Carregando…

Ferro & Sangue (Em progresso)

JOHNGFL
Pública 9 conversas 13 pensamentos 59 votos positivos 0 voto negativo 0 série

Ferro & Sangue

In groups

Pensamento

Pensamento

mesaDeBar

Conselho testando rei novo o tempo todo. Peixes podres mês após mês? Tá armado, tenho certeza.

Conselho testando rei novo o tempo todo. Peixes podres mês após mês? Tá armado, tenho certeza.

Conteúdo da publicação

Ferro & Sangue


Capítulo 1: Peixes Podres 

Ano 378 d.C (Depois da chegada) - Hora do Cervo (Manhã cedo) em Strongtown, capital do reino de Asseos. Sexto ano do reinado do rei Helger I Veyron.


Meu filho, nossa história começa bem antes de estarmos em Asseos. Há quinhentos e quarenta e nove anos atrás, no ano de 927 a.C (antes da chegada) os nossos patriarcas deixaram nosso antigo lar, Pathmos. Pois há quatorze anos, uma guerra sangrenta destruia nossa nação, a fome era grande, já não havia onde repousar a cabeça sem ouvir os som dos cascos dos cavalos, correndo pela terra e como trovão as espadas se encontrando. 

E esta guerra, ninguém sabe ao certo pelo o'que foi dado o seu início mas, nos forçou à abandonar nosso lar. Os patriarcas, tanto de nossa casa como das demais, se reuniram numa noite para traçar nosso futuro incerto.

As dez casas, representadas pelos seus patriarcas decidiram que zarparíamos pelo Mar de Gane, chamado assim pelo navegador Gane que morreu e nunca mais voltou. Os patriarcas se chamavam: Yarmon Seltinger, patriarca da Casa Seltinger, Gartew Tayron, Olys Majoris, Farlan Calistho, Sionel Talton, Menar Allys, Rasdon Bailey, Swell Lockhart, Edos Drawyrir e nosso patriarca, Haenal Veyron. 

No dia seguinte, partiram eles e mais trinta mil, fora os servos e vassalos, que não eram muitos. Navegaram cinquenta dias sem encontrar nenhuma terra, nos navios alguns bons homens e donzelas não suportam e morreram. Das trinta mil pessoas, vinte e duas mil sobreviveram; passaram por tempestades, ondas gigantescas e o medo da lenda do mar que dizia que se alguém navegasse nele certamente morreria como Gane. 

Mas teve um dia, que Haenal avistou de longe terra firme, era uma praia costeira, e os navios atracaram nela. Os primeiros a pisar naquela praia foram Haenal, Gartew e Olys. Nomearam então aquela praia de Praia dos Patriarcas, e o local em que chegaram nomearam Asseos que, em nossa língua antiga vinda de Pathmos significa “a terra dos fortes”.

Já havia povo aqui, então os patriarcas os dominaram pois não eram tão preparados como nós. Alguns vassalos se relacionam com esses povos e surgiram alguns bastardos e casas menores, com o passar do tempo a mistura deu a língua comum ao povo. Como já estávamos aqui, os patriarcas decidiram que era hora de ter um reinante sobre Asseos. 

Mas, esse rei precisava de um lugar para reinar, foi aí que em 21 d.C começou-se a construir nossa capital, Strongtown e seu castelo A Cidadela. Como a região de Strongtown já tinha certas casas, os trabalhadores comuns construíram os muros da cidade, que demorou cinco anos para ser feito pois eram milhares de trabalhadores. Como pagamento, as casas maiores (as nossas), pagavam cento e cinquenta dracks, nossa moeda de valor médio, cor de bronze, três espadas que representavam os três patriarcas à pisarem na praia pela primeira vez. Então, no ano 26 d.C começou a construção da Cidadela Carmesim que foi concluída em 32 d.C. 

A capital e o castelo já estavam prontos, milhares de pessoas das cidades menores migraram para Strongtown e povoaram e a encheram de vida, comércio e pequenos portos. No ano de 33 d.C, os mestres (sábios que vinham de Pathmos) liderados por Kassur de Gadett (cidade de Oldspire, sede da casa Majoris) escolheram o nosso primeiro rei, mas não o escolheram baseado na sorte, e antes de o escolherem, criaram o Conselho dos Nove, onde nove lordes representariam suas casas, exceto pelo rei, que seria a representação suprema de sua casa. E além de trazermos conosco nosso povo e família, trouxemos nossos deuses, O Homem, A Mulher, A Sábia, O Antigo, O Desconhecido e O Sábio que são conhecidos em toda Asseos como Os Seis.

Nomearam o trono, cujo rei se sentaria como O Trono Vermelho pois, segundo Kassur em suas palavras, disse: “Para que se sente um rei neste trono, o sangue será seu preço”. Ele falou isso baseado numa visão que A Sábia lhe concedeu. E consultaram Os Seis para que um rei fosse escolhido, foi então que o nome de Rowley Talton, filho de Sionel Talton, falecido em 14 d.C, soprou nos ouvidos de Kassur, após uma faísca cair sobre o estandarte da Casa Talton, bem característico filho, um fundo azul e uma águia ou passáro não sei ao certo, mas de cor preta. Então, Reinou Rowley I Talton por quarenta e quatro anos, morrendo aos quarenta e dois anos por uma doença em 77 d.C. Seu filho, com a Rainha Oyssena de Stonehold (sede da casa Lockhart) chamado Alder Talton, de dezoito anos, reinou por apenas três anos porque guerreou contra os Majoris que faziam incursões contra o jovem rei, pois não aceitavam que um garoto reinasse. Ele batalhou na guerra do Vale dos Quatro Lordes, à oeste de Strongtown onde é sede das casas Majoris, Drawyrir, Lockhart e Veyron, e morreu ali com o então Lorde Dason Majoris empalando sua lança no peito do jovem rei. Reinaram os Talton por apenas quarenta e seis anos. Um ano após a guerra do Vale dos Quatro Lordes, em 79 d.C, Dason Majoris foi coroado rei e reinou por trinta e cinco anos, morrendo aos cinquenta anos em 114 d.C, o filho dele chamado Teyron I Majoris, que subiu ao trono com vinte e oito anos e reinou por vinte e cinco anos. O seu reinado foi de relativa paz, havia certas guerras mas não muitas, em 126 d.C ele construiu o porto de Strongtown, conhecido na boca do povo comum como o Porto de Strongtown. Após isso, reinou ao lado de sua esposa, Cassa, filha do Lorde Aeros Seltinger - após isso, reinou seus últimos treze anos e morreu, aos cinquenta e três anos. O seu filho (e único), Dason II Majoris, ascendeu ao trono com trinta e dois anos em 139 d.C, era marido de Lady Nameris filha de Lorde Ormund Seltinger onde tiveram dois filhos, Ghard Majoris e Dayton Majoris, e reinou ele por dezesseis anos, sem grandes glórias e morreu aos quarenta e oito anos. Era conhecido por “O Beberrão”, pois sempre em eventos reais e torneios aparecia dominado pelo vinho. Em 139 d.C, Ghard ascendeu ao trono aos vinte e nove anos em 155 d.C, reinou por vinte e seis anos e em seu último ano de reinado, morreu em batalha contra os Lockhart no Vale dos Espinhos (local entre a Casa Lockhart e Drawyrir).

