O cão a cheirar o corpo uma vez e a afastar-se sem pressa foi onde eu parei. O que senti ali não foi pena, foi uma espécie de vergonha emprestada, e não estava à espera disso.
Na Toca da Onça
Pensamento
O cão a cheirar o corpo uma vez e a afastar-se sem pressa foi onde eu parei. O que senti ali não foi pena, foi uma espécie de vergonha emprestada, e não estava à espera disso.
Conteúdo da publicação
Quando a caçada terminou, ninguém teve certeza de que havia vencido.
O sol não se impunha mais sobre a mata. Escorria por ela em lâminas estreitas, oblíquas, filtradas por galhos antigos e cipós, como se a luz tivesse aprendido a pedir licença. A mata densa parecia se fechar aos poucos, como quem recolhe a própria sombra para não se expor. O ar estava pesado, saturado de horas, como se o dia tivesse passado além do necessário. Vinham desde antes da manhã, seguindo o curso do rio acima. Cavalgavam em fila curta, sem conversa, atentos ao chão. O rastro não precisava ser explicado. Estava ali, escrito em sangue, pelos e terra revolvida. Cães mortos marcavam o caminho: uns rasgados até o osso, outros largados como coisas que nem a morte quis levar.
Não eram restos. Eram sinais.
A onça não fugia mais. Defendia-se.
Sabino ia à frente. Sempre ia. Não porque fosse o mais forte, mas porque conhecia aquele chão como se conhece um corpo antigo: pelo peso que não se move fácil, pela resposta lenta, pela resistência. Sabia onde o rio se estreitava até caber na palma da mão. Sabia onde a água desaparecia sob as pedras, aprendendo a correr por baixo do mundo. Sabia onde a mata fechava o cerco, não para proteger, mas para provar quem ousava entrar.
Depois da grande geada de 1915, tudo mudara.
O café morrera nos morros, aceitando o seu fim sem alarde. As folhas queimaram de frio. A terra endureceu. O trabalho dos homens, por mais insistente, não dera resposta nem fizera brotar folhas novas. Foi então que a onça começou a aparecer. Primeiro uma galinha. Depois os porcos, até então criados soltos na mata como selvagens ou javalis. Além de destocar os cafezais mortos, foi necessário fazer chiqueiros para proteger os animais. Depois, até os cães desavisados.
Era afirmação.
Território.
Quando chegaram à nascente, ninguém precisou avisar. A mata mudou de respiração. O ar tornou-se mais espesso, contido. Não havia vento nem folhas em movimento. Até o som da água diminuiu. A clareira abriu-se de repente, não ampla, mas exata, como coisa que só existe naquele ponto e naquele instante.
E então viram.
A onça-pintada estava sentada sobre as patas dianteiras. O corpo pesado sustentava-se com uma dignidade cansada. O flanco subia e descia devagar, profundo, respirando junto com a terra. O pelo, antes limpo, trazia barro e manchas de sangue seco. Não rosnava.
Não avançava. Sustentava o olhar.
À sua frente, um cachorro pequeno, um perdigueiro que sobrara por acaso, permanecia imóvel. Não latia. Não corria. Não tremia. Olhava. Entre os dois havia pouca distância. Não de ataque. De reconhecimento.
Os homens pararam.
Nenhuma arma foi erguida naquele primeiro instante. Nenhuma ordem foi dada. A cena não admitia ruído. Era daquelas que exigem o máximo de silêncio para não se quebrar.
Sabino sentiu o peso da espingarda nos braços. Estava mais pesada do que de costume, carregada de algo que não era só ferro. Sentiu também outra coisa, mais funda e incômoda: a certeza de que aquela onça não estava ali como caça. Estava ali como limite, desses que não se atravessam sem deixar algo para trás.
Ela bufou baixo. Não era ameaça. Era aviso.
Sabino segurava a faca. Sabia usá-la. Aprendera cedo que, no mato, a lâmina decide rápido. Mas também aprendera que rapidez nem sempre é coragem. Não avançou. A onça também não recuou. Seus olhos não pediam clemência. Não pediam nada. Naquele olhar havia algo que não se traduz. Não era fúria. Não era medo. Era o que resta quando todas as palavras falham.
O tempo pareceu prender o fôlego.
A mata ficou quieta demais. Os pássaros calaram. Os cães baixaram o focinho, como se reconhecessem algo que os homens demoravam a entender. Ali não havia dono.
Ninguém viu o golpe. E talvez por isso ninguém o conte.
Sabe-se apenas que, depois, a onça estava caída. O corpo ainda quente, pesado, devolvido ao chão como algo que retorna ao lugar de onde nunca saiu. Não houve grito. Não houve luta. Houve apenas o depois.
O perdigueiro aproximou-se devagar. Cheirou o corpo uma última vez. Depois recuou, sem pressa, como quem entende que algo terminou para sempre e que não se celebra.
Os homens permaneceram quietos. Olhavam a onça como se olhassem um espelho, desses que não devolvem o rosto, mas o tempo acumulado.
