Dias se passaram desde o Massacre de Havana, Brendha continuava presa, agora nos aposentos do mordomo.
Seus pulsos feridos começaram a cicatrizar quando ela simplesmente deixou de tentar fugir ou gritar por socorro.
Ela já não chorava, já não implorava. Passava os dias em silêncio, estudando a rotina dos Amarelos e os observando: o modo como eles agiam entre si, a personalidade de cada um e o mais importante: a fraqueza deles.
De repente uma discussão pôde ser ouvida de dentro dos aposentos do rei.
Auron discutia com Ragnar, um dos Amarelos que encarava o líder com uma expressão furiosa.
- Já saqueamos tudo. Os homens estão inquietos. Vai fazer uma semana que estamos nesse reino! Até quando vamos ficar aqui?! - esbravejou, o guerreiro.
Auron permaneceu sentado num trono ensanguentado que pertencia ao rei.
- Até eu decidir a hora de partir.
- Nós somos guerreiros nômades, não podemos ficar apodrecendo nesse reino!
Auron deu um sorriso de canto.
- Então talvez você tenha esquecido quem dá as ordens.
Ragnar deu um passo à frente, cerrando os punhos.
- E talvez você esteja esquecendo que um líder também deve ouvir seus homens.
O salão mergulhou em silêncio. Os demais guerreiros desviaram o olhar, esperando a reação de Auron.
Sem se levantar do trono, Auron apoiou a mão no cabo da espada.
- Se está insatisfeito, pode ir embora.
Ragnar permaneceu imóvel.
- Mas saiba de uma coisa... quem abandona os Amarelos deixa de ser um de nós. E nós sempre encontramos aqueles que nos traem.
Os olhos de Ragnar vacilaram por um instante. Sem responder, ele virou as costas e caminhou em direção ao dormitório dos guerreiros, ainda tomado pela frustração.
Dos aposentos do mordomo, Brendha sorriu discretamente.
Aquela discussão lhe mostrara algo precioso: até mesmo os Amarelos começavam a rachar por dentro.
De repente, Draka abriu a porta do quarto. Furioso aproximou-se de Brendha e a beijou à força.
- Quando aqueles miseráveis vão entender que você é só minha?
Brendha se sentiu enojada, mas tinha algo que chamou mais atenção: algo que poderia ser usado na sua tão sonhada vingança.
O ciúme doentio de Draka. Brendha percebeu que aquele defeito poderia se tornar uma arma. Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.
Antes de Draka sair da sala, Brendha o chamou e disse:
- Você tem razão, eles não conseguem entender isso. O Alain esteve aqui hoje e....
Aquele nome foi o bastante para aumentar a fúria de Draka que saiu do quarto rapidamente indo diretamente para o dormitório.
Alain estava trocando suas bandagens da luta anterior contra Draka, onde o mesmo cortou sua língua pela metade impossibilitando Alain de falar.
Draka apontou o seu machado de guerra para Alain e gritou:
- Que sirva de aviso para todos vocês!
Alain levantou os olhos, confuso. Tentou explicar alguma coisa, mas não conseguiu graças ao ferimento na língua. E então, foi decapitado, caindo morto aos pés dos companheiros.
Os guerreiros recuaram, alguns começaram a gargalhar, outros conversaram entre si.
Ouvindo os risos do salão do trono, Auron caminhou até o dormitório com sua espada.
- Por que estão rindo? Perdemos um dos nossos.
Auron se aproximou de Draka e tocou o seu ombro.
- Nunca mais desperdice um homem do meu grupo por causa do seu temperamento. Da próxima vez, eu mesmo acabarei com você.
Nos aposentos, Brendha sorriu pela primeira vez desde a queda de Havana. A morte de Alain não lhe trouxe culpa, apenas a certeza de que sua vingança estava se iniciando.
- Nove. Só restam nove.