Fui até o fim.
I — Que o caminho não precisa parecer certo
Pensamento
Fui até o fim.
Conteúdo da publicação
Eu passei uma parte enorme da minha vida acreditando que, em algum momento, as coisas simplesmente começariam a fazer sentido. Não exatamente de uma forma mágica, porque eu nunca fui muito bom em acreditar nesse tipo de coisa, mas de um jeito bem mais prático.
Eu achava que existia uma espécie de ordem natural para a vida e que, se eu fosse fazendo tudo certo, chegaria uma hora em que eu poderia respirar fundo e pensar: pronto, agora está tudo bem.
Primeiro você cresce, depois descobre o que quer, depois corre atrás, estuda, trabalha, conquista algumas coisas, encontra seu lugar no mundo e finalmente consegue sentir que chegou a algum lugar. Eu não sabia exatamente como seria esse lugar, mas imaginava que ele existia em algum ugar do mundo. Na minha cabeça, a vida era muito mais parecida com uma lista de tarefas do que com uma estrada.
Havia coisas que precisavam ser feitas e, enquanto eu tivesse alguma coisa para perseguir, eu conseguia continuar. O problema é que ninguém me avisou o que fazer quando a lista começasse a acabar.
Durante muito tempo, eu medi minha vida pelas coisas que ainda me faltavam, talvez isso seja comum, talvez quase todo mundo faça isso em algum nível, mas comigo virou uma espécie de maneira de existir. Eu olhava para o que tinha conseguido e imediatamente já começava a pensar na próxima coisa que eu deveria adquirir. Quando alguma coisa dava certo, a sensação boa durava menos do que imaginava e logo surgia outra cobrança na minha cabeça.
Não era nem sempre alguém da minha família me cobrando, muitas vezes era eu mesmo. Eu me acostumei a achar que precisava estar avançando para estar bem. Se eu estava estudando, eu estava fazendo alguma coisa; se eu estava trabalhando, eu estava fazendo alguma coisa; se eu estava tentando melhorar, estava fazendo alguma coisa. Até descansar precisava parecer merecido, como se eu não tivesse que apresentar uma forte justificativa para passar algumas horas sem produzir nada.
Só que existe um problema muito grande em viver assim: você passa tanto tempo olhando para a próxima etapa que começa a tratar a etapa atual como se ela não tivesse valor nenhum. Tudo vira preparação, você nunca está exatamente vivendo, está sempre se preparando para começar a viver depois.
Eu acho que foi assim que muitas das minhas expectativas nasceram. Eu criei uma versão futura de mim que parecia ser capaz de resolver quase tudo. Eu não sabia exatamente como ele seria, mas sabia que ele seria melhor do que meu eu atual, alguém mais seguro, mais preparado, mais tranquilo, mais satisfeito com a própria vida. E, principalmente, seria alguém que finalmente teria motivos suficientes para olhar para trás e entender que todo o esforço tinha valido a pena.
Eu coloquei muita fé nessa pessoa que ainda não existia.
Era como se eu estivesse sempre trabalhando para entregar minha vida nas mãos de uma versão futura de mim e dizendo: — Toma, a partir de agora, o que vier é problema seu, eu já fiz a minha parte que era chegar até você.
O curioso é que, conforme o tempo passava, essa pessoa continuava alguns passos à frente, eu alcançava uma coisa e ela já estava em outro lugar, eu terminava uma etapa e aparecia outra, eu resolvia uma preocupação e descobria outra.
Era uma perseguição meio ridícula, porque eu estava tentando alcançar alguém que, na verdade, era eu mesmo.
Talvez por isso eu tenha demorado tanto para perceber o peso que eu colocava em algumas conquistas, eu não queria apenas conquistar alguma coisa, eu queria que ela, de alguma forma, tivesse um grande significado para mim. Eu queria que uma aprovação significasse que eu era realmente capaz de fazer aquela coisa.
Queria que um objetivo concluído significasse que eu estava no caminho certo, queria que determinadas escolhas provassem que eu não tinha desperdiçado meu tempo. Só que uma conquista nunca responde exatamente às perguntas que colocamos sobre ela. Ela pode dizer que você conseguiu, mas não consegue revelar, sozinha, quem você realmente é naquele momento. Pode mostrar que você foi capaz de atravessar uma dificuldade encontrada, mas não pode garantir que você vai se sentir bem depois dela. E eu não entendia isso, ou talvez entendesse intelectualmente, mas não soubesse aplicar na minha própria vida, que é uma coisa bem diferente.
É fácil concordar com certas ideias quando estamos olhando para a vida dos outros, mas quando o assunto é a nossa própria vida, tudo fica bem mais complicado.
Uma das maiores coisas que eu consegui foi me formar em Medicina. Eu não quero passar por isso rápido porque seria injusto com tudo o que essa conquista representa, foi um feito e tanto. Para mim, foi um objetivo que exigiu muito de mim e que, durante boa parte do caminho, parecia distante o bastante para eu imaginar que demoraria uma eternidade para chegar. Eu passei anos caminhando em direção àquilo. Seis anos em que minha vida estava muito ligada a provas, estudos, responsabilidades em casa, decisões, preocupação com o futuro e aquela sensação de que precisava continuar porque ainda não tinha alcançado o objetivo.
