Há amizades que a gente explica.
A nossa, eu lembro.
Lembro do dia em que descobri
que dentro de ti havia uma vida começando,
e antes mesmo de conhecer aqueles meninos,
eu já sentia carinho por eles
porque vinham de ti.
Depois eu os vi nascer.
Vi tua vida ganhar novos nomes,
novos abraços,
novas preocupações
e uma felicidade que também aprendi a celebrar.
E, no meio de tudo isso,
a vida foi acontecendo para nós duas.
Vieram os dias corridos,
as distâncias,
as fases em que quase não dava tempo
de contar tudo.
Mas bastava uma mensagem inesperada:
“Eu te amo.”
Sem aniversário.
Sem motivo.
Sem precisar acontecer alguma coisa.
Só o amor lembrando
que ainda estava ali.
E talvez seja isso que eu mais guarde:
a maneira como tu vibra pelas minhas vitórias
como se alguma parte delas também fosse tua.
Tu comemora meus passos,
acredita nos meus sonhos
e, quando eu mais precisei,
não perguntou quanto tempo levaria.
Tu simplesmente ficou.
E existem presenças que a gente não esquece.
Porque estar quando tudo está bem
é bonito.
Mas permanecer quando a gente
mal consegue permanecer em si mesma
é outra coisa.
Nós fomos testemunhas.
Eu vi teus meninos chegarem ao mundo.
Tu me viu atravessar tantos dos meus.
E entre nascimentos, lágrimas, conquistas,
risadas e aqueles “eu te amo”
que chegavam do nada,
a nossa amizade foi criando raízes
sem pedir licença ao tempo.
Hoje eu entendo:
algumas pessoas não passam pela nossa vida.
Elas acompanham capítulos.
Conhecem versões nossas
que ninguém mais conheceu,
lembram de quem fomos
quando ainda nem sabíamos quem seríamos.
E talvez seja por isso
que, mesmo depois de tantos anos,
um simples “eu te amo” teu
ainda tenha o poder
de me fazer sorrir.
Porque existem palavras
que não são apenas palavras.
São pequenas provas
de que, apesar de tudo que mudou,
ainda existe um “nós”
guardado exatamente onde o tempo
não conseguiu alcançar.