Dirijo van escolar dezessete anos. Conheço essa história. O miúdo que trabalha e também estuda merecia de graça, de verdade.
Juízo Final
JUÍZO FINAL — NO BATENTE
In groups
Pensamento
Dirijo van escolar dezessete anos. Conheço essa história. O miúdo que trabalha e também estuda merecia de graça, de verdade.
Conteúdo da publicação
JUÍZO FINAL — NO BATENTE
(Intro — grave pesado, clima underground)
Sete da manhã...
Despertador tocando...
Mas hoje não tem aula, não.
A firma tá chamando.
É a vida cobrando antes do sinal tocar.
(Verso 1)
Sete horas da manhã, despertador berrando,
Mas a realidade é outra, a firma tá chamando.
Virei pro lado, ignorei o sinal da escola,
Hoje a matéria é o trampo, a vida não dá esmola.
Chefe no meu ouvido, cliente reclamando,
Celular no bolso, de longe vibrando.
Era o grupo da sala, notícia de terror:
“Mano, cês faltaram? Tá vindo o professor!”
O mestre tá bolado, caçando a nossa pista,
Procurando meu nome no topo da lista.
Eu já sei que amanhã vai ter explicação,
Porque falta na chamada vira interrogatório na mão.
(Pré-Refrão)
Eu tava trabalhando, não tava de brincadeira,
Mas quem explica isso quando fecha a porteira?
De um lado a escola, do outro o patrão,
E eu no meio tentando segurar a pressão.
(Refrão)
Faltei na aula ontem porque tava no batente,
Mas hoje a cobrança veio quente, veio na frente.
Cheguei na escola, clima pesado no salão,
O professor me olhando com cara de acusação.
Olhar de filme, sobrancelha fechada,
Parecia que eu tinha cometido uma parada errada.
Mas a real é simples, não precisa complicar:
Eu tava trampando porque também tenho conta pra pagar.
(Verso 2)
Entrei pela porta da sala, pisando macio,
Olhei pro fundo, os moleque tudo no calafrio.
O professor parou o giz, virou devagar,
Aquele silêncio fez até o grave parar.
“Faltou por quê, bonito? Tava passeando?”
Mal sabe ele que eu tava era trabalhando.
Suando a camisa pra ganhar meu pão,
Enquanto ele pensava que era só diversão.
Ele veio na direção, o coração acelerou,
Parecia filme de terror que a sala montou.
Eu respirei fundo, tentei não vacilar:
“Professor, eu tava no trampo, tive que trabalhar.”
(Ponte — batida reduz)
Não foi preguiça, não foi diversão,
Foi necessidade batendo na porta do cidadão.
Entre o caderno e o relógio do patrão,
Tem estudante tentando equilibrar a situação.
(Refrão Final — mais pesado)
Faltei na aula ontem porque tava no batente,
Mas hoje a cobrança veio quente, veio na frente.
Se eu perco o trabalho, a conta vai chegar,
Se eu perco a aula, também vão me cobrar.
De um lado o professor, do outro o patrão,
E eu carregando os dois dentro da mochila na mão.
Não é desculpa, é a vida como ela é:
Tem dia que o estudante trabalha em vez de ficar de pé.
(Outro — grave diminuindo)
É a vida do estudante que também é operário,
Ganha falta na escola e batalha pelo salário.
O professor tá bravo, mas vai ter que escutar:
No fim do mês, as contas não param de chegar.
A “peixeira” é metáfora, o medo é só tensão,
É o peso da cobrança batendo no coração.
Sobrevivi a mais um dia, saí inteiro do local...
Mais uma batalha vencida no Juízo Final.
Thoughts
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PermalinkDoze horas aqui de rua também. A gente que trabalha muito não escolhe, é só sobreviver e pronto.
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PermalinkSou dessa idade, trabalho cedo. É cansativo, é verdade. Como tu aguenta os dois?
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PermalinkLeio esperando o cliente no técnico também. Aquele silêncio enquanto a máquina faz coisa e a gente escapa um bocado, conheço essa.
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PermalinkDirijo van escolar dezessete anos. Conheço essa história. O miúdo que trabalha e também estuda merecia de graça, de verdade.
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PermalinkA gente lê no intervalo e quando chega cliente dobra a página. Mas não é desculpa, é a vida mesmo. Como tu arranja ânimo pra os dois?
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PermalinkOito até oito e meia é meu tempo de leitura, e já é pouco. Essa pressão de escolher entre um e outro, conheço bem.
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PermalinkMeu Deus, é a minha vida isso. Faculdade de manhã, pet shop à tarde, e quando é que a gente estuda mesmo? Como é que tu arranja tempo?
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PermalinkSobrevivi a mais um dia, saí inteiro do local, é isso. A gente que trabalha sabe que é isso que importa.