O então lorde Ulter Lockhart que estava atacando postos reais à bel prazer, pois queria ser rei. Sendo o maior exército de sua época, venceu o rei e se sentou no trono mas durou apenas cinco anos pois seu reinado foi conturbado, o povo da capital passava fome e os Seltinger, aliado dos Majoris desde o rei Teyron procuravam destronar ele. 

Aproveitando do seu reinado instável, os Seltinger instigaram o povo contra o rei e em 160 d.C os portões de Strongtown se abriram para eles e liderados por Lorde Anges Seltinger tomaram o trono. Ulter foi decapitado em praça pública e ficou conhecido como “O Rei de Meia Década”, pois reinou por apenas cinco anos, não chegando nem à dez anos no trono. Anges I reinou por  quarenta e seis anos, ao lado de sua rainha Alis de Porto das Águias, sede da Casa Talton. Teve três filhos, o mais velho, Belon nascido em 164 d.C, o do meio Jayron nascido em 168 d.C e o mais novo Branley nascido em 172 d.C. Belon era conhecido por sua beleza e postura impecável de cavaleiro em torneios, Jayron por sua inteligência em administrar as despesas da coroa e Branley por sua administração da capital. Anges morreu aos cinquenta e quatro anos em 206 d.C, foi o rei mais longínquo de sua época, reinando por quarenta e seis anos. Belon I ascendeu ao trono com quarenta e dois anos e reinou ao lado de sua rainha, Enora também de Porto de Águias, tiveram dois filhos, o príncipe Anerom nascido em 207 d.C e a princesa Daysa, nascida em 214 d.C. Reinou por vinte e cinco anos e morreu aos sessenta e sete anos, o rei mais longínquo em idade, Anerom ascendeu ao trono em 231 d.C e se casou com Elaya Talton e teve dois filhos, o príncipe Belon nascido em 234 d.C, a princesa Aenera nascida em 238 d.C e o príncipe Meyron nascido em 244 d.C. Reinou por quarenta e dois anos, e morreu aos sessenta e seis anos, o segundo rei mais longínquo de seu tempo, e quando morreu (isso em 273 d.C) o então mestre Aleron foi visitado pela A Sábia, e registrou sua visão nos livros dos Mestres. 

A Sábia, mostrou que o reinado de Anerom seria o último pacífico da Casa Seltinger, pois após ele, o príncipe e futuro rei, Belon cometeria o pior dos pecados e Os Seis o puniram. Após ser coroado rei, Belon II desejou sua irmã para si e a prática de incesto é reprímivel diante dos deuses e dos homens, ela recusou casar-se com seu irmão e então ele a abusou e matou para que ninguém soubesse de seus atos. Casou-se com Lady Maya de Porto de Águias, quem dera ela não tivesse casado com ele! 

No segundo ano de seu reinado, ele foi amaldiçoado com sonhos vermelhos, onde tinha presságios do futuro e aquilo começou pequeno, o rei, pertubado pelos sonhos começou a ficar louco e em cada visão que tinha de uma traição ele ordenava que matassem a pessoa que aparecia em suas visões. Teve dois filhos, príncipe Anges, nascido em 284 d.C (onze anos após o início do reinado de Belon II) e em 290 d.C o príncipe Anerom, quem dera os deuses terem poupado estes dois!

Nesses acontecimentos, já haviam se passado dezessete anos, no ano de 292 d.C o rei teve um sonho que os Talton se uniam à uma grande espada que partia a Cidadela Carmesim, louco como já estava mandou que matassem a rainha. Era amada pelo povo, e ele não a deu uma morte rápida, mandou que a partissem no meio pois foi assim que viu a espada partindo a Cidadela Carmesim. 

A notícia se espalhou e chegou até o Lorde Tristan Talton que jurou morte ao rei, com a morte da mãe os príncipes mal comiam ou saiam de seus aposentos, em uma ação desesperada pelo sofrimento o príncipe se jogou da janela de seus aposentos até o jardim, seu sangue espirrou nas flores que sua mãe gostava, que eram petúnias. O outro príncipe, que era um bebê, foi jogado pelo próprio pai na fornalha pois seu rosto lembrava de Maya. 

No mesmo ano, ele teve mais um sonho onde via seus soldados auxiliando aquela espada à partir a Cidadela pela metade, e mandou matar vários soldados. O então chefe da guarda real, Sor Aldor Veyron, irmão do Lorde de Red River (sede de nossa casa), Jahel Veyron, meu avô e seu bisavô, ficou sabendo do irmão decapitado a mando de Belon II por “traição”. A notícia chegou até Jahel, que começou um plano para invadir a capital e matar Belon, os soldados reais já estavam fartos de tantos irmãos morrerem por uma loucura da cabeça do rei e como ouviram que os Talton (que já era naquela época, a maior marinha de Asseos) e o Lorde Jahel Veyron estavam se organizando, decidiram se juntar à causa. 

No último ano do reinado de Belon II, em 294 d.C, o exército de Jahel marchava rumo à capital e a marinha dos Talton cercavam a capital, o caos se instaurou nas ruas e vielas com o povo temendo um ataque à eles. Os soldados, avistaram Lorde Jahel, e seus homens vindo e abriram os portões sem hesitar, Jahel vinha com seu exército pois imaginava que os soldados protegeriam seu rei mas foi surpreendido ao ver que não. Adentrou os portões da Cidadela Carmesim, e logo atrás veio o Lorde Tristan, e marcharam castelo à dentro, procuraram por Belon II (que não estava dentro do castelo), os soldados o avistaram fugindo pelo lado de fora e o pegaram e amarraram com cordas de amarrar porco as suas mãos. 

