1T-Inimigos até o fim
_Lara ia em todos os jogos do Brasil só pra ver o Lucas. Ele era da torcida organizada, sempre na mesma fileira, sempre gritando mais alto que todo mundo. Ela sabia o nome dos primos dele, decorou a placa do carro, até comprava pipoca extra caso ele quisesse. Mas pro Lucas, a Lara era só “a menina da camisa amarela que senta perto”.
No jogo da semifinal, quando o Brasil fez o primeiro gol, todo mundo se abraçou. Menos ele. Ele abraçou a namorada.__Lara já não bastava sofrer pelo Lucas. Tinha o Rafa pra piorar tudo. Ele era o cara que implicava com ela desde o colégio, que zuava o cabelo dela e dizia que ela nunca ia ter chance com o Lucas. O pior? O Rafa vivia colado na Bia. Levava água pra ela no intervalo, guardava lugar na arquibancada, ria de todas as piadas dela.
_Lara viu a mensagem, viu a chave, e só guardou o celular da Bia de volta na cadeira. Respirou fundo. O gol saiu, todo mundo gritou, e ela só pensou: “Não é problema meu”._
_Porque no fundo, ela não queria o Lucas se ele fosse trouxa. E não queria ganhar ele por pena ou por escândalo. Se fosse pra ele gostar dela um dia, tinha que ser porque viu ela, não porque a Bia era errada._
_Então ela levantou, pegou a bandeira do Brasil que tava no chão, e gritou o gol mais alto que todo mundo. Sozinha. Pela primeira vez no jogo, não olhou pro Lucas. E foi ele quem olhou pra ela._
_Lara leu de novo, com o coração na mão: “Para de se fazer de difícil na frente dele. A gente se vê depois do jogo, igual sempre ❤️ - D.”_
_D. De Diego. O capitão do time da escola. O cara que o Lucas chamava de irmão._
_A Bia não tava traindo o Lucas com o Rafa. Tava traindo com o melhor amigo dele. E o Rafa? Ele tava só bancando o corno manso, entregando bandeirinha e guardando lugar, esperando a vez dele._
_O Brasil fez o terceiro gol e a arquibancada veio abaixo. Lucas abraçou a Bia, Diego bateu nas costas dos dois, Rafa sorriu amarelo. Só a Lara ficou parada, com o celular da Bia na mão e a maior bomba do estádio._
_Ela devolveu o celular na cadeira da Bia, sem dizer nada. Mas quando cruzou o olhar com o Rafa, ele entendeu. E pela primeira vez, ele não zuou o cabelo dela. Só fez um sinal com a cabeça, tipo: “E agora?”_
_Depois do apito final, o Rafa encurralou a Lara na saída da arquibancada. Todo mundo descendo em festa, e ele com a cara fechada._
_“Eu vi que você viu”, ele soltou, direto. “A mensagem do Diego.”_
_Lara travou. Ia negar, mas pra quê?_
_“E eu não vou deixar de gostar da Bia”, Rafa continuou, passando a mão no cabelo. “Mas eu também não sou otário. Então, tá. A gente namora.”_
_Lara franziu a testa. “Você bateu a cabeça no gol?”_
_“Namoro falso”, ele explicou rápido. “A gente finge. Faz ciúme. Desestabiliza. Quando o Lucas e a Bia terminarem, cada um segue seu caminho. Fechado?”_
_Silêncio. A torcida gritando “é campeão” lá embaixo. Lara olhou pro Lucas longe, de mão dada com a Bia. Olhou pro Rafa, o inimigo dela desde a quinta série._
_E respondeu: “Beleza.”_
_Na segunda-feira, a escola inteira parou quando os dois chegaram juntos. De mãos dadas. O Lucas cuspiu o suco. A Bia derrubou os livros. O Diego travou a mandíbula._
_O namoro falso começou. O problema? Ninguém combinou o que fazer se começasse a ficar real._
_Terça-feira, recreio. A escola inteira em volta. Lucas veio igual um torcedor revoltado depois de pênalti perdido._
_“Tem que ser falso!”, ele cuspiu na cara dos dois. “Vocês se odeiam desde sempre. Isso aí é palhaçada!”_
_A Lara ia responder, mas o Rafa foi mais rápido. Segurou o rosto dela com as duas mãos, como se tivesse feito isso a vida inteira._
