Quem desce do ônibus no fim, vindo de Porto Alegre e achando o farol apagado na Névoa, fez o caminho da menina ao contrário. Meu palpite é que esse sujeito já conhecia o Ele.
Nós e Osíris II - O Braço Esquerdo I
Kaisipan
Quem desce do ônibus no fim, vindo de Porto Alegre e achando o farol apagado na Névoa, fez o caminho da menina ao contrário. Meu palpite é que esse sujeito já conhecia o Ele.
Nilalaman ng post
II
Acordei. Será que mamãe e papai já acordaram? Não, não acordaram. Cinco e oito. Se eu não tivesse medo do escuro, e não só dele mas o que se pode encontrar nele, teria saído à noite. Não aguento mais. Não vou aceitar mais nada. Pelo menos pus tudo na mala logo ontem e consegui deixar a chave bem a mostra. Tenho que me apressar. Ele está me esperando. Vou levar um tempo andando. Já tenho o dinheiro arranjado. Muitas mesada guardadas. Primeiro passo é sair da cidade. Pouca cerração, graças a Deus. Vou ter de ser o mais discreta possível. Sem hotéis, usar somente dinheiro vivo, pedir o mínimo de informações possível. O mapa que comprei e placas devem ser o bastante. É isso. Estou à postos. Finalmente: nada de vender geléias nem cobranças nem escola nem escola nem montanhas nem julgamentos, só eu e Ele. Vou caminhar em direção aos seus abraços e elogios. Quem sabe eu consigo um aprendizado em qualquer emprego até eu chegar a flor da idade ou ao menos ganho algumas telas para pintar. Ele me prometeu algum lugar para expor, com ou sem fundos previstos. Eu vou ter mais algo para fazer, que eu queira com plenitude. Mesmo se eu pudesse pintar aqui, o que teria eu para representar? O Alicerce? O Park? Nada disso é amplamente interessante. E, além do mais, Leonardo Allocer monopolizou todas as imagens, sejam de máquinas, sejam de pincéis, que podem ser criadas e recriadas por aqui. E não há nada de irrealidade por aqui. Tudo é insuportavelmente real, retrógrado, com paredes intransponíveis, o abstrato aqui funciona ao contrário: vem de fora, e não de dentro. As almas de Sacrário não são, por si só, íntimas. Foi melhor mesmo escolher o dia? As coisas são mais seguras então não só pra mim mas para todos os outros e um boa parcela já se levanta junto comigo. É um risco que vale a pena ser tomado. É agora ou nunca. Fui o mais cuidadosa, dirigente e prestativa possível na última semana. Eles podem dormir tranquilos e eu posso caminhar atenta, alerta mas espontaneamente direcionada. Que mamãe fique com o direito e papai com a matemática. Talentos são uma forma bonita de desistência, não tão infrutífera, performática, a isca do conformismo. Eu os amo. O que tiver de bom sobre mim a eles vai ficar. Estou evitando previamente prolongar ressentimentos e criar decepções... Os dois lados ganham... Ele inspira confiança. E mesmo que não seja seguro isso vai ser problema meu. As roupas são o bastante. Dá pra extender o uso de cada peça de roupa usando elas do avesso. É estranho mas é melhor do que uma hipotermia ou insolação. Eu deixo boa parte delas aqui, faço um favor a eles. Muitos favores. Sem mais vade mecums processos arquivados aquelas merdas de julgamentos assistidos julgar os outros realmente sou boa, nem mais cálculos nem estatísticas porra de integrais e derivadas que de algum modo sei fazer. A tela me fascina por ser minha exequível fraqueza? Talvez. Meu pente e escova. Minha tesoura. Nunca fui dos cortes tipicamente femininos. Sabonete pasta dentifrícia enxaguante bucal meus remédios absorventes camisetas dois casacos saias algumas calcinhas e sutiãs batom vermelho verde e rosa pó de arroz do mais vagabundo foi de última hora cartela de cigarro não é melhor não bom pão e geléia principalmente geléia o pão vai acabar antes finalmente essas geléias de laranja pera uva e pêssego dessa vez sem maçã não é temporada delas por enquanto para além do café da manhã vão ser úteis diretamente para mim a câmera não não vou deixar rastros as câmeras de Sacrário já tem dono de qualquer forma. Na mochila: as telas. Tenho