ESTAVA FEITO
Diante de todas aquelas perdas, alguma coisa dentro de mim finalmente abriu os olhos.
Até aquele momento, eu ainda estava preso à ideia de que a vida era aquilo que acontecia comigo. Eu perdia um emprego, perdia um relacionamento, perdia pessoas, perdia caminhos e tentava, de alguma forma, reconstruir tudo novamente.
Mas a morte da minha mãe foi diferente.
Ali eu percebi que certas coisas não voltam.
Não existe emprego que traga alguém de volta.
Não existe dinheiro.
Não existe casamento.
Não existe casa.
Não existe nada que possa preencher o lugar de uma pessoa que morreu.
E talvez tenha sido justamente nesse vazio que alguma coisa começou a nascer dentro de mim.
Pela primeira vez, comecei a olhar para a minha própria vida de fora.
Comecei a perguntar quem eu era sem aquilo tudo.
Quem eu era sem uma esposa.
Sem um emprego que pudesse me definir.
Sem a obrigação de construir uma família dentro dos moldes que haviam colocado na minha cabeça.
Sem a necessidade de possuir coisas para provar que eu tinha vencido na vida.
Comecei a entender mais sobre a individuação. Comecei a observar o comportamento humano com outros olhos e percebi que muitas das coisas que chamamos de escolhas talvez sejam apenas caminhos que aprendemos a seguir.
A vida inteira nos dizem o que devemos querer.
Estude.
Trabalhe.
Case.
Tenha filhos.
Compre uma casa.
Tenha um bom emprego.
Tenha uma casa na praia.
Acumule.
Produza.
Consuma.
E, quando finalmente conseguimos alguma dessas coisas, dizem que chegamos lá.
Mas lá onde?
Foi então que comecei a perceber que muitas das coisas que eu julgava ter escolhido talvez nunca tivessem sido realmente minhas escolhas.
Eu apenas estava seguindo as circunstâncias.
Seguindo aquilo que aprendi.
Seguindo aquilo que esperavam de mim.
E foi preciso perder muita coisa para que eu começasse a enxergar isso.
As perdas me desmontaram.
Mas, ao mesmo tempo, começaram a me libertar.
Foi nesse momento que comecei a entender que nada e ninguém é de ninguém.
Pessoas não são propriedades.
Relacionamentos não são correntes.
Bens não são identidade.
E uma vida construída apenas para satisfazer expectativas pode parecer perfeita por fora e ser uma prisão por dentro.
Foi então que comecei, pouco a pouco, a me desapegar.
E o desapego não veio como uma vitória bonita.
Veio depois da dor.
Veio depois da solidão.
Veio depois da morte.
Veio depois de perceber que tudo aquilo que eu acreditava precisar para ser alguém poderia desaparecer de uma hora para outra.
E, quando percebi isso, alguma coisa mudou.
Eu já não queria mais correr atrás de uma vida que não tinha escolhido.
Não queria mais viver para cumprir expectativas.
Não queria mais possuir para provar que existia.
Não queria mais depender de pessoas ou coisas para saber quem eu era.
Hoje, não troco minha solitude por nada.
Aprendi que estar sozinho não é necessariamente estar vazio.
Às vezes, é justamente quando estamos sozinhos que começamos a ouvir aquilo que passou anos sendo sufocado pelo barulho do mundo.
E desapegar talvez seja uma das melhores escolhas para começar a se libertar.
Desapegar das pessoas.
Das coisas.
Das expectativas.
Das ideias que colocaram dentro da nossa cabeça.
Da necessidade de ser aquilo que esperam que sejamos.
Talvez a liberdade não esteja em conquistar tudo aquilo que nos ensinaram a desejar.
Talvez esteja em descobrir que não precisamos de quase nada daquilo.
E foi assim, depois de tantas perdas, que comecei finalmente a encontrar a mim mesmo.
FIM