Aquele momento quando olharam um pro outro e reconheceram o cansaço. Ficou com você depois? acha que pra ela também ficou alguma coisa?
O Natal de dezembro 1988
Era dezembro de 1988, véspera de Natal daquele ano. Eu caminhava apressada e o barulho rítmico do meu tamanco de madeira parecia o cuco lá de casa, que tocava de hora em hora. Cheguei ao mercadinho. O calor abafado daquele lugar me atingiu em cheio. Olhei para os lados: um ambiente precário, alguns azulejos brancos caindo e uma parte da parede exibia um tom de verde descascado. O chão de cimento batido, pintado de vermelho, estava perdendo a cor — desbotando como tudo naquele lugar. Peguei o q
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Aquele momento quando olharam um pro outro e reconheceram o cansaço. Ficou com você depois? acha que pra ela também ficou alguma coisa?
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Era dezembro de 1988, véspera de Natal daquele ano. Eu caminhava apressada e o barulho rítmico do meu tamanco de madeira parecia o cuco lá de casa, que tocava de hora em hora.
Cheguei ao mercadinho. O calor abafado daquele lugar me atingiu em cheio. Olhei para os lados: um ambiente precário, alguns azulejos brancos caindo e uma parte da parede exibia um tom de verde descascado. O chão de cimento batido, pintado de vermelho, estava perdendo a cor — desbotando como tudo naquele lugar. Peguei o que faltava e me desloquei até a fila quilométrica. No meio daquela estufa, o senhor logo à minha frente — um homem robusto, vestindo uma camisa de botão amarela com alguns pingos de tinta marrom na gola — olhava o relógio de bolso com um olhar cortante, que parecia disparar faíscas de irritação. Entre uma fungada e outra, ele mastigava ruidosamente uma goma de mascar.
Olho para trás e me perco no olhar daquela mãe que empurrava o carrinho vazio. Era um olhar vagante, emoldurado por olheiras profundas; olhos embrulhados pelo choro contido, pelo cansaço físico e pelo peso dos olhares julgadores ao redor, enquanto seu filho chorava sem parar no seu colo. Um pouco mais à frente, duas crianças gritavam, interrompendo a conversa de uma senhora de cabelos brancos que segurava um maço de cheiro-verde enquanto gesticulava para a outra. Ergo a cabeça para o lado e vejo um casal que brigava com a funcionária do caixa; eles discutiam alto por causa de um cheque que parecia não ter sido aceito ou descontado, enquanto a moça segurava o papel com os dedos impacientes.
Um menino ao meu lado me cutuca e começa a me fazer muitas perguntas, perguntou sover o tecido do meu vestido , mexeu na barra , perguntou o que eu tinha ido fazer ali , elogiou meu cabelo mas a voz dele me parece distante. Fico completamente submersa aos meus estímulos internos. Na distância, o barulho rígido, seco e plástico do cubo mágico dele girando — clic, clic, clic — ecoa como se os estímulos externos fossem várias pessoas conversando ao mesmo tempo dentro do meu cérebro, sufocando meus pensamentos.
Escuto uma voz aguda um pouco mais à frente. Era a mesma menina do caixa. Nossos olhares finalmente se cruzam. Por uns instantes, sem dizer uma palavra, desvio os olhos para o canto do balcão cinza e ali, colada sob o plástico protetor, estava uma foto 3×4 desbotada de duas crianças. Quebrando o silêncio do meu próprio caos, pergunto:
— Tem filhos?
Ela, sem erguer os olhos da máquina registradora, responde no automático:
— Tenho sim. Tenho dois, um casal.
Ela finalmente ergueu os olhos da máquina registradora. Por um segundo que pareceu durar mais do que toda a espera daquela fila, o olhar dela encontrou o meu. Não havia o mau humor do senhor robusto e nem o desespero da mãe com o carrinho vazio; era apenas o reflexo do mesmo cansaço que eu carregava no peito. Ela deu um sorriso miúdo, daqueles que não chegam a abrir os lábios, enquanto me entregava o troco e as sacolas plásticas.
— Feliz Natal — disse ela, com a voz um pouco mais mansa.
Peguei as compras, sentindo o peso do mundo diminuir um milímetro. Dei as costas ao caixa e, enquanto caminhava em direção à saída, o estalo do cubo mágico do menino e o choro do bebê foram ficando para trás, engolidos novamente pelo ritmo firme e familiar do meu tamanco de madeira.
Cruzar a porta do mercadinho foi como respirar de novo. O ar da rua, embora quente, trazia um vento de fim de tarde que soprava da direção do rio, limpando o abafado do mercado da minha pele. Caminhei pela calçada de paralelepípedos e cimento, ajustando o peso das sacolas de plástico fino que estalavam a cada passo.
O bairro, tradicionalmente operário e vivo, descia em um vaivém típico de véspera de Natal. Passei pelas fachadas das antigas casas de imigrantes, com suas portas altas de ferro e janelas de madeira que já começavam a se fechar para a noite. Nas calçadas ao redor, o movimento frenético dos galpões de tecidos e pequenas confecções que tanto barulho faziam durante o ano finalmente dava trégua; as portas de aço ondulado iam descendo uma a uma com aquele estrondo metálico ecoando pelas esquinas. Alguns lojistas lavavam a calçada com mangueiras, jogando água para espantar o calor do asfalto, misturando o cheiro de sabão em pó com o aroma de panetone assado que vinha das padarias próximas.
Um ônibus municipal vermelho e branco passou barulhento, soltando aquela fumaça escura de diesel na aceleração, mas até os motores pareciam mais calmos agora. Algumas crianças ainda corriam na calçada soltando estalinhos de salão no chão — pá, pá, pá —, fazendo meu tamanco apertar o passo, mas a ansiedade da fila tinha ficado para trás. Ao longe, os primeiros acordes dos sinos da igreja do bairro começavam a badalar, anunciando a proximidade da missa.
Quando finalmente dobrei a esquina da minha rua e empurrei o portão de ferro cinza, a calmaria do lar me abraçou. Deixei as compras na mesa de fórmica da cozinha. O cuco na parede da sala disparou o seu mecanismo bem naquele instante, cantando a hora exata. Sorri sozinha. O som, que antes parecia uma cobrança de tempo na minha cabeça, agora era apenas o aviso manso de que eu estava em casa. O Natal, finalmente, estava começando.
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