Rapaz, câmera filmando a menina desde a saída da instituição. Esse vídeo ainda vai parar na mão de alguém que quer derrubar o Hamilton, ou da própria senhora da mesa dezessete.
Filhos do Abandono
Pensamento
Rapaz, câmera filmando a menina desde a saída da instituição. Esse vídeo ainda vai parar na mão de alguém que quer derrubar o Hamilton, ou da própria senhora da mesa dezessete.
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Capítulo 13 — O Décimo Primeiro Dia
Mary caminhava ao lado de Hamilton, segurando sua mão.
Vestia roupas cuidadosamente escolhidas, sapatos novos e um vestido que lhe parecia bonito demais para uma ocasião comum. Seus cabelos estavam impecavelmente arrumados, e a maquiagem dava ao seu rosto uma aparência que não combinava com seus sete anos.
Havia sido preparada para parecer mais velha.
Mas, por trás daquela aparência, continuava sendo uma criança que desejava encontrar a mãe.
Na entrada da instituição, um carro preto aguardava.
Hamilton abriu a porta traseira.
— Entre, Mary.
A menina obedeceu.
O interior do veículo tinha bancos de couro e um cheiro agradável que ela não soube identificar. Nunca havia estado em um carro tão bonito.
— Para onde vamos, doutor?
— Para uma reunião importante.
— Minha mãe vai estar lá?
Hamilton ajeitou o paletó.
— Hoje você vai conhecer algumas pessoas.
Mary interpretou a resposta como uma possibilidade.
O carro começou a se mover.
Durante todo o percurso, câmeras registravam a viagem. Havia equipamentos discretamente instalados no veículo, acompanhando a menina desde sua saída da instituição.
Mary não percebeu.
Estava ocupada observando a paisagem pela janela.
Depois de aproximadamente quarenta minutos, o veículo parou diante de um edifício luxuoso.
A fachada era revestida de pedras claras. Grandes portas de vidro davam acesso a um saguão iluminado, onde funcionários vestidos formalmente recebiam os visitantes.
Mary ficou impressionada.
Nunca havia visto um lugar tão bonito.
Hamilton segurou sua mão e a conduziu até o elevador.
Subiram em silêncio.
Quando as portas se abriram, Mary encontrou um corredor elegante, com quadros nas paredes e um tapete espesso que abafava seus passos.
Havia apenas um apartamento naquele andar.
Uma mulher os recebeu.
Cumprimentou Hamilton com familiaridade e conduziu Mary até uma sala reservada.
— Espere aqui, querida.
Mary entrou.
E então percebeu que não estava sozinha.
Havia outras crianças.
Meninos e meninas, alguns aparentemente mais velhos, outros mais novos. Todos vestidos com roupas cuidadosamente escolhidas, penteados e preparados para aquela ocasião.
Nenhum deles parecia saber exatamente o que aconteceria.
Algumas crianças conversavam em voz baixa.
Outras permaneciam imóveis, olhando para a porta.
Mary sentou-se em uma poltrona.
Tentou sorrir para a menina ao lado.
— Oi. Meu nome é Mary.
A menina olhou para ela, mas não respondeu.
Mary ficou constrangida.
Apertou as mãos sobre o vestido e começou a observar os próprios sapatos.
O tempo passou lentamente.
De vez em quando, a porta se abria e uma criança era chamada.
Algumas voltavam.
Outras não.
Mary não sabia por quê.
Até que a mulher apareceu novamente.
— Mary?
A menina levantou a cabeça.
— Sou eu!
— Venha comigo.
Mary levantou-se imediatamente.
— O doutor Hamilton vai também?
— Ele está esperando por você.
A menina sorriu, aliviada.
Seguiu a mulher pelo corredor até uma grande porta de madeira.
Quando entraram, Hamilton estava à sua espera.
— Aqui está nossa pequena convidada — anunciou ele.
Mary aproximou-se.
A sala era enorme.
Havia sofás, poltronas, mesas de vidro e uma iluminação cuidadosamente distribuída pelo ambiente.
Homens e mulheres, em sua maioria idosos, ocupavam os assentos ao redor de um espaço vazio, no centro da sala.
Alguns conversavam.
Outros observavam Mary em silêncio.
O diretor segurou delicadamente seus ombros e a conduziu até o meio da sala.
Depois se afastou alguns passos.
A menina permaneceu parada.
Sentiu todos os olhares voltarem-se para ela.
Não eram olhares como os de Amanda, que a enxergava com curiosidade e carinho.
Tampouco se pareciam com os de sua mãe.
Aquelas pessoas a observavam com uma atenção estranha, fria e calculada.
Hamilton começou a falar.
Seu tom era educado, quase cerimonial.
Mary não compreendia por que precisava permanecer sozinha no centro da sala.
Estava sendo exibida como um animal em um leilão.
Mas, pela primeira vez desde que entrara no carro, sentiu vontade de ir embora.
Olhou para Hamilton.
Ele sorriu.
Mary tentou sorrir de volta.
Naquela sala, todos pareciam saber por que ela estava ali.
Todos, menos Mary.
Mary ouviu uma voz:
— Cento e cinquenta mil!
— Senhoras e senhores — disse Hamilton —, uma menina virgem, que ainda não “virou mocinha”, totalmente saudável, educada e sem familiares que possam encontrá-la. Quantas vezes aparece alguém que vocês podem moldar como gostariam?
— Duzentos e cinquenta mil!
— Obrigado, senhor, mas ainda gostaria de mencionar que seu tipo sanguíneo é O negativo e que nunca fraturou um osso. Ela é um verdadeiro coringa para qualquer empreendimento.
— Trezentos mil!
— Trezentos mil para a senhora à esquerda! Alguém mais?
— Trezentos e dez mil!
— Trezentos e dez mil para o cavalheiro da mesa seis.
— Trezentos e cinquenta mil! — repetiu a senhora.
— Trezentos e cinquenta mil para a senhora da mesa dezessete!
O silêncio tomou conta da sala. Não havia mais cochichos.
— Trezentos e cinquenta mil! Dou-lhe uma... Dou-lhe duas...
Hamilton fez uma pausa, aguardando algum lance maior, mas sabia que já havia garantido um lucro considerável.
— Dou-lhe três! Vendida para a senhora da mesa dezessete! Muito obrigado pela atenção, senhoras e senhores. Espero que tenham um excelente dia.
O salão voltou a ser tomado por conversas.
Algumas pessoas se levantaram. Outras continuaram sentadas, como se nada extraordinário tivesse acontecido.
Thoughts
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PermalinkRapaz, câmera filmando a menina desde a saída da instituição. Esse vídeo ainda vai parar na mão de alguém que quer derrubar o Hamilton, ou da própria senhora da mesa dezessete.
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PermalinkOs lances subindo na sala enquanto a Mary ainda espera ver a mãe são o que pesa nesse capítulo. Os dez dias de paraíso foram armados pra isso, e o que mais me incomodou foi o fim: metade da sala segue conversando como numa manhã qualquer.
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