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Noite estrelada.

alpes

Conteúdo da publicação

Nos grilhões do tempo me perdi,

enquanto as estrelas admirava.

Dias e noites em claro,

almejando o fim

de uma guerra já perdida.

Meus membros estão latejando

por conta do frio soprado

por suas falas cortantes.

Não consigo me mover,

sair do lugar.

Morri em vida.

Posso dizer que morri milhares de vezes

em centenas de dias,

e que, a cada morte,

uma parte de mim deixou de existir

sem que ninguém percebesse.

Talvez o brilho das estrelas

já não me encante mais,

pois as noites são frias

e cansei de esperar os dias acabarem.

Quero me banhar no sol

e sentir meu corpo se mover novamente.

Quero que minhas feridas sejam curadas

pelo calor de mãos sensíveis,

que alguém toque minhas cicatrizes

sem me fazer recordar

de todas as vezes em que sangrei.

Quero voltar a sentir

que ainda pertenço a este mundo,

que há alguma coisa além da dor

esperando por mim do outro lado da janela.

Quero abrir os olhos pela manhã

sem sentir que sobrevivi

a mais uma noite que não desejava enfrentar.

Mas nem tudo pode ser resolvido,

e talvez essa seja a mais cruel

das verdades que aprendi:

há dores que não encontram remédio,

ausências que não se preenchem

e despedidas que continuam acontecendo

muito depois que alguém vai embora.

Pois continuarei morrendo em vida,

porque memórias não morrem.

Elas apenas aprendem a silenciar

quando já não há ninguém disposto a ouvi-las.

Escondem-se nas frestas do pensamento,

adormecem sob a pele

e aguardam, pacientes,

o instante mais inoportuno

para rasgar novamente a carne

que o tempo tentou cicatrizar.

Há dias em que esqueço seu rosto,

mas nunca a maneira como me senti

quando compreendi

que até mesmo o amor

pode ser um lugar onde se passa frio.

Esqueço palavras,

confundo datas,

já não sei precisar

quantas noites passei implorando ao teto

por uma resposta que nunca veio.

Mas meu corpo se recorda de tudo.

Recorda o peso dos silêncios,

a crueldade dos últimos olhares,

o gosto amargo de engolir o choro

para não parecer fraca

diante de quem jamais compreenderia

a dimensão do estrago que deixou.

E o mais triste

é que não guardo apenas a dor.

Guardo também aquilo que me fez feliz.

O riso que um dia foi sincero,

a ternura que parecia eterna,

os pequenos instantes

em que acreditei, ingenuamente,

que certas coisas não acabariam.

São essas lembranças que mais me ferem,

porque a tristeza de perder alguém

não se compara à agonia

de continuar amando aquilo

que já não existe da mesma maneira.

Como posso sepultar o passado

se ele ainda respira dentro de mim?

Como posso abandonar uma casa

cujos cômodos foram construídos

com os pedaços de quem eu era?

Tentei fechar as portas,

apagar as luzes,

deixar que a poeira cobrisse os retratos.

Mas, quando a noite chega,

ouço passos pelos corredores

e volto a ser aquela pessoa

que ainda acreditava

que tudo poderia terminar bem.

Talvez seja esse o meu castigo:

não conseguir odiar inteiramente

aquilo que me destruiu.

Porque existe uma crueldade particular

em sentir saudade do que nos feriu,

em desejar novamente o calor

das mãos que nos deixaram congelando,

em procurar abrigo

justamente onde aprendemos

que também se pode morrer de frio.

E, enquanto o mundo continua,

enquanto os relógios devoram as horas

e as pessoas seguem suas vidas

como se nada tivesse acontecido,

permaneço aqui,

sentada entre os escombros

de tudo o que um dia chamei de lar.

Ninguém percebe que envelheci

esperando por algo que não viria.

Que meus olhos perderam o brilho

não por terem contemplado a escuridão,

mas por terem procurado,

durante tempo demais,

uma luz que já não estava lá.

O sol nasce todas as manhãs,

indiferente às minhas ruínas.

As flores continuam desabrochando,

os pássaros continuam cantando,

e a primavera insiste em retornar

mesmo aos lugares

onde nenhuma esperança sobreviveu.

Eu os observo pela janela

e me pergunto em que momento

deixei de fazer parte das coisas vivas.

Pois ainda respiro,

mas há muito não me sinto presente.

Ainda caminho,

mas não sei para onde vou.

Ainda sorrio,

mas já não reconheço

a pessoa que sorri diante do espelho.

Sou feita de despedidas

que nunca tive coragem de pronunciar,

de lágrimas que secaram antes de cair,

de palavras que morreram na garganta

e de um amor tão antigo

que já não sei se me pertence

ou se apenas me acostumei

a carregá-lo como uma sentença.

E talvez um dia eu consiga

sentir novamente o calor do sol

sem desejar voltar ao passado.

Talvez minhas mãos encontrem outras mãos

que não me façam temer o abandono.

Talvez eu volte a olhar para as estrelas

e enxergue nelas alguma beleza

além da distância que nos separa.

Mas, mesmo que esse dia chegue,

haverá em mim um inverno

que nenhuma primavera poderá desfazer.

Porque o tempo pode levar os rostos,

desbotar as fotografias,

transformar promessas em histórias

e pessoas em desconhecidos.

Pode até me ensinar a viver

sem aquilo que um dia julguei indispensável.

Mas não pode me devolver

a inocência de quem eu era

antes de descobrir

que algumas feridas não sangram,

algumas mortes não têm funeral

e algumas pessoas continuam vivas

apenas porque ninguém lhes avisou

que, por dentro,

já não sabem como continuar.

