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Manhã fria

RobsonNovaes

Conteúdo da publicação

Acho que já falei disso em outro texto: é engraçado como a gente passa a infância inteira ansioso pra chegar aos 18 anos e, quando eles chegam, o tempo resolve correr. Aos dez, um ano parecia uma eternidade. Depois dos 18, a gente pisca e já é dezembro de novo.

E a memória também tem suas manias. Muitas vezes, é mais fácil lembrar de coisa antiga do que de coisa recente. A gente esquece o que almoçou na terça, mas lembra de uma manhã lá dos anos 90 com todos os detalhes.

Tem lembrança tão rica que eu consigo sentir na pele. E, como eu sou muito olfativo, às vezes vem até o cheiro.

Então hoje eu resolvi rebobinar a fita um pouquinho.

Friagem

Quando eu era criança, eu não gostava do frio. E tinha motivo: nessa época do ano eu sofria muito com bronquite, e minha mãe quase não me deixava brincar no quintal. Friagem, lá em casa, nunca era uma boa ideia. Na lógica de mãe, friagem é aquele frio que entra pelo pé descalço e só sai em forma de gripe.

O quintal ali, do outro lado da porta.

E eu do lado de dentro.

Abro um parêntese: é engraçado olhar o ontem com os olhos de hoje. Não faz tanto tempo assim, muita gente morria de gripe e de coisa que hoje a gente trata com muito mais facilidade. E criança com bronquite era preocupação de verdade. Fecho o parêntese.

Hoje eu entendo a minha mãe.

A TV só pra mim

Ficar dentro de casa, pra uma criança daquela época, queria dizer basicamente uma coisa: ver televisão. E lembra que as casas costumavam ter uma TV só? Uma, pra família inteira.

Se você cresceu numa casa assim, sabe exatamente do que eu tô falando.

A TV de tubo na sala, às vezes com um paninho de crochê em cima.

A imagem chuviscando e alguém levantando pra mexer na antena.

E a criança assistindo o que estivesse passando. Sem reclamar.

Era outro tipo de criação. Hoje é comum ver adulto fazendo as vontades dos pequenos. Naquele tempo, quem escolhia o canal nunca era a gente. Não sei dizer se era melhor ou pior. Sei que era diferente.

E quando a vez quase nunca é sua, a sua vez vale ouro.

Por isso, uma coisa eu lembro até com arrepio: como era bom acordar cedo e ter a TV só pra mim.

A casa quieta.

A manhã fria lá fora.

Eu deitado no sofá.

E a televisão inteirinha minha, pelo menos até alguém acordar.

Eu não gostava do frio. Mas manhã fria deitado no sofá, isso eu gostava. Vai entender.

Lembro que passava um programa chamado Telecurso 2000, antes de começarem os desenhos na Globo. Pra quem não sabe, eram aulas pela TV, feitas pra gente grande que queria terminar os estudos. E lá estava eu, criança, assistindo aula de manhã cedo sem ninguém mandar, só pra não perder o começo do desenho. Acho que fui o aluno mais pontual que o Telecurso já teve.

O sino de domingo

Tem outra lembrança que eu ainda consigo ouvir. Uma tia minha morava na rua de trás de uma igreja católica e, quando eu dormia na casa dela, acordava no domingo de manhã com o sino tocando, avisando que dali a pouco a missa ia começar. Nem precisava abrir o olho pra saber que dia era.

Até hoje, aquele som tem cheiro de domingo pra mim.

Curiosamente, alguns anos depois, eu fui morar justamente ali, numa casa no mesmo quintal da minha tia. E foi lá que eu passei quase toda a minha adolescência.

O sino avisava a hora da missa. A vida não avisou nada. Quando eu vi, o lugar onde eu era visita tinha virado casa.

Os primeiros amores.

As primeiras descobertas.

Mas essa parte da fita é comprida e merece um texto só pra ela.

Lembra lá do começo, quando eu falei que é mais fácil lembrar de coisa antiga do que de coisa recente? Talvez seja isso: lá atrás, quase tudo acontecia pela primeira vez. E primeira vez, a memória guarda com cheiro e tudo.

A gente passa a infância contando os anos pra fazer 18. Eu contei. Mas, pra ser sincero, se o tempo me deixasse voltar só um pouquinho, eu não pediria os 18. Pediria uma manhã fria, o sofá e a TV só pra mim.

Logo eu, que não gostava do frio.

E você, qual manhã pediria de volta?

Thoughts

  • Edileuza

    Oxe, o Telecurso eu lembro bem, aquela aula de matemática antes do desenho. Engraçado que criança aprendendo de tabela com aula feita pra adulto é bem a casa de uma TV só: ninguém escolhia nada, a gente pegava o que estivesse passando e saía sabendo coisa sem querer.

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  • thiaguinho

    Eu pediria uma de sábado, com o meu avô consertando o rádio na mesa da cozinha e me deixando segurar a lanterna. Nunca entendi nada do rádio, mas ele dizia que sem a lanterna não dava.

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