Não me chame.
Eu jamais desejei esse nome.
Nasci com a noite nos olhos
e aprendi cedo
que benevolência em demasia
faz de nós um alvo.
Então fiz do pecado
a minha própria epiderme.
Sou a mulher
que sua mãe mandou evitar;
a boca que destila veneno
e ainda sorri
enquanto você o sorve.
Tenho demônios por companhia,
e nenhum deles nutre qualquer simpatia por você.
O Diabo conhece o meu nome.
Diz que existe um lugar para mim
quando a estrada chegar ao fim.
Meus dias estão contados.
Eu sei.
Sou eu quem os conta.
Não nasci para viver de joelhos,
lambendo sapatos encouraçados.
Meu destino não está escrito.
É uma página alva,
maculada de vermelho.
Que me chamem de cruel.
Que me chamem de perdida.
Que inventem pecados
para justificar o temor que sentem.
Sou uma mulher de unhas rubras,
de beleza insólita,
e de uma serenidade perversa
que não implora salvação.
Não temo o que há em mim.
Finalmente somos um só.
E existe um inferno
reservado para mulheres como eu.
Chegarei lá como condenada.
E quando as portas do abismo
se abrirem diante de mim,
o Diabo rirá da minha cara
e dirá estar me esperando,
pois demônios como eu
vivem presos na eternidade.