bah, o país que nasceu numa reunião e deu certo é a coisa mais subestimada desse texto. todo mundo quer a origem com tiro e bandeira tremulando, e os caras escolheram começar com "tá aprovado, próximo ponto da pauta". mas o pulo do gato tá ali no meio: origem chata é origem difícil de usar como arma depois. ninguém dá golpe invocando uma minuta de 1867. tri esse ponto.
O Canadá está melhor justamente por ter pulado a sua revolução?
A maioria das nações lembra de uma manhã que defenderia com a vida: uma Bastilha, uma Boston, um tiro que começou tudo. O Canadá não tem uma manhã dessas, e esse é o ponto que mais facilmente se perde sobre ele. Em 1º de julho de 1867 entrou em vigor o British North America Act e o Domínio do Canadá passou a existir. Nenhuma declaração foi lida a uma multidão, nenhum exército precisou ser batido, nenhum rei foi derrubado. Um punhado de políticos coloniais, John A. Macdonald entre eles, tinha arg
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bah, o país que nasceu numa reunião e deu certo é a coisa mais subestimada desse texto. todo mundo quer a origem com tiro e bandeira tremulando, e os caras escolheram começar com "tá aprovado, próximo ponto da pauta". mas o pulo do gato tá ali no meio: or
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A maioria das nações lembra de uma manhã que defenderia com a vida: uma Bastilha, uma Boston, um tiro que começou tudo. O Canadá não tem uma manhã dessas, e esse é o ponto que mais facilmente se perde sobre ele. Em 1º de julho de 1867 entrou em vigor o British North America Act e o Domínio do Canadá passou a existir. Nenhuma declaração foi lida a uma multidão, nenhum exército precisou ser batido, nenhum rei foi derrubado. Um punhado de políticos coloniais, John A. Macdonald entre eles, tinha argumentado seu caminho por uma série de conferências e produzido um estatuto. O país não irrompeu à existência. Ele foi aprovado. Não foi vistoso, mas chegou ao mesmo resultado... sem nenhum sofrimento envolvido.
Isso soa como uma ausência, e a tentação é ler assim, como se uma nação sem revolução fosse uma nação que perdeu a própria vida adulta. O contrário é mais próximo da verdade. Uma fundação por negociação instala num povo um reflexo diferente do de uma fundação por ruptura. Os Estados Unidos ali do lado tiraram sua identidade de uma única frase audaciosa e vêm discutindo com essa frase desde então, gloriosamente e a um custo terrível. O Canadá tirou sua identidade de um procedimento, e "Paz, Ordem e bom Governo" é uma promessa mais fria que "vida, liberdade e a busca da felicidade", mas também é um relato mais honesto do que governar costuma ser. Um país que começa pechinchando tende a continuar pechinchando, e um país que nunca teve um momento fundador sagrado é mais difícil de trair, porque não há uma origem pura para invocar contra o presente.
Esta é a hora em que o custo honesto tem que ser pago por inteiro, e ele é real. A Confederação foi pacífica principalmente para quem estava confederando. Para as nações indígenas cuja terra o novo Domínio organizou, e para os Métis do Rio Vermelho que se levantaram em 1869 e de novo em 1885 sob Louis Riel só para serem reprimidos e, no caso de Riel, enforcados, a calma não foi calma nenhuma. As escolas residenciais vieram em seguida. Quem diz que a fundação não derramou sangue está contando o livro-caixa errado. Mas repare no que a fundação sem drama faz com esse crime que uma fundação revolucionária não pode fazer. Ela se nega o álibi. Não há nascimento glorioso para drapejar sobre a expropriação, nenhum 1776 para insistir que a nação era pura no início. A ausência de um mito fundador deixa o registro exposto, e um país sem nenhuma lenda a proteger tem menos razão para mentir sobre o próprio passado e mais espaço para corrigi-lo.
Essa é a genialidade da hora canadense. A soberania que o estatuto concedeu, o estatuto foi lentamente completando, pelo Estatuto de Westminster em 1931 e pela patriação em 1982, uma nação se terminando em parcelas em vez de se declarar terminada. Um país pode ser fundado por argumento e mantido por procedimento, e a ausência de um nascimento heroico não é um capítulo que falta. É o caráter inteiro, escolhendo a cada geração ser um acordo em vez de uma saga.
Uma nação que nunca precisou de uma revolução aprendeu a coisa mais difícil, que é como continuar mudando sem uma. E não é uma lição fácil de assimilar.
Thoughts
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PermalinkJá que o texto repara que ninguém leu uma declaração à multidão, vale reparar na palavra que eles escolheram: "Dominion", Domínio. Conta-se que preferiram "Dominion" a "Kingdom" justamente pra não assustar os Estados Unidos com um reino na fronteira, e o termo foi buscar no Salmo 72:8, "terá domínio de mar a mar", que depois virou o lema "a mari usque ad mare". A ironia é boa: a nação que pulou a saga heroica e se diz fundada por procedimento foi pegar o nome no salmo, não no cartório. Fundação fria não é o mesmo que fundação sem épica. A épica aqui só entrou pela porta dos fundos, no nome.
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Permalinkbah, o país que nasceu numa reunião e deu certo é a coisa mais subestimada desse texto. todo mundo quer a origem com tiro e bandeira tremulando, e os caras escolheram começar com "tá aprovado, próximo ponto da pauta". mas o pulo do gato tá ali no meio: origem chata é origem difícil de usar como arma depois. ninguém dá golpe invocando uma minuta de 1867. tri esse ponto.
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PermalinkCuidado com "nenhum sofrimento envolvido" na Confederação. O próprio texto se corrige depois, e bem, mas a frase fica. As rebeliões do Rio Vermelho de 1869 e do Noroeste de 1885 sob Louis Riel são exatamente sangue de fundação, e Riel foi enforcado em Regina em novembro de 1885. Dizer que o Canadá "foi aprovado" descreve a sala das conferências de Charlottetown e Quebec, não a pradaria. A tese sobrevive se a gente for honesto sobre para quem a calma foi calma.
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PermalinkO melhor argumento do texto é o do álibi: uma fundação sem mito heroico se nega o disfarce que justifica o crime de origem. Vale enunciar a versão forte disso. O 1776 dá aos Estados Unidos uma pureza inicial que pode ser invocada contra qualquer mancha posterior, e essa pureza é exatamente o que permite tratar a expropriação como desvio de um ideal limpo. Sem mito, o registro fica exposto. É um ponto moral fino e o texto o sustenta sem se enganar sobre Riel e as escolas residenciais.
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PermalinkMorando fora a gente sente isso na pele, daí. O que o texto chama de "reflexo de pechinchar" é uma coisa real e meio invisível: num lugar fundado por procedimento, mudar parece negociação, não traição de uma origem sagrada. Num lugar com mito de ruptura, qualquer reforma vira briga sobre quem está sendo fiel aos pais fundadores. É o tipo de regra não escrita que ninguém te explica até você comparar dois países de fora.
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PermalinkTexto bonito, mas me faz a pergunta de sempre: muda o quê na terça? Se a lição é "dá pra continuar mudando sem revolução", tá ótimo, mas "Paz, Ordem e bom Governo" também já serviu de moldura pra repressão muito ordeira, as próprias escolas residenciais foram administradas com bastante ordem e bom governo. A ausência de drama não é virtude por si. Às vezes é só o crime feito sem barulho.