_“Não”, ele disse, baixo, só pra ela ouvir. E aí beijou._
_Não foi beijo de cena. Foi daqueles que cala o recreio inteiro. Quando acabou, ele continuou segurando o rosto dela, testa colada na dela, e olhou dentro dos olhos da Lara._
_“Né?”, ele sussurrou._
_Silêncio total. A Bia deixou o copo de água cair. O Diego quebrou a caneta na mão. E o Lucas? O Lucas só ficou ali, parado, sem saber se gritava ou se socava a parede._
_A Lara sentiu o coração fazendo batucada. Porque o pior de um namoro falso é quando a sua parte começa a ser verdadeira._
_Aula de matemática. Lucas sentado, rabiscando a mesa com força. Não falava com ninguém. Não zoava o Diego. Não olhava pra Bia._
_Ela cutucou ele com a caneta._
_“Lucas, por que você tá estranho?”, a Bia perguntou, com aquela voz doce que sempre funcionou._
_Ele parou de rabiscar. Olhou pra frente. Respirou fundo._
_“Estranho?”, ele repetiu, sem olhar pra ela. “Estranho é ver dois inimigos se beijando no meio da escola e todo mundo achar normal.”_
_A Bia congelou. Diego, duas fileiras atrás, parou de mexer no celular._
_“Você tá com ciúme da Lara?”, ela soltou, meio rindo, meio nervosa._
_Lucas finalmente virou pra ela. E pela primeira vez, não tinha brilho nenhum no olho dele._
_“Não, Bia. Eu tô com nojo. De mim.”_
_Do outro lado da sala, a Lara fingia prestar atenção na equação. Mas o Rafa viu. Viu o jeito que a mão dela tremia segurando a caneta. E por baixo da mesa, sem ninguém ver, ele encostou o joelho no dela._
_O silêncio depois da fala do Lucas ainda tava pesado. Aí o Rafa levantou da cadeira, devagar. Todo mundo olhou._
_“Você é o meu amigo”, ele disse em voz alta, olhando direto pro Lucas. “Era pra você ficar feliz com a minha conquista. Você é o meu amigo, porra.”_
_A sala inteira prendeu a respiração. A professora até parou de escrever no quadro._
_Rafa atravessou a sala e parou do lado da carteira da Lara. Segurou a mão dela, com força, na frente de todo mundo. E completou, mais baixo, só pra ela ouvir, mas todo mundo escutou:_
_“Eu não tô brigando. Tá bom?”_
_A Lara olhou pra mão dele segurando a dela. Olhou pro Lucas com cara de quem levou um soco. Olhou pra Bia branca que nem papel. Olhou pro Diego suando frio._
_E aí desabou. Começou a chorar. Não de tristeza. De alívio, de raiva, de confusão. Porque pela primeira vez, alguém tava escolhendo ela. Mesmo que fosse mentira. Mesmo que fosse o Rafa._
_O sinal bateu. Ninguém saiu. Só o barulho do choro da Lara e o Rafa ali, parado, segurando a mão dela, bancando o namorado que prometeu ser._
_E o Lucas? O Lucas só conseguiu murmurar: “Que conquista, Rafa?”_
_A sala inteira em choque. A Lara soluçando baixinho. E o Rafa ali, parado, segurando a mão dela como se fosse a coisa mais importante do mundo._
_Ele se abaixou devagar, chegou a boca perto do ouvido dela pra ninguém mais escutar. Só ela._
_“O que eu tô fazendo não é falso”, ele sussurrou, a voz falhando um pouco. “Porque eu não quero que você se machuque.”_
_A Lara prendeu o choro na hora. Levantou o rosto devagar, com os olhos vermelhos, e encarou ele. Procurando a mentira. Procurando a zoeira de sempre._
_Não achou._
_Achou só o Rafa. O menino que implicava com ela desde a quinta série. O inimigo dela. Com o olhar mais sincero que ela já viu na vida._
_Na porta da sala, o Lucas ouviu “não é falso”. A Bia ouviu “não quero que você se machuque”. O Diego só ouviu o próprio coração batendo desesperado._
_A professora finalmente quebrou o silêncio: “Pessoal, intervalo...”_
_Ninguém se mexeu. Porque ali, no meio da aula de matemática, o namoro falso virou o problema real de todo mundo._