Ando.
Ando rodando minhas rodas.
Ando sendo auxiliada pelas pessoas à minha volta.
Ando pensando na falta.
Ando agradecendo as coisas boas que encontro nessas minhas voltas.
Mas não ando.
Não — estou estagnada.
Parada, como um enforcado no baralho.
Presa de ponta-cabeça na madeira, olhando o Louco com sua trouxa enquanto ele encara o horizonte.
Queria me mexer, mas não posso.
Por isso ando.
Sim, eu ando.
Pensando, sonhando e desejando.
Maquinando, registrando, aprendendo e ensinando.
Me preparando para quando meus pés finalmente tocarem o chão da realidade.
Ando.
Sim, eu ando — embora as pessoas julguem que estou parada.
Sim, estou estagnada.
O que não significa que não estou fazendo nada,
ou que não estou passando por nada.
Contradição engraçada, não acha?
A realidade é a verdadeira piada,
e o ser humano insiste em tratá-la como algo sagrado.
O medo deixa a vida parada,
mas o contexto faz a mente andar —
trabalhando em silêncio dentro da própria casca.
Certo, eu ando.
Ando com ajuda das pessoas à minha volta.
Ando agradecendo pela falta.
Ando aceitando as possibilidades da minha existência parada.
Sim, estou enforcada e de certa forma esse fato me deixa irritada.
Mas o que posso fazer?
Todos têm seu momento de pausa.
Alguns aprendem com ele.
Outros aprendem na marra.
(Autoral de Sids)