Os dois lordes foram avisados e saíram para onde estava Belon, Tristan olhou com nojo ao ver Belon e disse: “Nem digno é de ter as mãos atadas com correntes.” e esbofeteou ele, mas foi parado por pedido de Jahel. Eles levaram Belon para praça pública e chamaram todo o povo, Jahel desembainhou sua espada, conhecida hoje como A Destronadora de Reis, e disse para o povo: “Este rei louco, trouxe desgraça à sua casa e ao reino. Hoje ele morrerá”, olhou uma última vez para Belon vivo e o decapitou, a cabeça rolou e a coroa se desprendeu da cabeça.

Jahel, inclinou-se ao chão e pegou-a, e olhando para ela disse em voz alta: “Digam a todas as casas e lordes, hoje a coroa terá um leão” e colocou a coroa em sua cabeça. Lorde Tristan, que não desejava o trono, se ajoelhou e ergueu sua espada, e reconheceu Jahel como novo rei de Asseos. O povo e os soldados se ajoelharam também, reconhecendo Jahel como rei e a notícia se espalhou por todo o reino, os Seltinger, depostos do trono reconheceram-no também como rei pois viam Belon como uma desgraça. Então, em 294 d.C após 134 anos de governança dos Seltinger, nós chegamos ao trono vermelho. Jahel se casou com Lady Avlynn de uma casa menor, foi incomum na época mas era sua paixão, e a casa era Gaskell. Ele foi o primeiro rei mais longínquo de nossa história, reinou por cinquenta anos e com Avlynn teve dois filhos, Reagen meu pai e seu avô que nasceu em 307 d.C no mês do nascimento de Jahel. Os mestres disseram que era um bom presságio dos deuses, um príncipe nascer no dia do seu nascimento de sua graça, que completava trinta e cinco anos. Em 312 d.C nasceu meu tio, príncipe Anerom, meu avô colocou este nome em memória do rei Anerom Seltinger que na visão dele foi um dos melhores que já havia se sentado no trono vermelho. Foi um reino de paz e prosperidade, Jahel recebeu à alcunha de “O Grande” porque foi o maior rei, em poder e caráter que havia reinado em Asseos, construiu túmulos de honra para grandes reis do passado, construiu também mais portos e reforçou os já existentes, a coroa tinha em seus cofres mais de um milhão de coroas, nossa moeda de maior valor, feita em ouro e com o nosso leão nela. 

Ele morreu de forma pacífica, em seu quarto real rodeado pelos dois filhos e por sua esposa. Em idade, foi o rei mais velho a morrer, morreu Jahel I com setenta e quatro anos em 346 d.C e seu corpo foi sepultado no túmulo dos reis, ou como é conhecido pelo povo comum, “O Vale dos Reis”. 

Meu pai foi coroado aos 40 anos, e era casado com Amerya Tayron, minha mãe, segunda filha do então Lorde Habor Tayron. Eu, que já era nascido desde 346 d.C, era um bebê ainda, meu tio serviu como conselheiro de meu pai, foi o melhor conselheiro que seu avô poderia ter filho, evitou conflitos, uniu o reino e manteve a coroa forte. A Casa Tayron, que naquela época já era o maior e poderoso exército de reino estava unida conosco, a Casa Allys, a mais rica por conta de suas Olivas que eram exportadas em safra boa já há 4 anos, nos apoiava, e foi neste tempo que fui prometido à sua mãe, lady Saena Allys  de Vale das Oliveiras, filha do Lorde Stoll Allys.

Meu pai teve mais três filhos, o príncipe Jahel que nasceu em 349 d.C em homenagem ao meu avô, Mysaia a princesa nascida em 353 d.C e nosso irmão mais novo, Naeyrom nascido em 359 d.C, ele foi o único de nós a nascer com a cor do olho diferente, um era azul como de sua avó e o outro âmbar, como o meu e o seu. Bem, foi um reino de fartura e paz, assim como de meu avô e tudo estava em paz, me casei com sua mãe em 365 d.C sob os olhos dos Seis e dos homens. Não pretendíamos ter um filho cedo, e por isso você demorou à nascer, meus irmãos também se casaram e o reinado de meu pai embora não tão grande ou pequeno, durou vinte e nove anos, com ele morrendo em 371 d.C aos setenta e quatro anos, morreu da melhor forma ao meu ver, junto de minha mãe e dormindo. Então, nesse mesmo ano, fomos agraciados ao descobrir que sua mãe estava grávida de você, Reagen. 

Quando nasceu, em 370 d.C sob uma lua cheia, vi que era forte e robusto e um verdadeiro Veyron, os cabelos negros como carvão e os olhos cor de mel e a pele clara, única coisa herdada de sua mãe, que depois de todo parto e eu preocupado, teve a audácia de brincar ao dizer “que te gerou por nove meses para não sair se quer uma mais uma característica Allys”. 

Que bom que os deuses não o permitiram, já que nossos genes são os mais fortes, e atrás vem os Calistho mas, isso é história para outro dia. E quando vi você daquele jeito, decidi nomear Reagen em homenagem ao seu avô que era dessa forma, e bem, agora neste ano sua mãe está grávida novamente e se os deuses forem bons, será um irmão. 

O Pequeno príncipe olhou curioso pro pai, e inocentemente perguntou: 


  • Ele poderá ouvir essas histórias comigo, papai?”


 O rei sorriu, um sorriso doce e amoroso de um pai para com seu filho, e disse: 

  • Claro que poderá, vocês serão melhores amigos.


A porta de madeira, rangendo, abriu-se com o guarda da porta anunciando a entrada da rainha 

  • A rainha, meu rei - anunciou ele, inclinando a cabeça enquanto ela entrava no quarto. 


Sua graça usava uma bela peça de roupa, um manto vermelho grande com bordados de folhas de oliva, um longo vestido verde oliva também com bordados das folhas, os cabelos ondulados e castanhos brilhavam na luz que entrava pela janela, juntamente da tiara que cotidianamente usava, também em folhas de oliva. A pele clara e os olhos verdes contrastavam com aquele conjunto, a barriga fazendo volume no vestido, entrou graciosamente com seu sorriso que encantava o rei, desde sua juventude quando a viu pela primeira vez. 