E aí chegou, eu me formei.
E essa frase, por mais simples que pareça, carrega uma quantidade absurda de coisas dentro dela. Só que também carrega uma contradição que eu demorei muito para admitir: eu cheguei a um lugar que durante anos imaginei que me faria sentir realizado e, mesmo assim, alguma coisa dentro de mim continua faltando.
Não estou dizendo isso para desmerecer a Medicina, muito menos para diminuir a minha própria conquista, também não quero transformar a formação em um momento triste só porque, depois dela, eu continuei tendo os mesmo problemas que antes. A questão é justamente essa.
Eu achei que algumas respostas viriam junto com o diploma, achei, talvez sem perceber, que chegar até ali faria com que algumas das minhas dúvidas desaparecessem, Só que o diploma não tinha como fazer isso, ele não conhecia os meus medos e nem minhas inseguranças, não conhecia toda a bagagem que eu carreguei durante anos, era apenas uma conquista. Uma grande conquista, sim, mas ainda assim uma conquista.
E talvez essa tenha sido uma das descobertas mais difíceis da minha vida: perceber que alcançar alguma coisa que você deseja muito não garante que você vai se tornar a pessoa que imaginou ser depois dela.
Tem algo complicado quando você passa muito tempo dizendo que está lutando para chegar a algum lugar, as pessoas naturalmente imaginam que você sabe o que vai fazer quando chegar, e talvez eu também imaginasse isso. Durante muito tempo, eu pensava no futuro como se ele fosse uma resposta, só que o futuro chegou e continuou sendo futuro.
Eu ainda precisa decidir coisas, ainda tinha dúvidas, ainda sentia medo e ainda existiam dias em que eu simplesmente não sabia o que estava fazendo. A diferença é que agora eu já não podia colocar tudo na conta de "quando eu chegar lá". Eu já tinha chegado em um dos lugares que eu considerava importantes, e isso me obrigava a encarar uma pergunta que eu vinha adiando na minha vida sem perceber o: e agora?
Essa pergunta me assustou mais do que deveria, porque eu sabia lidar muito melhor com a ideia de lutar por alguma coisa do que com a ideia de não saber o que deveria ser a próxima coisa. Enquanto existia um objetivo na frente, eu conseguia juntar forças, organizar meus pensamentos e continuar, mas quando o objetivo deixava de existir, sobrava espaço, e eu não sabia lidar muito bem com espaço vazio. Talvez porque, quando estamos ocupados demais tentando chegar a algum lugar, não precisamos olhar com tanta atenção para nós mesmos.
A rotina ajuda a esconder algumas perguntas:
— Você tem o que fazer? Faça.
— Você tem uma prova? Estude.
— Você tem um trabalho? Entregue.
— Você tem uma obrigação? Cumpra.
Mas quando o barulho diminui, algumas coisas que estavam sendo empurradas para o canto começam a aparecer. Foi assim que comecei a entender que talvez eu não estivesse apenas cansado de tantas responsabilidades, talvez eu estivesse cansado de acreditar que precisava merecer o direito de estar bem.
Hoje, olhando para trás, eu percebo como fui injusto comigo mesmo em alguns momentos. Eu queria que cada etapa produzisse uma transformação definitiva na minha vida, eu queria que cada conquista resolvesse uma parte da minha vida, eu queria que depois de tanto esforço eu pudesse finalmente deixar de me cobrar tanto. E, quando isso não acontecia, eu interpretava a frustração como se houvesse alguma coisa errada comigo mesmo, como se eu tivesse recebido exatamente aquilo que queria e ainda assim não soubesse ser feliz, então o problema só poderia estar em mim.
É uma conclusão muito fácil de aceitar quando você está cansado, porque parece lógica, mas é cruel. Uma pessoa pode realizar algo importante e, ainda assim, estar sofrendo. Pode amar uma conquista e continuar tendo dias ruins. Poder ter orgulho de uma parte da própria história e, ao mesmo tempo, não saber muito bem o que fazer com a outra parte, as duas coisas podem existir juntas.
Talvez esse tenha sido o começo da minha compreensão de que a vida não é uma prova em que uma resposta certa apaga todas as anteriores.
Eu passei anos tentando chegar até aqui, e quando finalmente cheguei, não sabia mais para onde ir. Essa talvez seja a frase que melhor explica aquele período da minha vida. Não porque eu tivesse fracassado, mas justamente porque eu tinha conseguido uma coisa que por muito tempo me pareceu distante. Eu só não sabia que, depois de chegar, ainda existiria tanto caminho pela frente.
E talvez tenha sido a primeira vez em que percebi que o problema não era necessariamente encontrar o próximo grande objetivo, talvez eu precisasse aprender uma coisa muito mais simples e, por algum motivo, muito mais difícil: existir sem transformar cada dia em uma etapa de alguma missão.
Eu ainda não sabia como fazer isso, na verdade, eu ainda estou aprendendo. Mas foi ali que começou a minha mudança, não foi uma mudança linda apresentada em diversas literaturas, não foi rápido e muito menos organizado. Depois que eu tentei morrer, percebi que era apenas a percepção incômoda de que talvez eu tivesse passado tempo demais tentando chegar a algum lugar sem nunca parar para perguntar se era possível simplesmente estar onde estava naquele momento.
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