Ó mar -
não és mais precioso,
és vício.
Habitas em mim
como uma tempestade sem céu,
um movimento constante
que nunca se permite
cessar.
Minha mente não descansa,
ela se contorce em ondas invisíveis,
quebrando contra pensamentos
que nunca chegam à margem.
Vivo em alerta,
como se algo sempre estivesse prestes a ruir -
e talvez esteja:
sou eu.
Carrego um oceano dentro do crânio,
profundo demais para ser entendido,
escuro demais para ser atravessado.
E aqueles que vivem em terra firme
nunca compreenderão
o peso de se afogar sem água.
Deste-me a máscara -
não por bondade,
mas por necessidade.
E eu a usei
até que minha pele esquecesse
como era respirar sem ela.
Agora,
sou todas as versões que inventei
e nenhuma delas me pertence.
Sou reflexo distorcido
de algo que talvez nunca tenha sido real.
Diga-me, mar:
foi escolha ou condenação?
Há propósito
em viver aprisionada
em uma mente que nunca silencia,
ou sou apenas mais um erro
ecoando no vazio?
Não há paz aqui.
Não há descanso.
Apenas ondas -
eternas,
frias,
insaciáveis.
E eu,
presa no meio delas,
aprendendo a afundar
sem fazer barulho.