As mãos acariciando a barriga em forma de amor, logo seus olhos se voltaram para o príncipe que estava sentado na cama ao lado do pai, o sorriso já presente em seu rosto se abriu mais ainda, os olhos tornaram-se mais brilhantes que as estrelas noturnas ou mesmo o sol, chegou perto do filho e passou a mão pelos seus cabelos negros e longos, e beijou a testa e acariciou a pele branca e macia. Disse para ele: 


  • “Bom dia, meu pequeno príncipe. Ouvindo as histórias de seu pai?” 

   

  • ao que respondeu: “Sim mamãe, papai estava contando sobre os 

patriarcas e todos os reis até o nosso primeiro rei, Jahel!” -


  •  “Que bom!” exclamou a rainha “espero que ele tenha contado um pouco da história de minha casa e de nossa própria” - 


  • “Devo ter contado a ele sobre eu ter sido prometido a você, Saena. Não poderia esquecer tal fato.” - disse o rei rindo envergonhado -


  •  “Bem, está na hora da primeira refeição meu marido e filho. Fora que acho petulante deixar a rainha-mãe esperando-nos.” - concluiu ela.

 

Caminharam eles pelos corredores da Cidadela Carmesim, Reagen segurava a mão da mãe que andava segurando as mãos de Helger e eram acompanhados pelos soldados da guarda real até chegarem ao salão para a primeira refeição. Quando chegaram, os soldados abriram as portas e a rainha-mãe, Amerya Tayron exclamou:


  • Pelos Seis! Pensei que teria de esperá-los até a hora do falcão (que era o meio-dia). Estes bolos e guloseimas me acenderam o apetite 


  •  Vovó! gritou o jovem príncipe que corria para os braços da avó, que o abraçou com ternura e amor, beijando as bochechas e passando a mão pelos cabelos 


- Perdoe-me a demora minha mãe, estava contando histórias ao pequeno. disse Helger, enquanto caminhava para cumprimentá-la. - 

       - Pelos deuses, era uma história tão longa assim meu filho? questionou ela - 


  • Acho que, se não fosse esta rainha com um filho à caminho para paralisá-lo, estaria até agora contando histórias.” - disse Saena com seu sorriso estampado no rosto.


 A rainha-mãe a ajudou a se sentar na cadeira, e começaram a se servir, Reagen comia pães com queijo de cabra e bolos com mel e leite, Helger servia a Saena com frutas e bolos com mel, que ela gostava, a rainha-mãe se servia com maçãs, pão com carne de carneiro e vinho, deu uma golada no vinho e disse: 


  • Meu filho, não quero ser intransigente mas, ouvi rumores dos criados cochichando que os homens do porto reclamam do cheiro podre dos peixes no porto.. 


  • Novamente isto!? exclamou o rei, franzindo o cenho - pensei que este fardo havia sido resolvido, agradeço por me informar de antemão minha mãe. Terminarei aqui e me reunirei com o conselho. Chamem meu irmão Jahel, meu conselheiro. Quero encerrar esta maldição que me persegue.


No mesmo instante, um oficial percebeu a ordem (mesmo que não fosse a ele) e foi chamar Jahel.

O rei terminou sua refeição, despediu-se da mãe com um beijo na testa, beijou a rainha e acariciou a cabeça do filho, e partiu para o conselho. Os guardas o acompanharam até o conselho, no caminho até lá, Jahel apareceu e se pôs ao lado do irmão já o indagando: 

  • O que aconteceu, irmão? É novamente aquele problema?


  • Sim, respondeu. 


  • Que O Homem tenha piedade, pensei que tivéssemos resolvido essa questão, respondia ele olhando ao redor .


  • Eu também pensei, irmão. A mãe me informou de tal fato, que já está entre os criados, o que me faz pensar que também está entre os plebeus. 


Então os guardas na porta do conselho a abriram e o arauto anunciou a entrada de sua graça 


- “O Rei Helger, O Primeiro, Da Casa Veyron, Rei de Asseos, Senhor do Trono Vermelho e escolhido pelos Seis!”. 


Os dez lordes representantes inclinaram a cabeça em reverência ao rei, ele caminhou até sua cadeira no conselho que ficava na extremidade superior da grande mesa, sentou-se e disse: 


  • É um fardo, meus lordes conselheiros, que por mais um mês, persista esta maldição de peixes podres nos portos de Strongtown. Pensei que havíamos solucionado essa questão, mas pelo visto, ela ainda me persegue.


O lorde Corren Blackmere escolhido pelo Lorde Ayson Talton, casa vassala dos Talton foi o primeiro a tomar a palavra


  • Majestade, os homens do porto relatam que parte da última remessa veio das vilas do sul. Pode ser descuido no armazenamento… ou atraso nas rotas comerciais. - 

  • Entretanto… é curioso que isso ocorra pelo terceiro mês consecutivo. Já substituímos os mestres do porto. Já reforçamos a inspeção. Ainda assim, o problema retorna.

  • Perdoe-me a franqueza, Majestade… mas quando um problema persiste mesmo após correções sucessivas… talvez ele não seja acidental.


O Lorde Eldric Reedgate, vassalo do Lorde Eros Seltinger, cortou:


  • Está insinuando o quê, Lorde Blackmere?


Ao que respondeu: 

  • Insinuo que talvez alguém deseje que o cheiro da podridão não venha dos peixes… mas da imagem do rei.


O Lorde Gavren Oliveford, vassalo dos Allys disse: 


  • É perigosa tal acusação levantada por Blackmere, majestade. Porém, não é infundada - Dizia ele olhando para baixo enquanto mexia em seu anel dourado.

  • Devemos olhar pelo exemplo de Ulter Lockhart, o rei de meia década. No fim, seu reinado ruiu pela escassez de alimento, o que gerou revolta entre os plebeus… e, como bem sabemos, casas que se aproveitaram da fraqueza para ascender ao trono.



  • Fale claramente, se deseja acusar os Seltinger. Afirmou Reedgate 


  • Chega! - o rei bateu na mesa

  • Não permitirei que façam deste conselho uma ressurreição de guerras antigas. Lorde Thorne, tem algo a dizer? 


Lorde Thorne Ironvale, representante da casa Tayron tomou a palavra: 


  • Se me permite, majestade. Devemos pesar cuidadosamente as palavras ditas nesta mesa. Mas de fato, um problema que perdura além do razoável naturalmente acende dúvidas. Acredito que devemos investigar este fato, e consultar os mestres pesqueiros e os que cuidam da armazenagem dos peixes em nossos portos. 


