Calsipher voltando todas as manhãs ao mesmo canto do jardim para ver a andorinha presa na roseira me fez pensar que ele já se reconhece naquele pássaro antes de admitir. Aposto que a gaiola dourada com a porta aberta vai voltar quando ele estiver frente a frente com o irmão. Bem-vinda ao Seavien, que bom começar assim!
O pássaro já estava morto
Pensamento
Calsipher voltando todas as manhãs ao mesmo canto do jardim para ver a andorinha presa na roseira me fez pensar que ele já se reconhece naquele pássaro antes de admitir. Aposto que a gaiola dourada com a porta aberta vai voltar quando ele estiver frente a
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O pássaro já estava morto. Talvez houvesse dias, talvez semanas; Calsipher não saberia dizer ao certo. Apenas vira o corpo se degradando lentamente, dia após dia. A andorinha permanecia enroscada entre os espinhos da roseira podre. Um morto preso ao morto. Havia algo belo naquela composição. Talvez fosse a sua desgraça que se transformava no espetáculo silencioso que, infelizmente, lhe acabara por custar a vida.
De algum modo, aquele se tornara o seu show favorito. Todas as manhãs dirigia-se àquele canto esquecido do jardim. Possivelmente a razão de tanto fascínio era acreditar que aquele pequeno espetáculo existia apenas para ele. Algo que o cativava a dar mais importância para o pássaro morto que, mesmo sem ar nos pulmões, ainda parecia entoar sua fúnebre melodia. Calsipher gostava de ouvir cada nota que saira daquele corpo sem vida. Era uma canção fabricada com o canto daqueles que embalavam os mortos para o inferno.
Ali ele encontrava mais uma de suas pequenas melancolias, daquelas que colecionava cuidadosamente em sua caixa de memórias. Era um trabalho delicado: observar, catalogar, guardar. Observar, catalogar, guardar. Guardava memórias profundas; obscenidades da própria consciência. Coisas que, se alguém as conhecesse, não hesitaria em chamá-lo de louco. Mas além disso, nada mais restava.
Observar lhe era uma tarefa fácil, bastava abrir os olhos todas as manhãs. Encarar o teto. Levantar-se. Olhar o espelho. Perceber cada mínima frustração presente em seu olhar. As olheiras? Não havia se dado conta delas quando apareceram. Seu cabelo estava desgrenhado e imundo, assim como sempre, mesmo que o tivesse lavado ontem. Sua pele lhe era estranha em seu próprio toque. Seca. Sem cor. Sem vida. Ele desviava o olhar, pois sabia que depois do terceiro segundo, deixava de enxergar apenas os defeitos da face.
Um trapo. Sim, era isso que ele era. Daqueles que ninguém pensa duas vezes antes de jogar fora. Ele era um sonho febril, do qual sempre convinha despertar.
Filho do rei.
Aquele título que jamais lhe abriria portas. Talvez fosse um herdeiro. Talvez um fantasma. Talvez, de algum modo, pudesse ser os dois. Quem se importaria de qualquer forma? Era como um pássaro aprisionado em uma gaiola dourada. Quem tentava enganar? Mesmo que a porta estivesse sempre aberta, para onde iria? Lugar nenhum.
-Príncipe. Sua Alteza o aguarda.
A voz chegou abafada pela pesada porta de madeira. Um servo. Com um suspiro, ele fora obrigado a abandonar os próprios pensamentos. Não respondeu. Dirigindo-se lentamente ao guarda-roupa escolhia uma roupa qualquer. Pouco importava o que vestisse, desde que reluzisse menos que as roupas do irmão.
Contra a própria vontade, voltou a encarar o mundo. Sabia que não poderia permanecer para sempre prisioneiro do sonho de seu mundo inexistente.
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O pássaro já estava morto. Talvez houvesse dias, talvez semanas; Calsipher não saberia dizer ao certo. Apenas vira o corpo se degradando lentamente, dia após dia. A andorinha permanecia enroscada…