tinta para pintar, mas tenho muita geléia e comendo com parcimônia posso inovar no material, toalhas muito bem bordadas, sete garrafas de muita água, meu binóculos, eu até procurei uma bússola mas de qualquer maneira não sei se seria de tanta utilidade nas minhas mãos, caderno, lápis, borracha, apontador, meus óculos escuros, papel higiênico, lanterna, velas e caixas de fósforo, meu travesseiro menor, deixo meu ursinho de pelúcia eles vão precisar mais dele do que eu, o chapéu largo de fibra sim sim tenho de levar claro foi Ele quem me deu e além de ser uma graça foi uma ótima fonte de vínculo, e daí que eu tenho dezesseis e ele trinta e nove o que está planejado não está feito mas está dedicado, de livros já não sobra muito mais espaço acho que levo só A Redoma de Vidro como lembrete Grande Sertão: Veredas pra ver bem e comparar com aqui e acolá e Ferdydurke e Lojas de Canela porque Gombrowicz e Schulz são meus favoritos e evocam a parte mais remota e ainda interessante das nos-sas raízes nem eles poderiam imaginar longínquo e tamanho absurdo e Cordas de Prata e 24 horas na vida de uma mulher para entender melhor meu sexo e homenagear um dos grandes fugitivos de uma casa arruinada. Pronto. Tudo certo. Tiro só a que preciso do molho. Sem nenhum tilintar. Passos cautelosos. Puxando as rodinhas da mala vagarosamente Cinco e dezenove. A luz ainda é débil. Se tudo correr como o esperado chego na entrada de Corona as seis e vinte e duas. A estrada por lá é por muito pouco, mas ainda sim mais curta. Como deve ser Porto Alegre? Ele vai me apresentar a lá e muitos outros. Tudo vai ser novo e o que por si só vai ser interessante. Não estou esquecendo de nada não? A bíblia protestante. Posso levar a mão. Posso assim buscar e consolar. Eles já a conhecem de cabo a rabo. Tá bom tá bom eu levo. Tranquilo. Puxando a maçaneta beeeeem devagar... pronto. Agora fechannnndo. Certo. Já demos o primeiro passo. Deixo-a agora embaixo do tapete da entrada aqui de fora. Como crescem os Cedros ao longe. Como anda bem essa temporada com menos Névoa. A única parte boa da Névoa descendente e emergente deve ser o farol acho. Nossa única particularidade minimamente interessante. Minimamente coerente. Vou passar bem por perto. Linhas brancas e vermelhas, e a lanterna imensa que localmente, intensamente, há um ou mais desamparados, induz ao caminho correto. Se eu fosse a noite, talvez com muita sorte, ele me guiasse. Confio mais no sol. Já posso até ouvir a voz Dele. Ah, logo ali, o Anúbis. O gato favorito da cidade. Será que o recanto dele é aqui em Clementia? Ele está indo para Nordeste, provavelmente para a bacia de ração que deixam para ele aos pés do Zepar de bronze. O Sr. Prefeito sempre pega ele no colo quando os dois dão a sorte de se encontrarem. É um caçador nato. Só ele dá conta de controlar a população de ratos de Sacrário inteira. Dizem que ele é tão velho que co-neheceu até o Zepar filho. Tem até foto. Deve ter sido Leonardo quem a tirou. Isso tecnicamente faria ele ter no mínimo vinte anos. Ele virou para mim. Que olhos mais verdes. Ainda deve estar com os instintos e a fome apurados. Não vou chamá-lo. Ele mia, esganiçadamente, mal se arrepia. Tchau, Anúbis. Dessa vez para sempre. O antiquário. O quanto de coisa do papai que daria uma grana no Chronos. Fechado. Que bom. O senhor C. talvez fosse me reconhecer pela barraquinha de geléias e ia vir perguntar por que uma mocinha como eu estaria acordada andando na rua a essa hora da manhã de um Sábado e talvez tentasse vender o peixe dele, e talvez conseguisse. Gosto de antiguidades. Histórias não contadas ou simplesmente ignoradas. Será que eu deveria escrever um bilhete a eles... ao menos com o mínimo? Tenho meu caderno e futuro diário. Não. Não. Aquele caderno vai ser só meu. Eles vão espontaneamente entender, mesmo que leve... certo tempo. Dá pra ver as Íris daqui. A encosta do Alicerce. Vista bonita... até você terminar de levantar os olhos. Tá aí algo que eu