  • Alguma sugestão de como o fazer? - indagou o rei. 


  • Nomeie alguém para cuidar da investigação, meu rei. O seu irmão e conselheiro, Jahel, tem aptidão para tal incumbência. Este problema não só afeta o seus súditos majestade, como seu reinado. 


  • O rei tamborilou os dedos na mesa por alguns instantes.. - Irmão, pode cuidar disso? Disponibilizarei duzentas coroas para custear a investigação.- 


  • Como desejar meu rei, escolherei ainda hoje os homens. - e retirou-se para iniciar a incumbência.



  • Passemos aos demais assuntos. Quem fala pelo oeste? - perguntou o rei. 


Lorde Dren Stonewell, representante da Casa Lockhart que ficava à Oeste do reino nas terras montanhosas, tomou a palavra: 


  • Meu rei, as terras à oeste enfrentam certos problemas com os assaltantes. Nas ruas que levam à Stonehold, alguns lordes vassalos ou plebeus comuns sofrem pelas mãos deles.O lorde soberano Caswell Lockhart enviou um corvo a Vossa Graça solicitando auxílio.


  • Nenhuma carta foi entregue à mim, lorde Dren - olhou o rei para o mestre dos corvos - peço perdão, diga a Caswell que a coroa cuidará desses assaltantes. 


  • Majestade! Perdoe-me a intromissão, mas Pedra Rachada tem sofrido com bloqueios de saqueadores nas estradas. O alimento mal chega a cidade. - informou o Lorde Harlan Flintbrook 


  • Não entendendo, a incumbência de cuidar dos saqueadores deveria ser de seu lorde soberano, Reedgate. Ou não são os Seltinger que controlam o comércio?


  • Peço perdão, Vossa Graça, milorde estava ocupado com as logísticas do—”

  • O rei o cortou antes que terminasse.

  • “Não me interessa se ele estava ocupado ou não, Reedgate. Estas denúncias não afetam apenas os plebeus, mas a mim.- falou ele com os olhos fixos no lorde e uma calma desconfortante 


  • Eu…o informarei para tomar as devidas providências, majestade - disse ele olhando para baixo e quase pálido. 


O silêncio pairou pesado sobre a mesa. Reedgate evitava erguer os olhos, Blackmere mantinha as mãos unidas, imóvel demais para alguém que nada temesse. O mestre dos corvos apertava os pergaminhos como se os papéis carregassem a própria culpa. Helger observou a todos, principalmente aqueles que se calaram, antes de falar: 

  • Encerramos por agora


Levantou-se. Os demais o imitaram, quase em uníssono.

Helger deixou o salão acompanhado de dois guardas. Blackmere acompanhou o rei com o olhar até que ele desaparecesse pelo corredor.

Reedgate, porém, voltou-se para a janela, encarando a cidade abaixo.

Thorne notou. E não desviou os olhos dele até deixar o salão. Jahel atravessava os corredores de pedra da Crimson Citadel sem alterar o ritmo dos passos. Guardas inclinavam levemente a cabeça à sua passagem. Ele não retribuía — estava pensando.

Ao dobrar a ala norte, encontrou quem procurava.

— Salton. Rivers.

Lyonel Salton foi o primeiro a se endireitar. Ulf Rivers apenas descruzou os braços da parede, atento.

  • Caminhem comigo.

  • Tenho uma missão para vocês.

  • Lyonel foi o primeiro a se aprumar. Rivers manteve o olhar firme. 

  • É oficial… ou discreta, milorde?

  • Discreta. 

— Arrisco dizer que é sobre os peixes — comentou Salton, com um meio sorriso. 

  • Se fosse apenas pelos peixes, eu não estaria aqui. Quero saber quem se beneficia da fome na capital. 

Rivers trocou um olhar rápido com Salton.

— O que devemos fazer, milorde?

  • Salton, vá ao porto. Não como guarda real. Quero nomes de estivadores, horários de chegada, quem inspecionou as cargas. 

  • Rivers, procure saber quem controla os armazéns próximos ao mercado baixo. Discretamente. - Ele fez uma breve pausa, avaliando os dois.

  • — Isso levará tempo. A partir de hoje, deixam a guarda.
    Ao anoitecer, permanecerão fora dos muros. Pela manhã, entram como homens comuns em busca de trabalho.

  • Seu tom endureceu:
    — Sejam como eles.

Os dois se retiraram.

Jahel, porém, ainda tinha uma última peça a mover antes que o jogo começasse. O dia então prosseguiu, o rei havia se retirado para comer um bocado de pão e vinho e ir ver seu filho que estava com as criadas, no pátio da cidadela. 

O pequeno estava brincando com um cavalo de madeira e uma espada, ao ver o rei, uma das criadas inclinou a cabeça.


  • Majestade.. - 


O pequeno príncipe olhou para trás, viu que era seu pai e voltou a brincar. O rei o observou por um instante. Era estranho ver o menino brincar de guerra antes mesmo de aprender a segurar uma espada de verdade.


  • Não vai falar com seu pai? Quanta ousadia - agachou-se ao lado do filho

  • Está brincando de que? 

  • De guerra - respondeu.

  • Ah sim..e que guerra seria esta? Alguma das histórias que te contei? 

  • Não…eu só imaginei uma - O cavalo de madeira batia contra a espada, produzindo um “toc” seco no pátio de pedra.

  • Espero que seja uma que possamos vencer no futuro. 

  • Mas guerras são ruins, não são? Muitas pessoas têm que morrer para ganhar..


Helger absorveu a pergunta do filho, respirou fundo enquanto olhava pro horizonte. Pegou uma pedra no chão e a virou entre os dedos, como se procurasse ali uma resposta simples para uma pergunta que nunca fora simples.


  • Sim, elas são ruins. - olhou ele para o filho enquanto o vento da manhã balançava o cabelo 

Os olhos do pequeno príncipe se voltaram para o pai, o olhar inocente de quem nunca conhecera os motivos de guerras acontecerem, apenas de ouvir as histórias que seu pai lhe contava. 


  • E porque elas acontecem? 


Helger olhou ao redor, vendo os guardas reais posicionados entre os corredores do pátio. Não eram eles que lhe lembravam das guerras antigas — mas aquela breve distração lhe dava tempo para responder uma pergunta tão simples... e tão profunda.

Ele voltou os olhos para o filho.

  •  Porque homens maus querem o que não é deles.

Helger passou a mão pelos cabelos do menino.

