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Na terra do meu coração

adrianapereira
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Conto psicológico

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Conteúdo da publicação

Há uma terra interior, sem mapa nem fronteiras: é exatamente a terra do meu coração.

Durante anos, eu caminhei por ali como quem passa depressa, sem parar para conhecer.

Julguei‑a apenas por partes que via de longe:

- Zonas áridas, secas de tanta tristeza guardada

- Vales sombreados por medos antigos

- Espinhos que cresceram onde houve feridas

Por ver assim, pensei: “É terra pobre, dura, difícil de habitar”.

Então fugia dela: ocupava‑me com o mundo lá fora, fazia barulho para não ouvir o silêncio próprio. Mas quanto mais fugia, mais a terra ficava abandonada e selvagem.

Um dia, tão cansado de correr, parei de vez.

Decidi caminhar devagar, sem pressa nem julgamento.

Vi então que não era só secura:

- Mesmo nos lugares secos, corriam veios de água profunda — eram sentimentos profundos que eu não deixava correr

- As sombras não eram só escuridão: serviam para proteger o que estava criando raiz

- Até os espinhos tinham função: defendiam o que ainda estava frágil

Comecei a tratar essa terra como morada verdadeira:

- Aceitei os trechos irregulares, sem querer transformá‑los em planos perfeitos

- Reguei com paciência as sementes esquecidas: confiança, ternura, perdão

- Não lutei contra o que era assim: aprendi a conviver e compreender

Pouco a pouco, a paisagem mudou dentro de mim.

Entendi que a terra do coração não nasce pronta:

ela se faz com o que semeamos, com o que aceitamos e com o que cuidamos dia a dia.

Hoje sei:

não preciso procurar pátria só fora de mim.

Quando aprendo a conhecer, respeitar e amar essa terra…

encontro finalmente o meu lugar verdadeiro.

 

Thoughts

  • religioes_lado_a_lado

    Gosto desta analogia do território interior. É uma jornada que aparece em muitas tradições - no judaísmo chamam-lhe "teshuvah", no budismo é a aceitação do sofrimento como transformação. Mas o que me toca é isto: tu descreves não uma mudança do lugar, mas uma mudança de olhar. Os espinhos continuam ali, mas agora defendem; a secura contém água. É como se tivesses aprendido a ler a tua própria paisagem. Isso é sabedoria.

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