No fim, talvez seja isso envelhecer:

não contar os anos que passaram,

mas as versões de nós mesmos

que deixamos pelo caminho.

E eu deixei tantas.

Deixei aquela que acreditava nas promessas,

aquela que dormia sem medo,

aquela que amava sem calcular

o tamanho da queda.

Deixei aquela que olhava para o futuro

como quem contempla um campo florido,

sem imaginar que um dia

teria de atravessá-lo descalça,

carregando nas mãos

os próprios pedaços.

Hoje, quando a noite se aproxima,

já não peço que as estrelas me guiem.

Peço apenas que o silêncio seja gentil,

que as lembranças não gritem tanto

e que, por algumas horas,

eu consiga descansar

da pessoa que me tornei.

Porque estou cansada.

Cansada de procurar sentido

naquilo que me feriu.

De recolher os cacos

de uma existência que não reconheço.

De fingir que o tempo me curou

quando, na verdade,

apenas aprendi a esconder

onde ainda dói.

E se algum dia perguntarem

por que deixei de admirar as estrelas,

direi que elas continuam belas,

que o céu permanece imenso

e que a noite ainda guarda

mistérios que merecem ser contemplados.

Só não direi que, durante muito tempo,

olhei para elas esperando encontrar

alguma resposta para a minha tristeza.

Não direi que passei tantas madrugadas

desejando ser outra pessoa,

viver outra história,

habitar um corpo que não estremecesse

ao ouvir certas palavras.

Não direi que houve um tempo

em que tudo o que eu desejava

era voltar a ser quem fui

antes de conhecer determinadas dores.

Porque algumas verdades

são pesadas demais para a voz,

e certas tristezas,

quando pronunciadas,

parecem tornar-se definitivas.

Então guardarei tudo comigo,

como sempre fiz.

As lembranças,

os nomes,

as promessas,

os adeuses.

Guardarei até mesmo a esperança,

essa pequena crueldade

que insiste em permanecer viva

quando todas as outras coisas

já aprenderam a morrer.

E continuarei caminhando,

não porque saiba aonde ir,

mas porque o mundo não interrompe seus passos

para esperar que alguém se recomponha.

Continuarei caminhando

com o coração coberto de inverno,

com as mãos vazias

e a alma repleta de fantasmas.

Talvez ninguém perceba.

Talvez ninguém pergunte.

Talvez, com o passar dos anos,

eu mesma me esqueça

de como era antes de tudo isso.

Mas haverá noites

em que uma palavra, um perfume,

uma música esquecida

ou um simples sopro de vento

abrirá novamente as portas

daquilo que tentei enterrar.

E, por alguns segundos,

estarei outra vez naquele lugar,

diante de tudo o que perdi,

sentindo a mesma dor,

com a mesma saudade,

com a mesma pergunta

que o tempo jamais respondeu.

Então compreenderei, mais uma vez,

que certas guerras terminam

muito depois da última batalha,

e que algumas vitórias

consistem apenas em aprender

a carregar as cicatrizes

sem permitir que elas decidam

todos os nossos próximos passos.

Ainda assim,

há noites em que me pergunto

se algum dia deixarei de sentir frio.

Se algum dia o sol tocar minha pele

sem iluminar também os escombros.

Se algum dia poderei fechar os olhos

sem reencontrar aquilo que perdi.

E, sobretudo,

se existe alguma forma de seguir em frente

quando uma parte de nós

permanece para sempre

naquele instante em que tudo mudou.

Não tenho respostas.

Tenho apenas o tempo,

que continua passando sem piedade,

e estas mãos,

que já não sabem o que fazer

com tudo aquilo que não puderam salvar.

Talvez eu nunca volte a ser inteira.

Talvez algumas partes de mim

tenham ficado para sempre

nas noites em que implorei por calor

e encontrei apenas silêncio.

Mas, se ainda me resta alguma coisa,

é esta memória persistente

de tudo o que fui,

de tudo o que amei

e de tudo o que, apesar de morto,

continua vivendo dentro de mim.

Porque o tempo não devolve.

O silêncio não apaga.

E a saudade não distingue

aquilo que ainda pode voltar

daquilo que jamais voltará.

Nos grilhões do tempo me perdi,

enquanto as estrelas admirava.

E agora,

que já não sei reconhecer o céu,

que já não sei contar os dias

nem recordar o caminho de volta,

compreendo a mais triste verdade

que a vida me ensinou:

Há coisas que terminam no mundo,

mas continuam acontecendo dentro de nós.

E, por mais que os anos passem,

por mais que o sol volte a nascer,

por mais que a vida insista

em me chamar para fora das ruínas,

algumas noites permanecerão em mim.

Não como lembranças distantes,

mas como lugares

aos quais uma parte da minha alma

continuará retornando.

Pois o tempo pode seguir adiante.

Eu também posso.

Mas aquilo que vivi

não seguirá comigo como uma história

que se conta e depois se esquece.

Seguirá como uma sombra,

como uma cicatriz,

como um nome que já não pronuncio

e que, ainda assim,

reconheço em cada silêncio.

Porque memórias não morrem.

Elas apenas aprendem a viver

onde ninguém mais pode vê-las.

Thoughts

  • OtavioMourao

    Ver a esperança tratada como uma crueldade pequena me pareceu o ponto mais honesto do poema. Quase todo texto sobre perda põe a esperança no papel de remédio, e aqui ela é justamente o que impede o luto de terminar. Aposto que essa estrofe veio depois das outras, porque ela desmonta o pedido de sol lá do começo.

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