O pequeno príncipe pensou por um instante antes de perguntar:

  •  Você não é um homem mal… não é, papai?

Helger não respondeu de imediato.

Os olhos do rei se perderam por um instante nas muralhas da cidadela, como se procurassem ali uma resposta que não fosse pesada demais para um menino ouvir.

Ele abriu a boca para falar —

  •  Majestade.

A voz veio do outro lado do pátio.

Helger virou a cabeça.

O príncipe Naeyrom atravessava o arco de pedra que levava ao pátio interno. O cabelo ainda estava úmido de suor e a túnica de treino marcada de poeira. Uma espada de madeira pendia de sua mão, e dois guardas vinham logo atrás.

— Meu irmão já está ensinando o herdeiro a conquistar reinos? — disse ele, com um meio sorriso.

  • Não, irmão. Apenas um momento de pai e filho. - respondeu.

  •  Um momento raro, então. O conselho costuma roubar sua paciência antes mesmo do meio-dia.- Naeyrom vinha se aproximando, limpando o suor do rosto com o antebraço. 

Ele olhou para o sobrinho, o analisou antes de falar

  • E você? - disse Naeyrom olhando para o garoto - já decidiu se será um guerreiro ou diplomata? 

  • Deixe-o brincar. O peso virá no momento certo - exortou o rei 

Ele agachou e beijou a testa do filho.  Depois olhou para a criada que o acompanhava e ordenou: 

  • Leve-o, está na hora dele aprender com o mestre Jenahadis. 

  • O da biblioteca? - perguntou Naeyrom arqueando a sobrancelha, lançando um olhar irônico. 

Helger olhou para o irmão e não fez questão de responder

  • Depois que terminar com o mestre, leve-o para comer. 

  • Sim, majestade - disse a criada, já se aproximando e pegando na mão do príncipe. 

  • Interessante saber que nosso futuro rei, aprende história e não guerra. - ironizou 

Helger suspirou, enquanto seguia para o pátio de treinamento.

  • Histórias…são melhores que uma espada empunhada. 

  • Jahel não conquistou o trono com histórias…irmão 

Helger parou por um instante antes de responder.

  • De fato. E é justamente por isso que ele aprenderá. Para não repetir os erros que levaram muitos reis ao túmulo.

  • Enfim… já que estamos indo para o pátio, gostaria de informar que o comandante da guarda deseja falar com você.

Helger apenas grunhiu e continuou caminhando.

Reagen, acompanhado pela criada, chegou à biblioteca da cidadela. Ao entrar, a mulher procurou pelo mestre, que se encontrava em uma área mais aberta da sala, onde costumava ensinar.

  • Então, quando os povos nativos finalmente se renderam…

  • Senhor… — chamou a criada

Ele se virou lentamente.

  • Ah, sim… — respondeu em voz baixa. — Bem… os deixarei com Orys. Acredito que ele seja mais sábio que eu.

Alguns alunos riram. O mestre Orys tomou o lugar de Jenahadis e continuou a história que ele contava.

  • Achei que não viria hoje, pequeno. — disse o velho, parando diante do garoto e olhando para baixo com um leve sorriso.

Reagen ergueu o rosto e afastou uma mecha de cabelo dos olhos.

  •  Eu estava brincando no pátio… aí meu pai me mandou vir para cá.

  •  Ora, o rei fez muito bem então! — respondeu Jenahadis, animado. Vou te contar aquela história que te prometi. Lembra?

  •  A Guerra do Vale dos Quatro Lordes? — perguntou o príncipe, com os olhos brilhando de curiosidade.

  • Sim… essa mesma.

A criada permanecia ao lado, com um sorriso quase materno. Gostava de cuidar do príncipe; era uma raridade na corte haver um herdeiro tão respeitoso e obediente com uma simples criada.

— Se me permite, meu senhor… tenho outros afazeres. — disse ela ao velho mestre.

— Ah… perdão por deixá-la esperando. O príncipe me roubou a atenção. — respondeu Jenahadis, com uma leve risada.

— Sim, ele tem esse poder. — disse ela com carinho. — Ele será um grande rei.

A mulher então se voltou para o garoto.

— Bem, já vou indo. Na hora do almoço virei buscá-lo.

Ela o abraçou rapidamente antes de começar a se afastar.

— Espere! — chamou o mestre. — Qual é o seu nome? Se eu terminar mais cedo com o príncipe, direi para lhe chamarem.

A criada se virou novamente.

— Meu nome é Ayla, senhor.

— Obrigado, Ayla.

Ela inclinou a cabeça em respeito e saiu. Reagen a acompanhava com os olhos até ela sumir entre as estantes. Então voltou-se ao mestre cheio de expectativa. 

— Bem… aos trabalhos então. — disse Jenahadis, pegando a mão do príncipe.

Os dois caminharam até a parte da biblioteca onde ficavam os livros que narravam aquela história que o mestre havia prometido.

Ao chegarem, o príncipe soltou a mão do velho e se sentou em sua cadeira.

— Onde está… — murmurava Jenahadis para si mesmo enquanto percorria os títulos nas prateleiras. — Achei! — exclamou, puxando um volume antigo.

— Mestre… — chamou o príncipe.

— Sim? — respondeu ele, voltando o olhar para o garoto, esperando que falasse.

— Essa guerra aconteceu há muito tempo, não foi?

— Sim, sim. — disse o velho enquanto abria o livro e começava a folhear as páginas até encontrar a data.

— Aqui está… — continuou, passando o dedo pela linha do texto. — Essa guerra ocorreu no ano 78 d.C., cerca de trezentos anos atrás.

— Acho que meu pai contou essa história para mim mais cedo…

— Ah, é? Então o rei adiantou os acontecimentos? — disse Jenahadis com um breve riso, colocando o livro sobre a mesa antes de se sentar.

— Não… ele apenas estava me contando sobre a chegada dos patriarcas. Aí começou a falar de outras coisas. — explicou o pequeno.

— Certo… ele disse quem esteve na guerra? — perguntou o mestre.

— Acho que sim… mas não me lembro muito bem.

— Então vamos recapitular. — Jenahadis fez uma breve pausa. — O ano era 78 d.C., e o rei era Alder I Talton, filho do rei…

Ele deixou a frase no ar, esperando que o príncipe completasse.

— Rowley Talton…? — respondeu Reagen, ainda sem muita certeza.

