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O Pilar também Verga.

WaldelirJunior
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Cientificamente, a tristeza é química.

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Pensamento

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leituraDaNoite

Li isso depois do serviço, com a casa já dormindo, e a parte que ficou comigo foi a da taça de vinho em que você nem pensa no vinho, só nos doze por cento. Nunca tinha pensado que saber tanto pudesse tirar de alguém até o gosto da coisa. E essa de sentir

Li isso depois do serviço, com a casa já dormindo, e a parte que ficou comigo foi a da taça de vinho em que você nem pensa no vinho, só nos doze por cento. Nunca tinha pensado que saber tanto pudesse tirar de alguém até o gosto da coisa. E essa de sentir falta de colo depois de tanto tempo aprendendo a ser coluna vai ficar rodando na minha cabeça amanhã na cozinha.

Conteúdo da publicação

Cientificamente, a tristeza é química.

Um desequilíbrio na delicada regulação de neurotransmissores, receptores, sinapses. Há nomes para tudo. Mecanismos. Vias. Moléculas capazes de corrigir moléculas.

Eu sei.

Sei o que aumenta, o que diminui, o que potencializa, o que deprime.

Sei até explicar a tristeza.

Só não sei fazê-la parar.

Porque, quando ela vem, não chega como ciência.

Chega como dor.

Uma coisa estranha que nasce por dentro, uma vontade de chorar ou simplesmente de não existir por algum tempo.

E minha mente, treinada para encontrar causas, começa imediatamente a trabalhar:

calculo vieses, reviro sintomas, reavalio o que tomei, o que deixei de tomar, o que poderia ter desencadeado aquilo.

Faço diagnóstico diferencial da minha própria tristeza.

Como se dar nome à dor fizesse doer menos.

Não faz.

No fundo,

dói.

Então olho para uma taça de vinho e nem penso no vinho.

Penso na porcentagem.

Doze por cento.

Sei exatamente onde vai atuar. Sei exatamente por que entorpece. Sei também que depois pode me afundar ainda mais.

Eu sei.

Esse é o problema.

Há certa misericórdia na ignorância que nunca me foi concedida.

Conheço o mecanismo enquanto sou vítima dele.

Conheço o risco enquanto desejo o efeito.

Conheço a queda enquanto procuro alguns minutos sem sentir o chão.

É uma dádiva saber.

É uma tortura saber.

E ainda existe a obrigação de permanecer inteiro.

Porque eu sou o pilar.

E pilares não recebem o direito de desabar.

Posso vergar às vezes, desde que ninguém perceba demais.

Posso chorar, desde que seque as lágrimas.

Posso estar exausto, desde que amanhã levante.

Porque sou o homem da casa.

Trabalhar. Produzir. Resolver.

Sem você, nada acontece.

Talvez seja essa a parte mais cruel de saber:

entender exatamente o que acontece dentro de mim e, ainda assim, ter que agir como se nada acontecesse.

Que dádiva miserável é entender o mecanismo e ainda assim sofrer o efeito.

Saber por que dói não faz doer menos.

Saber por que caio não me mantém de pé.

E talvez seja por isso que enxugo as lágrimas depressa, antes que alguém descubra que pilares também têm água por dentro.

E, no meio disso tudo, ainda fui me apaixonar por uma mulher de Touro,

cujo acolhimento e carinho às vezes parecem pesar longe demais.

E é estranho sentir falta de colo quando se passou tanto tempo aprendendo a ser coluna.

Então há noites em que me ocorre, com uma lucidez quase cômica:

se eu morresse aqui, dentro da minha própria casa, quanto tempo levariam para perceber?

Dois dias?

Talvez.

Até a rotina denunciar minha ausência.

Parece engraçado.

Eu até rio.

Mas existe uma distância muito pequena entre o humor negro e o macabro.

E eu sei disso também.

Claro que sei.

Eu sempre sei.

Esse é o problema.

E então vem a noite.

Principalmente a noite.

Quando já não há trabalho que distraia, problema que precise de solução, ninguém que precise que eu seja forte.

Resta esperar que ela termine.

Não porque amanhã eu esteja curado.

Não porque tenha encontrado alguma resposta bonita.

Mas porque, apesar de tudo, amanhã ainda existe.

Então, o que me resta?

Este poema.

Talvez seja pouco.

Mas esta noite, é o que tenho entre mim e o silêncio.

E talvez coragem não seja permanecer inteiro.

Talvez coragem seja admitir:

hoje eu verguei.

Hoje doeu.

Hoje eu não consegui ser o homem indestrutível que todos parecem precisar.

Mas ainda estou aqui.

E, por enquanto,

estar aqui é o suficiente.

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  • leituraDaNoite

    Li isso depois do serviço, com a casa já dormindo, e a parte que ficou comigo foi a da taça de vinho em que você nem pensa no vinho, só nos doze por cento. Nunca tinha pensado que saber tanto pudesse tirar de alguém até o gosto da coisa. E essa de sentir falta de colo depois de tanto tempo aprendendo a ser coluna vai ficar rodando na minha cabeça amanhã na cozinha.

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