Diante do espelho, não vejo apenas meu rosto, mas tudo aquilo que passei anos escondendo de todos, inclusive de mim. A imagem refletida parece mais verdadeira do que a própria realidade, porque ela não sorri para agradar, não disfarça a tristeza e não tenta fingir que está tudo bem. Ela apenas me observa em silêncio, revelando o vazio frio que cresceu dentro de mim.
Toco o vidro, esperando atravessá-lo e encontrar algum lugar onde eu possa ser diferente, mas meus dedos encontram apenas uma superfície gelada. Do outro lado, existe uma versão minha que não reconheço: cansada, distante e perdida em pensamentos que nunca tive coragem de dizer em voz alta. Quanto mais tento fugir daquela imagem, mais ela se aproxima, como se soubesse que não há lugar no mundo onde eu possa escapar de quem realmente sou.
Então, o espelho começa a rachar. Cada rachadura distorce meu rosto e transforma minha aparência em algo estranho, quase irreal. Em cada pedaço, vejo uma versão diferente de mim: a pessoa que finge ser forte, a que sorri mesmo estando destruída, a que se esconde atrás do silêncio e aquela que ainda espera encontrar uma saída. Todas parecem diferentes, mas carregam a mesma tristeza nos olhos.
Quando o espelho finalmente se quebra, a realidade ao meu redor também desaparece. O quarto fica vazio, sem paredes, sem chão e sem tempo. Restam apenas os fragmentos flutuando no escuro, refletindo aquilo que tentei esquecer. Nesse lugar distante da realidade, entendo que o espelho nunca quis me assustar. Ele apenas mostrou que, por trás de todas as máscaras, eu ainda era alguém tentando sobreviver a si mesmo.