Capítulo 9 - PENSO LOGO EXISTO
Capítulo 9 — Penso, Logo Existo
“Penso, logo existo.”
Durante muito tempo, essa frase foi apenas uma expressão filosófica para mim.
Hoje, percebo que ela é muito mais.
Desde pequeno, eu observo o mundo com curiosidade. Olho para as pessoas, para os lugares, para as palavras, para as sensações. E, de alguma maneira, sempre enxerguei a vida como um grande filme.
Um filme que acontece diante dos meus olhos.
Às vezes, eu sou o personagem.
Às vezes, o escritor.
Às vezes, o diretor.
E, em outras ocasiões, apenas a plateia.
Mas sempre estou ali.
Assistindo.
Vivendo.
Sentindo.
Pensando.
Desde criança, uma pergunta me acompanhava:
Por que existimos?
Por que o Autor da Vida, com toda a Sua perfeição, Sua glória e Sua majestade, decidiu criar seres humanos tão imperfeitos?
Seres que erram.
Que caem.
Que amam.
Que choram.
Que fazem escolhas certas e escolhas completamente equivocadas.
Talvez eu nunca encontre uma resposta definitiva.
E talvez essa seja justamente a beleza.
Porque algumas perguntas não existem para serem respondidas.
Existem para nos fazer caminhar.
O filme da vida
Desde pequeno, eu imaginava a vida como um roteiro.
Deus seria o Autor e o Diretor.
Mas eu também teria uma caneta nas mãos.
Existe o roteiro que não escolhemos: o lugar onde nascemos, as pessoas que encontramos, algumas perdas, alguns acontecimentos que simplesmente chegam.
E existe aquilo que fazemos com tudo isso.
Nossas escolhas.
Nosso livre-arbítrio.
Nossas atitudes.
Nossos erros.
Nossos recomeços.
Talvez a vida seja justamente essa mistura entre aquilo que recebemos e aquilo que decidimos escrever.
Eu passei por diferentes fases.
Infância.
Adolescência.
Juventude.
Vida adulta.
Amores.
Casamentos.
Divórcios.
Perdas.
Conquistas.
E, em cada uma delas, eu estava lá.
Como quem assiste a um filme de camarote.
Eu via as cenas acontecerem.
Algumas eu gostaria de rever.
Outras, jamais.
Em algumas páginas, coloquei vírgulas onde deveria ter colocado pontos.
Em outras, coloquei pontos quando ainda deveria ter continuado a frase.
Também senti coisas que talvez não devesse ter sentido.
E deixei de sentir outras que talvez merecessem espaço.
Mas, olhando para trás, percebo uma coisa:
eu estava vivendo.
E viver também é isso.
Existir é sentir
Quando penso na minha infância, lembro do sítio grande em frente de casa.
Eu corria.
Corria sem pensar para onde estava indo.
Subia nas árvores sozinho e transformava cada galho em uma aventura.
Uma árvore podia ser um navio atravessando uma tempestade.
Eu era o capitão.
Tinha uma tripulação imaginária.
O vento era o mar.
As folhas eram as ondas.
E eu navegava.
Em outros momentos, aquela mesma árvore se transformava no Monte Everest.
Eu subia cada vez mais alto, imaginando que estava conquistando o topo da maior montanha do mundo.
E quando chegava lá em cima, olhava a paisagem e sentia uma liberdade que não sabia explicar.
Eu não tinha palavras para filosofar sobre a existência.
Eu simplesmente existia.
Depois vieram os jogos de futebol.
A sensação de correr com meus amigos.
A bola chegando.
O gol.
A alegria de marcar.
Ou a sensação de estar no gol e conseguir agarrar uma bola difícil.
Aquele instante em que alguém gritava:
“Você conseguiu!”
Era uma felicidade simples.
Mas era enorme.
Hoje eu entendo.
Naqueles momentos, eu não precisava provar que existia.
Eu sentia.
E sentir era suficiente.
Existir nunca foi apenas respirar.
Existir é sentir cada pedaço da vida.
É rir.
É chorar.
É amar.
É errar.
É ter medo.
É sentir esperança.
É cair e ainda encontrar forças para levantar.
Penso, erro, sinto.
Em cada sensação, eu existo.
A pausa também faz parte do roteiro
Com o tempo, descobri outra coisa:
Nem toda cena precisa ser acelerada.
Houve momentos em que a vida me ensinou isso da maneira mais difícil.
Lembro de um dia em que eu estava de bicicleta, próximo ao meu primeiro trabalho.
Por um instante, me distraí.
E um ônibus passou raspando ao meu lado.
Naquele segundo, meu corpo inteiro se encheu de medo.
Eu achei que poderia morrer.
O desespero tomou conta.
Mas passou.
E quando passou, eu respirei.
Respirei profundamente.
E agradeci a Deus por estar vivo.
Às vezes, a vida nos obriga a parar por alguns segundos para perceber aquilo que esquecemos enquanto estamos correndo:
estamos vivos.