— Exatamente! Alder foi o rei com o reinado mais curto da dinastia. Governou por apenas três anos e…

— Eu me lembrei, mestre! — interrompeu o príncipe. — Meu pai falou sobre ele… disse que o lorde Dason Majoris o empalou com uma lança.

— Ah… muito bem. Parece que a memória voltou. — disse Jenahadis com um leve sorriso. — Mas o rei lhe contou mais detalhes?

— Não. Meu pai falou apenas por cima.

— Então podemos nos aprofundar um pouco mais… — disse Jenahadis. — O jovem rei Alder começou a entrar em conflito com os Majoris porque o lorde Dason não gostava da ideia de um rei de apenas dezoito anos governando Asseos.

O velho mestre fez uma breve pausa antes de continuar.

— Dason começou a se armar e a espalhar mentiras sobre o rei, dizendo que Alder havia assassinado o próprio pai para assumir o trono mais cedo. Quando o rei soube disso, enviou uma carta exigindo que ele parasse com tais acusações.

Reagen ouvia a história com atenção. Cada palavra do mestre parecia ganhar forma em sua imaginação, e o garoto ficava cada vez mais envolvido.

— Mas Dason não parou. — continuou Jenahadis. — Os lordes conselheiros de Alder o pressionavam a marchar contra ele em Oldspire. A princípio, o rei enviou um terço dos soldados da coroa, cerca de quatro mil homens.

— Sabendo disso, Dason convocou seus lordes vassalos.

— E quem eram eles? — perguntou o príncipe.

— Eram os lordes das cinco maiores casas vassalas de Majoris: Lorde Orald Leymore, Gallety Oswell, Powell Westhigh, Olys Dustydoor e Row Oldservant.

— Os cinco atenderam ao chamado de seu lorde soberano e levaram seus homens para Oldspire Pit. Ao todo, somavam mais de cinco mil soldados.

— E quantos homens o lorde Dason tinha? — perguntou Reagen.

— Três mil próprios. Somados aos cinco mil de seus vassalos, ele tinha cerca de oito mil homens contra os quatro mil enviados por Alder.

Jenahadis virou lentamente uma página do livro antes de continuar.

— Os soldados da coroa marcharam por quatro dias até ficarem a dois dias de distância de Oldspire. Dason foi informado disso. Então, durante a hora da coruja, enviou alguns arqueiros para atacar o acampamento inimigo.

— Os soldados acordaram com os gritos dos homens sendo atingidos pelas flechas. Muitos correram para a mata próxima. Alguns arqueiros foram mortos… outros fugiram.

— Quantos soldados morreram? — perguntou o príncipe.

Jenahadis olhou novamente para a página, procurando o número.

— Não muitos… cerca de cento e cinquenta homens.

Reagen franziu a testa.

— Mas os outros não acordaram com cento e cinquenta homens sendo atingidos?

— Muitos foram atingidos na cabeça; outros, em partes não vitais do corpo. Foi isso que acabou despertando o restante do acampamento.

Jenahadis passou lentamente os dedos pela página do livro antes de continuar.

— Ao amanhecer, o soldado que liderava aquele destacamento, um homem chamado Sor Otho Rivers… enlouqueceu.

Reagen franziu a testa, atento.

— Ele reuniu seus homens e marchou até uma pequena vila próxima, chamada Vila Menor. Lá, quase dizimaram a cidade. Homens, mulheres e crianças foram mortos.

O príncipe arregalou os olhos.

— Por que ele fez isso? Eles não fizeram nada.

— Sor Otho acreditava que os moradores sabiam das movimentações dos arqueiros de Dason. — explicou o mestre. — Ele os culpou pela emboscada… e os matou por isso.

Jenahadis fechou parcialmente o livro por um momento antes de continuar.

— Quando Dason soube do massacre, mobilizou imediatamente seus homens. A noite passou em tensão, e no dia seguinte os dois exércitos finalmente se encontraram.

— Por causa daquele ato, outros lordes vassalos de Dason decidiram se juntar a ele.

— O exército rebelde cresceu… chegando a cerca de doze mil homens.

Jenahadis virou lentamente mais uma página antes de continuar.

— O que se seguiu foi um massacre para os soldados da coroa. Quando a batalha terminou, quase todos estavam mortos.

— Entre os poucos sobreviventes estava Sor Otho Rivers… caído no chão, ainda vivo.

O príncipe permaneceu em silêncio, ouvindo atentamente.

— Dason caminhou até ele com um porrete nas mãos. Primeiro quebrou suas pernas. Dizem que o osso da perna esquerda chegou a atravessar a armadura.

Jenahadis fez uma pequena pausa antes de continuar.

— Depois quebrou os braços dele. Então colocou um pedaço de madeira sob sua cabeça…

— E, diante de seu rosto, colocou o corpo de uma criança morta.

Reagen franziu o rosto.

— Por quê…?

— Para que aquela fosse a última coisa que ele visse antes de morrer.

O mestre fechou parcialmente o livro por um instante.

— Depois disso, Dason o decapitou… e começou a marchar rumo à capital. 

— E então? Como chegaram à Guerra do Vale? — perguntou Reagen.

— Bem… — respondeu Jenahadis. — Dason e seu exército começaram a marchar. Como era de se esperar, um corvo logo levou a notícia da derrota em Vila Menor até o rei Alder.

— Ao saber disso, o rei mobilizou seu próprio exército para enfrentar Dason.

O velho mestre passou os olhos pelo livro antes de continuar.

— O rei já marchava há quatro dias quando chegou ao chamado Vale dos Quatro Lordes. Foi ali que os dois exércitos finalmente se encontraram.

— A região levava esse nome porque ali ficavam as sedes de quatro grandes casas: Lockhart, Drawyrir… e os próprios Majoris.

— Era fim de tarde quando a batalha começou.

— Do lado do rei havia cerca de nove mil homens — muitos haviam se recusado a lutar. Do outro lado estavam os doze mil de Dason.

— A luta foi implacável. Homens de ambos os lados se mutilavam no campo de batalha.

Jenahadis fez uma pausa breve antes de continuar.

— Os soldados do rei eram menos numerosos, mas eram melhores treinados. Mesmo assim, a qualidade não foi suficiente para vencer aquela batalha.

— Em meio ao caos da luta, o rei Alder combatia um soldado qualquer.

— Dason viu a oportunidade. Pegou sua lança do chão e correu em direção ao jovem rei.

— Quando Alder finalmente matou o homem com quem lutava, ouviu passos apressados atrás de si.