com certeza não vou sentir falta. Meu remédio pra dormir usa um extrato delas, acho. Os da capital devem cobrir sem problemas isso se não forem até melhores. É temporada delas. Até Janeiro acho. O pessoal lá de cima tem que descer rápido e com cuidado na encosta, até de rapel inclusive, pra pegar elas antes que as pétalas, os carpelos, as anteras e elas como um todo se despedaçem. Se bem me lembro elas se reproduzem sexuadamente na montanha pois o vento vem do Sudoeste, bate no Nordeste e faz com que o pólem liberado volte para encosta, fecundado somente as flores ali existentes. E os pássaros tem um piripaque quando comem elas, praticamente ficam chapados e morrem de overdose ou simplesmente caem no chão ou batem em alguma coisa de tão dopados que ficam depois de ingeri-las. Acho que aquela goma que o pessoal da Ritmo Acelerado masca nas festas é feita a base dela. Bem que eu sempre eu achei o cheiro familiar. Foi lá onde O conheci. Foi muito divertido, uma troca rápida de olhares, apresentações intrigantemente hesitantes, e logo em seguida fizeram o favor de colocar um Tango de fundo. E como ele dançava bem. Experiente. Não devo ter sido o primeiro interesse dele. Mas quem se importa? Com quase quarenta isso ao menos faria sentido. Mas só de eu possuir uma garantia inicial e um bom pretexto, vale a pena. Ah, eu poderia ter pego o jornal. Ao menos eu lia algo mais fácil no caminho. Nem chequei a caixa de correio. Geralmente o Serra Notícias que mamãe assina pra se manter atualizada judicialmente entrega às quatro da manhã. Ah, os entregadores devem estar por aí terminando de entregar... espero que ninguém me veja. Os outros entregam mais tarde, até eles saírem eu já devo estar fora da cidade. Melhor nem ter pego, somente tragédias. Não vou ocupar minha cabeça com elas, ainda mais alheias que não me compelem, como diz papai e mamãe obviamente pela ocupação não concorda. Semana passada, houve aquela notícia terrível, cavernosa, hedionda... com algumas fotos, não muitas, mas tinham. Vi de relance. Papai quase regurgitou o almoço de terça e daquela quarta. Até mamãe se sentiu enojada e não quis tocar as burocracias do caso. Isso ganhou repercussão internacional, se bem me lembro. Se não me engano já mobilizaram reforços do governo do estado. E acho que morreu outro de manhã ontem, só ouvi as pessoas da escola comentando. Mais um alerta pra eu ir embora. Mais um alerta pra eu me apressar. Mais um alerta pra abrir meus horizontes. Tanto que vou poder fazer. Ao lado Dele. Não vou esperar pra morrer aqui e parar lá. Eu vou tentar ir para o céu protestante. Eles certamente já tem a entrada garantia e acham que podem ir para lá nascendo e vivendo aqui. Espero que a minha ida permita eles pensarem melhor a respeito. Sola Gratia, Sola Fide, Sola Scriptura, Solus Christus, Soli Deo Glória. Vou lembrar muito bem. Não existe amigo... amigo... amizade alguma que pudesse me segurar aqui, sem correntes, como o Pinóquio que papai cantava. Quem quiser me examinar, não há cordões em mim. Relógio de rua com termômetro. Cinco e trinta e sete, dezoito graus. Deve descer a temperatura com o dia como diziam as previsões. Daqui alguns bons minutos, isso não vai ser nenhum problema pra mim. Cheguei, ao reduto religioso de Clementia. Existe um pra cada bairro. Eles juntos formam um triângulo menor no Festival do Convênio dentro dos três bairros já triangulados da cidade, só que esse triângulo engloba o Bosco com o Zepar dentro. Se ele vê sua obra, daqui de baixo encrustado em bronze ou lá de cima, deve sentir desgosto ou arrependimento ou ao menos algum grau de desilusão quanto a sua criação. Isso não vai dar certo, não por muito tempo. Do jeito que as coisas vão indo tudo vai acabar como sempre acabou: as pessoas impelidas, jogadas ou arremessadas contra as outras. Não tem como. Vão desovar todo mundo. Todo mundo vai se desovar. Antes de Jesus, Lutero volta. Papai treme só de passar na frente da Catedral e da Sinagoga de