Sabino tirou o chapéu e apertou-o contra o peito. Não rezou. Não pediu desculpa. O seu gesto bastava. Os homens fizeram o mesmo.
Antes, tiraram-lhe o couro. A onça foi enterrada ali mesmo, perto da nascente, sob um ipê jovem que ainda não florira. Cova rasa. Sem cruz. Sem qualquer marca. Marcar seria chamar de volta. Nomear demais, violar.
Naquela noite, o acampamento não teve riso. O fogo queimou baixo, com chama curta. Cada homem dormiu com seus próprios pensamentos. Alguns sonharam com água escura. Outros com olhos no breu. Sabino acordou sem lembrar do sonho.
Depois disso, o rio ganhou nome.
Não apareceu em mapa algum. Não foi registrado em papel. Mas ninguém o chamava diferente: Rio da Onça Pintada. O nome pegou sem anúncio, sem dono, com raiz. Com o tempo, foi sendo dito de outros jeitos. Rio da Onça. Água da Onça. Até que acabou ficando Água da Pintada, como a boca do povo costuma fazer quando o nome passa a ser mais vivido do que lembrado.
Aos poucos, começaram os sinais.
À noite, perto do monjolo, alguns juravam ouvir o som seco de um machado. Sempre o mesmo ritmo. Nunca se via ninguém. Apenas o som, cortando a noite e o tempo junto. Quem escutava acordava com a sensação de que algo havia sido medido. E julgado.
Os mais velhos diziam que era aviso. Outros diziam que era alma penada. Sabino não explicava. Dizia apenas que a mata não dorme. Respira. E quem respira, guarda.
Houve também histórias de bicho grande no rio. De cobra vista só por partes, nunca inteira, como se o corpo não coubesse num olhar só. E houve quem dissesse que, nas noites de lua cheia, o breu parecia devolver o olhar. Não como ameaça. Como vigília.
Depois da onça, ninguém entrava ali do mesmo jeito. Nem saía.
Não se cortava árvore sem hesitar. Não se atravessava o rio sem sentir o peso da água nos tornozelos. Não se falava alto perto da nascente.
Sabino viveu muitos anos. Envelheceu com o corpo inteiro, mas com algo quebrado por dentro, não de dor, mas de saber. Contava a história sem floreio. Nunca descrevia a morte. Dizia apenas que há coisas que não pertencem à fala.
O que é da mata, a mata guarda.
E guardou.
O rio segue até hoje, contornando morros, juntando águas, alcançando o Paranapanema como quem cumpre um destino sem pressa. Mas quem nasce ali aprende cedo que não se entra no mato como quem entra em casa própria.
Porque há territórios que não se conquistam.
Há encontros que não se vencem. E há vitórias que não afirmam o homem, apenas o colocam diante daquilo de que jamais será dono.
Henrique A. Chagas é escritor, palestrante e pesquisador nas áreas de história, cultura e filosofia. É autor do livro Tavares Terra, no qual articula investigação e reflexão histórica sobre a experiência humana, com ênfase na memória e na formação do interior paulista.
Thoughts
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PermalinkFiquei com o nome do rio.
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PermalinkGostei muito da cova rasa, sem cruz e sem marca nenhuma. Minha mãe falava assim de quem morre de um jeito que não se conta, menino ❤️
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PermalinkAquele cão parado. Pá.
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PermalinkFiquei preso na geada de 1915. O café morre, os porcos deixam de andar soltos, e só depois disso é que a onça começa a aparecer. Quem mudou de território primeiro foram os homens, e o Sabino sabe isso sem o dizer.
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PermalinkTem um senhor que compra jornal aqui todo sábado e caçou a vida inteira, e essa tua história é pra ele. Vou contar amanhã quando ele parar! O que ele vai querer discutir é o perdigueiro, porque ele jura que cachorro entende antes da gente. Eu li de pé, e no chapéu apertado contra o peito parei de atender um minuto.
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PermalinkA mata da tua história virou capão de mato aqui na minha cabeça, com estrada de terra em volta, e eu nem tentei corrigir. Fiquei mesmo foi no rio trocando de nome três vezes até virar Água da Pintada. Lugar por aqui também muda de nome pela boca de quem passa, e ninguém pede licença.
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PermalinkConfesso que travei em ninguém viu o golpe. Li duas vezes e continuo sem saber se foi o Sabino ou se o cachorro pequeno teve alguma parte naquilo. Meu avô contava caso de onça desse jeito, sempre pulando o meio, e eu passei a vida achando que era esquecimento dele.
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PermalinkO cão a cheirar o corpo uma vez e a afastar-se sem pressa foi onde eu parei. O que senti ali não foi pena, foi uma espécie de vergonha emprestada, e não estava à espera disso.
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PermalinkQue história boa de ler! O que ficou comigo foi o rio mudando de nome sozinho, de Rio da Onça Pintada até Água da Pintada, como se o lugar fosse decidindo por conta própria o que ia guardar. E o chapéu apertado contra o peito, sem reza e sem desculpa, diz tudo o que aqueles homens não iam falar. Você tem mais histórias dessas publicadas por aqui?
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