Hotel de vitral (2)
Ao fim do descanso, todos os agraciados pela graça se reuniram no grande salão do hotel com o intuito de explorar o novo ambiente.
Sussurros e murmúrios irromperam entre os escolhidos, que se aproximavam sem restrições.
Pelos corredores sinuosos, a grande estrutura, mundos paralelos e as dimensões de bolso, o novo plano expandiu-se além dos corredores em meio ao seu horizonte.
Espiando através de um dos espelhos de prata, o plano dos sonhos se revelou. E este, por sua vez, manchou esse tecido em uma explosão de ferrugem; seguido por uma miríade de cores, o preto se fez presente no ambiente. Os reflexos, meras imagens, saíam do espelho de prata e andavam pelo vácuo infinito da realidade, quase o puxando para dentro dele.
Mas, antes que algo pudesse ocorrer, Sekhem Ka Velkan o puxou para trás, caindo no instante seguinte de joelhos frente aos horrores psicodélicos que seus olhos presenciaram.
Um instinto primordial gravado em nossas almas chamado "medo".
Batendo em seu ombro, Sekhem Ka Velkan lhe deu um aviso: “Cuidado com o local aonde suas ações podem levá-lo, pois a curiosidade precede a ruína, meu caro amigo.”
Partindo para além dos corredores do hotel de vitral, o bárbaro pôde vislumbra este local enigmático.
Vislumbrou cidades flutuantes em céus alienígenas, criaturas de formas e cores impossíveis, civilizações que existiam em frequências que a mente humana mal podia conceber.
Desafiando a própria tapeçaria da realidade que se desdobrava diante de seus olhos, de repente, surgiu diante dele a visão de um terreno baldio entre escombros e ervas daninhas, indo muito além.
Acuado pela timidez, o garoto se esgueirava entre os vitrais, parando diante de uma grande parede de vidro.
Reunindo uma coragem que não sabia que possuía, ele ergueu o olhar, mas tudo o que seus olhos receberam foi uma explosão de variações de acontecimentos: vitrais rachados de mundos. Não apenas mundos se revelaram, mas dimensões inteiras se abriram, portais para o impensável.
Pisando nessas terras, o velho sentiu o gosto doce do paraíso. A cada bater do coração e respiração, não só seu corpo teve uma mudança drástica, mas também seu espírito, caminhando em contemplação da visão com o brilho de um milhão de estrelas convergindo a cinco cores que giravam profundamente, passando tal fenômeno num piscar de olhos, dançando ao redor do miasma roxo-escuro que circulava os corredores.
– Na fauna do além, atrás do espelho de vidro de obsidiana, há um reflexo distorcido do mundo. Revelou-se diante de vocês uma fauna mística. – Rompendo o espaço, uma cabeça esférica negra presa a um pescoço longo, esquelético e grosso, e um corpo branco e robusto terminaram de sair. Ligando suas mãos e antebraços, havia uma longa membrana translúcida. – Dormiram e descansaram, ótimo, pois hoje vão conhecer um plano de existência que vai além da compreensão! Alguma pergunta?
“Como pode…”
— Nenhuma! Ótimo! — Estalando seus dedos, uma grande massa de carne orgânica jorrou de cada extremidade do hotel, engolindo todo o local com a massa de carne de cor marfim.
Sua aproximação causou uma explosão de emoções diversas: alguns mantiveram a calma e o restante apenas aguardou.
A grande massa já havia engolido quase todo o seu corpo, com apenas sua cabeça ainda livre. Mesmo nesta situação, o bárbaro observava e analisava.
‘Esta coisa tem uma textura emborrachada, fibrosa, lembra um pouco carne, mas não é; então o que é?’
Não havia tempo para pensar, pois logo a massa de carne os engoliu totalmente. E adentrou nela uma tempestade de raios trazidos com ventos gélidos e poeira de areia em tonalidades de marrom, amarelo e rosa. Caindo diante deles, um abismo se abriu e uma luz dourada clareou a visão de todos, ofuscando o olhar para o abrir das cortinas de um paraíso.
E neste cenário, os jinns vieram logo atrás, seguindo rumo ao amanhecer que se erguia. Logo a terra à frente começou a balançar e um heptágono se formou no chão; dele irrompeu uma estrutura de mármore e ouro, com cada uma das sete pontas possuindo uma trombeta acoplada. No topo desta formação, havia uma sala aberta sustentada por pilastras, em cujo centro estava um sino de cobre entalhado com figuras demoníacas cercando todo o seu corpo.
“Aposto que estão curiosos sobre esta construção, mas preciso lhes dizer: nada sei sobre ela. A única coisa que posso lhes informar é que esta torre existe há tanto tempo quanto o firmamento do céu e da terra.”
Seguindo o jinn, eles chegaram à frente da torre. Ao tocar a trombeta, um som agudo e fino sobressaiu-se, porém estrondoso — como o estalo de espadas colidindo, que pouco a pouco tornou-se mais audível ao ponto de fazer sangrar os ouvidos.
Tragando em meio a um halo cósmico, lançando-os a seus respectivos destinos.