Clementia temendo o pior. É no mínimo curioso. Cartaz. Discurso do Sr. Prefeito no dia primeiro do mês que vem. Mamãe deve ir e papai também. Bastante propaganda. O Sr. Prefeito é daqui de Clementia também se bem me lembro. Já está no posto já faz um bom tempo. Não sou chegada em política. Mais um fardo que não será mais um problema para mim. E logo ali algo que vou sentir falta. A loja de pirotecnia Lume. O pátio de trás dela sempre radiante. Fogos de artifício de todos as formas, cores, intensidades. Não faturam tanto mesmo com a juventude efervescente de emoções e destaques do céu, mas certamente nos oferecem muita diversão, nós fornecem nossos recados e pedidos efêmeros que são enviados num grito para os céus. E o Senhor Aim é muito simpático tanto dentro quanto fora dos negócios. Ele não gosta que chamemos ele assim. E ele parece meio triste às vezes, mas sempre garantiu os fogos de todas as festas da cidade. Como alguém com uma ocupação como essa não haveria de ser feliz? Mais um efeito que tudo isso exerce sobre nós. E ele provavelmente nem conseguiria se manter em qualquer outro lugar, a concorrência deve saber de fato o que é entusiasmo. Ele tem de oferecer vislumbres de ânimo aos precários que aqui buscam. Uma caridade, quase um martírio. Vou sentir certo falta. Ufa, finalmente em Corona. Só continuar em menor ângulo para Nordeste e a partir da entrada seguir a estrada. O farol agora está mais nítido. Gosto mas confio no sol. Quase lá. Relógio de rua com termômetro. Cinco e cinquenta. Acabou de bater cinquenta e um. Ainda dezoito graus. Lá é mais frio ou mais quente que aqui? Nos braços Dele, ao lado Dele, com Ele em qualquer lugar que fosse com certeza seria mais quente. Menos aqui. Mamãe queria ir na Selena amanhã. Aproveitar que levamos o carregamento de geléias nossas para eles e aproveitar... mas era melhor não. Não poderia esperar mais. Nem mais um minuto. Quase lá. O farol listrado. A marcenaria Estábulo de José, bem velha. Mal vínhamos mais aqui. Acho que o tio J. ficou brigado com o papai ou o papai com tio J. , não sei dizer. O meu Pintassilgo de madeira! O meu precioso! Mais pra eles... não preciso de mais nada. Eu quem ainda trouxe muitas coisas. Não era pra ter vindo nem de "mala e cuia", como fala mamãe. Se ao menos o essencial não fosse assim tão relativo, individualmente falando. Mas as decisões serão além de mais plenas, também mais fáceis a partir de daqui a pouco. O Ele precisar, eu precisarei e vice-versa. Talvez só a minha presença ou a de qualquer pessoa já traga demais do que há aqui para qualquer lugar. Quase lá. Que façam o que quiserem com minhas coisas, meus pertences, que as pelúcias afofem que tenham outra filha ou filho que ocupe o que vou deixar que o meu Pintassilgo voe ou retorne para a terra que comam as geléias e vivam o quanto mais quiserem por aqui Sanctuarium Zyiege ou sei lá mais o quê. Apressando o passo. Isso isso o portão "Bem Vindo a Sacrário" isso. Tchau farol tchau Park tchau mamãe e papai tchau tios e tias primos avós toda árvore genealógica tchau casas tchau escola tchau Alicerce e suas e flores e seus mortos e seus funcionários tchau prefeito tchau três bairros tchau fogos de artifício tchau Ritmo Acelerado e tchau tchau não posso tomar mais tempo com despedidas. Seis e vinte. ... Ando sendo injusta com tudo isso. Não sei como as coisas chegaram a esse ponto, nem porquê. É triste. Triste. Agridoce, como balsâmico e torta de limão. Nostalgia inimiga do progresso. Certa feita eu poderia no futuro fazer algo por aqui, por quem está e vai estar aqui. Mas o portão é logo atrás. Não quero deixá-Lo esperando mais do que já vou deixar. É melhor... e que balançar é...
"A Lágrima do Adeus ficou suspensa, como uma cortina que embacia o claro ver..."
* * *
[Ah sim, a manhã é tão alheia a realidade, desejos e natureza quanto a noite. Me desculpem, esqueci de avisar. Não é como se eu fosse fazer muita diferença né? Não fala. Relaxa, logo mais ela volta.]
