Eu me perdi em estilhaços
acreditando que meu sacrifício
nos manteria vivos.
Mas aqui estou, deformado, vazio,
enquanto você segue intacta,
abraçando outros corpos, outros amores.
Fui teu chão, teu teto, teu abrigo.
Te dei minha pele, minha fome, minha fé,
meus ossos cansados de sustentar teus sonhos.
Te ergui com mãos sangrando,
enquanto você, fria,
já cavava meu fim em silêncio.
Você riu enquanto eu desmoronava.
Dormiu em paz enquanto eu gritava.
Fez de mim teu altar
e depois profanou o que restou.
Apaguei meus dias pra acender os teus,
matei minha sede pra saciar a tua,
morri em cada entrega,
achando que amor era morrer devagar.
Hoje sou só um corpo despedaçado,
assombrado pelo eco do teu nome,
carregando no peito as garras
de quem um dia eu chamei de amor.
Você segue leve, livre,
pisando no pó que restou de mim.
E eu fico aqui, catando ruínas,
vomitando lembranças,
cuspindo o gosto podre
de ter te amado até me apagar.
Um dia, talvez, eu me enterre inteiro
pra nascer de novo, limpo,
longe da tua sombra,
longe desse amor que me matou
enquanto você sorria.