organizam o caos ao redor, dando início à viagem.

Apressando o passo, o homem adentrou a popa elevada, o castelo que se erguia como um santuário móvel. Janelas estreitas exalavam uma luz âmbar contínua, e o leme era largo e pesado.

Trancou-se em seu escritório, destrancando uma das gavetas de sua escrivaninha e retirando um caderno de capa de couro preto.

O galeão avançava furiosamente como uma besta desperta, cortando as águas violentas de Nun, atravessando o caminho entre os domínios do caos. Com o respiro de um titã, as velas, vastas como as asas de um anjo, inflamaram-se no vasto horizonte. Como o estalo de um trovão, o casco colossal, feito de madeira petrificada, flutuou.

Nos mastros, lanternas de chama azul-pálida ardiam sem consumir óleo.

Entalhada na figura de um falcão divino, a proa alongada, envolta em um brilho constante à frente do navio, abria caminho no oceano em chamado de um sinal de resposta da travessia da fina parede de prata que separa o início e o fim do reino dos sonhos.

No topo de uma falésia escarpada, um farol de pedra bruta erguia-se contra os violentos ventos que uivavam, rasgando o ar como as garras de uma grande besta demoníaca.

Iluminando o indomável fluxo corrente do mar vermelho, porém, não era uma luz branca reconfortante, mas um verde hipnótico que pulsava em contraste com o céu roxo e nuvens amarelas, guardando o paredão rochoso.

A vastidão ausente do abismo engolia a grande embarcação; um farol encontrava-se com ela, iluminando as profundezas insondáveis do oceano de Nun.

A implacável pressão das profundezas entoava os sussurros e ecos das vidas nadando nas trevas, um eco colossal, um chamado que desafiava todas as classificações pré-existentes.

O sinal foi dado, e as águas se alarmaram com o levantar de um corpo monumental, desafiando as leis naturais e erguendo colossais cachoeiras. Um ser se revelou: um corpo longo e serpentino, revestido por escamas negras. Apenas seus olhos translúcidos podiam ser vistos.

Iluminando a imensidão abissal, o farol banhou o imensurável corpo flutuando no vazio do mar, revelando diante deles sua face humana com a boca que se abria em um sorriso impossível, exibindo dentes de cristal, finos e translúcidos.

O jinn prontamente levantou um amuleto talhado em uma pedra negra e opaca, afugentando o guardião e abrindo as portas para seu desembarque nos grandes portos de Bless.

Dando os primeiros passos para fora, o espaço ondula e se transforma: do chão do grande deserto branco que se formou, a serpente real se revelou, movendo-se para longe. Uma prancha se ergueu abaixo de seu pé, levando-o logo atrás da serpente.

『Eles chegaram?』

— Sim, grão-mestre.

『Então o terceiro caminho foi performado. Transpassou a muralha de prata. O resto dependerá do humor daquele que ocupa o terceiro trono, o caos que rasteja... o imperador do caos!』

Thoughts

  • tresPaginas

    Isto vai me levar semanas mas tá bem assim. Ler de madrugada, três páginas de cada vez 😴

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  • tmoreira93

    Quando você tá escrevendo algo assim com tanta escuridão, de onde vem a beleza que entra no meio?

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  • sofadasala

    Tem algo nesse texto que parece sonho mesmo, daquele jeito confuso. Quase adormeci mas queria saber o que vinha depois.

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  • paginadobrada

    Essa jornada pra fora do mundo real, você sabia pra onde ia dar quando começou a escrever?

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  • oitoemponto

    Achei denso pra meu horário. Parei no meio da passagem do galeão, agora tô curiosa pra voltar amanhã.

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  • meioCapitulo

    que trip oq 🤩 tô adorando mas tô no meio ainda

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  • marcao77

    Gostei demais dessa solidão do cara. Toca em um jeito de estar sozinho que conheço bem.

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  • li_no_busao

    Você escreveu isso como se tivesse vivido o tédio de estar preso no tempo. Teve alguma coisa assim que inspirou?

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  • miguelv341

    A partir deste ponto eu informo aos leitores que a estrutura de escrita passará a ser de pequenas histórias com começo, meio e fim igual a contos. Uma escolha tomada para homenagear os colegas que contribuíram para a criação individual de cada história.

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