Finalmente Sacrário. Cinco horas de viagem de Porto Alegre até aqui? Os ônibus de antigamente levavam no máximo, e querendo muito, três. Com equipamento precário, gasolina medida a conta gotas sem um terço do asfalto que hoje temos. Os motoristas de hoje fazem um lenga-lenga e devem ser treinados na capital e de uma hora pra outra mandados fazer escala por aqui. Se eu soubesse eu teria me dado ao prazer de ir andando sem problemas. Ainda treinava minha memória alimentada de caminhadas a longa distante com o recém falecido Zepar e de olhar pelo vidro da caminhonete do pai em direção a capital para pegar pólvota e outros produtos da loja. Como anda ela? O quatro-olhos deve estar cuidando bem dela. Claro que não contei a ele que voltava, ele faria, para bem ou para mal, o maior alvoroço.
[Vão gostar dele. Não, ele não pode explodir ninguém (além do cachorro da Srta D.), acho que tinham mais pedaços no ar e por todos os lados do que deveriam.]
Ninguém foi avisado. Volto sem clamores. Onde será que reencontro cada um pela primeira vez? Nunca me reencontrei, apenas vislumbrei novas presenças. Sempre temos uma primeira vez pra tudo. Já dá pra sentir o ar úmido daqui. Será que ele está pilotando o farol? Já começo a ver a névoa. Vi aquela beldade, que maravilha! Em um cubículo, ele atingiu a apoteose!
[Vão gostar dele. Isso, claro, se ele não tiver se casado. Pena que nunca nos distribuiu bons pares de coxas enquadrados. Trágico]
Nitidez não é o forte daqui. Não é o nosso forte. Na fala, na audição, na visão, no tato. Como poderia ser? Ficamos mais engraçados assim. Perdidos. Não é Hilário o debater de um peixe fora d'água? Ou melhor, de uma minhoca em qualquer ambiente? Caminhar cambaleante chega a ser menos digno do que se arrastar e não possuímos conforto sabendo tudo o que sabemos sobre tudo o que sabemos.
Falta pouco. Apenas uma página. Recém traduzido,
[Não foi não]
Famoso,
[Não é não]
Quem sabe eles não gostam?
[Ou quem sabe até o mundo todo?]
Meus pêsames, claro, ao que mais gostaria. Quem sabe Léo não goste. O que mais temos aqui:
[Não há ninguém entre ti e mim
e me foi dada uma força.
Brancas montanhas pastam nas planícies da terra,
vão para o mar, para seu bebedouro,
sóis sempre novos se inclinam
sobre o vale do pequeno e turvo rio junto do qual nasci. Não possuo sabedoria, nem habilidade, nem crença,
mas me coube uma força, ela rasga o mundo.
Em uma pesada onda, me despedaço contra suas margens
e sigo, retorno aos domínios das eternas águas,
e uma jovem onda cobre meu rastro com espuma. Óh escuridão! ...]
Ahm, já chegamos ao ponto. Não vão nem entrar? Na cidade? Deixaram no ponto mais externo. Duzentos metros da entrada. Que horas? Onze da noite. Tranquilo. Me hospedo rápido no Abigail sem problemas. Devem estar implorando por hóspedes. Matar dois coelhos em uma cajadada só. Descida, descida. Com licença.
- Boa noite.
- Boa noite.
[Sem gorjeta pra ele.]
E cá estamos. Somos. Não tenho pressa. Vou chegar a qualquer momento. Lá está o farol. Desligado, mesmo nessa Névoa está desligado. Sem problema, sem problema.
[Como é bom brilhar, ser o único que não o necessita, nessa cidade. E eles não me seguem, tem medo...]
[Aproveitando a deixa: A Cidade Dorme.]
Thoughts
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PermalinkQuem desce do ônibus no fim, vindo de Porto Alegre e achando o farol apagado na Névoa, fez o caminho da menina ao contrário. Meu palpite é que esse sujeito já conhecia o Ele.
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PermalinkA menina sai de casa fazendo partilha: o ursinho fica porque eles vão precisar mais, o pintassilgo de madeira fica, as geléias ficam, mamãe com o direito e papai com a matemática. Parece testamento de quem não pretende voltar, e ela ainda acha que está fazendo favor. Esse Ele com letra maiúscula eu não engulo.
II