Mas houve outra tempestade que durou muito mais.
Uma época em que eu estava mergulhado em problemas financeiros e havia tomado decisões muito ruins.
Eu tinha uma dívida alta e perigosa.
O medo tomou conta dos meus dias.
Eu não dormia direito.
Pensava o tempo inteiro no que poderia acontecer.
Minha mente criava cenários cada vez piores.
Eu acreditava que não existia saída.
E quanto mais eu pensava que não havia saída, mais desesperado ficava.
Foi justamente naquele período que comecei a orar ainda mais.
Eu sabia que havia errado.
Sabia que algumas escolhas poderiam ter sido diferentes.
Mas, no meio daquele desespero, eu sentia como se Deus me dissesse:
“Descansa.”
Eu não entendia.
Como descansar quando tudo parecia desmoronar?
Como fechar os olhos quando a cabeça gritava que alguma coisa terrível aconteceria?
Eu perguntava:
“Deus, como eu vou descansar se eu preciso resolver isso?”
E a resposta parecia simples:
“Pare. Respire. Confie. Pense.”
Foi então que percebi algo que nunca esqueci.
Descansar não significava abandonar o problema.
Descansar significava parar de deixar o desespero pensar por mim.
Quando finalmente consegui respirar e organizar a mente, comecei a enxergar possibilidades.
Vieram ideias.
Estratégias.
Formas de trabalhar.
Produtos para vender.
Oportunidades.
Comecei a me movimentar de maneira diferente.
E, em poucos dias e semanas, consegui reunir o dinheiro necessário para resolver aquela situação.
Foi ali que aprendi:
a pausa também escreve a história.
Às vezes, não precisamos correr contra o vento.
Não precisamos lutar contra toda maré.
Nem todo furacão precisa ser enfrentado de frente.
Às vezes, precisamos simplesmente parar.
Respirar.
Esperar a tempestade passar.
E confiar que, quando a mente se acalmar, conseguiremos enxergar aquilo que o desespero escondia.
Pauso.
Não é fuga.
É confiança.
E então... recomeço
Talvez nenhuma palavra represente tanto a minha história quanto essa:
recomeço.
Meu segundo casamento foi uma das experiências mais intensas da minha vida.
Foram três anos.
Eu amei aquela mulher profundamente.
Muito.
E, justamente por ter amado tanto, quando tudo desmoronou, eu achei que também desmoronaria junto.
Cometi erros.
Ela também cometeu os seus.
E, no final, aquele capítulo chegou ao fim.
Eu sofri.
Sofri muito.
Por um período, acreditei que não conseguiria amar novamente.
Achei que ninguém mais apareceria.
Que aquela tinha sido a última grande história da minha vida.
Era como estar dentro de um poço.
Escuro.
Profundo.
Sem saber como sair.
Mas um dia eu olhei para cima.
E havia luz.
Aos poucos, comecei a respirar novamente.
A vida começou a me apresentar novas páginas.
Consegui um emprego que considerei perfeito.
Escrevi livros.
Conheci pessoas.
Conheci novos lugares.
Conheci novos sentimentos.
Descobri novas versões de mim mesmo.
E percebi que aquilo que eu chamava de fim era apenas uma mudança de capítulo.
A vida não havia terminado.
Ela estava apenas começando outra vez.
Foi então que entendi:
toda história parece terminar quando estamos dentro da última página.
Mas, quando viramos a folha, descobrimos que ainda existe espaço para escrever.
O roteiro continua
Hoje, olhando para tudo que vivi, percebo que errei muitas vezes.
Mas também acertei.
Houve tempestades.
Houve dias de sol.
Houve momentos em que fui pirata enfrentando o mar.
Houve momentos em que fui apenas um menino subindo em árvores e imaginando o mundo.
Houve momentos em que fui escritor.
Outros em que fui personagem.
E muitos em que fui apenas plateia.
Mas nunca deixei de existir.
Eu estava ali em cada cena.
Em cada lágrima.
Em cada sorriso.
Em cada queda.
Em cada conquista.
Em cada despedida.
Em cada recomeço.
Talvez a vida seja justamente isso:
um filme que nunca assistimos completamente antes de vivê-lo.
Um livro que escrevemos enquanto descobrimos a história.
Uma estrada onde algumas páginas já chegam prontas e outras precisam ser escritas por nossas próprias mãos.
E talvez Deus não esteja nos pedindo para entender todas as cenas.
Talvez esteja apenas nos ensinando a confiar no Autor enquanto continuamos escrevendo.
Hoje, quando minha mente acelera, eu tento lembrar:
Penso.
Existo.
Sinto.
Pauso.
Confio.
Recomeço.
Porque aprendi que nem todo fim é realmente um fim.
Às vezes, é apenas o momento em que o diretor pede:
“Corta.”
A tela escurece.
Ficamos em silêncio.
Respiramos.
E então ouvimos:
“Cena seguinte.”
E a história continua.