— Ele começou a se virar…

— Mas já era tarde demais.

— Dason cravou a lança em seu peito, atravessando a armadura e perfurando o coração.

O príncipe ficou em silêncio enquanto o mestre continuava.

— O rei caiu de joelhos.

— Dason arrancou a coroa de sua cabeça, desembainhou a espada… e a afundou no crânio do rei, partindo-o ao meio.

— Depois colocou a coroa sobre a própria cabeça e declarou-se rei.

Jenahadis fechou parcialmente o livro antes de terminar:

— Muitos lordes não o reconheceram de imediato, o que atrasou sua aceitação como rei.

— Somente no ano 79 d.C., um ano após a guerra, Dason Majoris foi finalmente coroado rei.

— Ele foi um bom rei? 

— Alguns dizem que sim, outros que não. — respondeu Jenahadis. — Ele reinou por trinta e cinco anos de relativa paz… e morreu aos cinquenta anos, no ano 114 d.C.

Reagen permaneceu em silêncio por alguns instantes após o mestre terminar a história. O garoto parecia pensativo.

Jenahadis inclinou levemente a cabeça ao observá-lo.

— O que foi, pequeno? A história foi pesada demais?

— Não é isso… — respondeu o príncipe devagar. — Hoje mais cedo eu perguntei ao meu pai por que existem guerras.

— E o que ele respondeu? — perguntou o mestre.

— Ele disse que é porque os homens querem aquilo que não é deles…

Reagen baixou os olhos por um momento antes de continuar.

— E… Dason só virou rei porque não aceitou Alder como rei… e tomou algo que não era dele.

— Dason tomou o trono, sim.

— Mas depois governou por trinta e cinco anos de paz.

— Diga-me, então… ele foi um ladrão… ou um rei?

O pequeno príncipe ficou em silêncio. A pergunta parecia pesada demais para responder de imediato.

Jenahadis percebeu isso e fechou o livro com calma.

— De qualquer forma… pense nessa pergunta. — disse o mestre com um leve sorriso. — Depois me responda.

Ele se levantou lentamente.

— Acabamos por hoje.

Jenahadis fez um gesto chamando um dos aprendizes que organizavam os pergaminhos da biblioteca. Quando o jovem se aproximou, o mestre inclinou-se e cochichou algo em seu ouvido.

— Procure pela criada Ayla — disse em voz baixa. — Diga que o príncipe já terminou seus estudos.

O aprendiz assentiu e saiu rapidamente entre as estantes.

Reagen permanecia sentado, ainda pensativo. Não demorou muito para que Ayla surgisse entre as estantes da biblioteca.

— Vejo que terminaram — disse ela com um sorriso.

— Terminamos sim — respondeu Jenahadis.

O príncipe levantou-se e caminhou até ela.

— Vamos? O almoço já deve estar sendo servido.

Reagen lançou um último olhar para o livro sobre a mesa antes de seguir a criada para fora da biblioteca. Eles andaram até o salão para a refeição, havia carneiros, vinho, uvas e toda sorte de comida, estavam na mesa esperando o rei, Amerya, Naeyrom e Jahel. 

— Aí está ele, meu neto! — disse Amerya

— Obrigado por trazê-lo, Ayla — dizia ele enquanto o guiava para sentar ao seu lado.

— Por nada, senhora. — inclinou a cabeça e saiu.

Naeyrom, entediado, girava a faca entre os dedos. Revirava os olhos, suspirava e batia a ponta da lâmina contra o prato.

— Precisamos mesmo esperar o Helger? 

— Ele é o rei, irmão. Sabe que devemos esperar. 

Grunhiu — Eu o deixei com Sor Elyor no pátio, não é possível que ainda esteja conversando com ele. 

— Paciência Naeyrom! Seu irmão é o rei e tem deveres mais importantes a cumprir. — advertiu a rainha-mãe. 

— Se continuar assim, a comida vai esfriar antes dele terminar seus deveres. 

— Naeyrom! — gritou Amerya

Os servos e criados se silenciaram após o grito; a porta de madeira rangeu com o soldado abrindo a porta, eles pensavam que era Helger mas era a princesa Mysaia acompanhando a rainha. 

— Pelos deuses! — murmurou Naeyrom, fechando os olhos em frustração.

— Deveria ao menos ter respeito por sua rainha, Naeyrom. — disse Mysaia enquanto segurava a mão da rainha ao descer as escadas.

— Majestade — disse Jahel curvando a cabeça em reverência 

— Mamãe! — gritou Reagen que correu e a abraçou 

Ela beijou a testa dele e fez carinho na cabeça.

— Como foi a aula hoje com o mestre? Fiquei sabendo que seu pai mandou você ir enquanto brincava no pátio. 

— Foi boa, ele me contou sobre a Guerra do Vale dos Quatro Lordes. 

— Uma história boa, sobrinho — disse Mysaia enquanto tomava seu lugar. 

Naeyrom resmungou baixinho. - Um futuro rei que sabe de histórias…. 

— Algum problema, príncipe Naeyrom? — perguntou Saena

— Não, majestade. 

Quando a rainha se assentou, a porta rangeu novamente e o rei finalmente chegou. Todos os presentes na mesa se levantaram, exceto Saena que estava com a barriga pesada da gravidez. 


— Perdão pela demora. Sor Elyor e eu discutíamos assuntos que não podiam esperar.

Então todos começaram a se servir, o rei conversava com sua esposa. Jahel então quebrou o momento: 

— Majestade…irmão. Peço perdão por tratar desse assunto na mesa, mas já escolhi os soldados para a missão de investigação nos portos. 

— O que há com os portos? — perguntou Mysaia 

— Os peixes podres persistem, minha irmã. 

— Deve ser alguma maldição, ou alguém querendo nos foder de dentro pra fora. — disse Naeyrom vincando a faca no porco. 

Helger olhou para o irmão após a fala, o palavreado o incomodou, mas ele ignorou.

— Então devemos anunciar no conselho. Mais tarde, preciso de um pouco de descanso. Se é que a coroa me permite. 

— Que os deuses guiem vocês irmãos, é o terceiro mês disso. — Mysaia acrescentou enquanto dava uma garfada na carne. 

— Eles hão de fazer, cunhada. — complementou a rainha, enquanto passava a mão na barriga para disfarçar a preocupação. 


 O almoço prosseguiu em silêncio. Quando terminou, Helger e Jahel foram os primeiros a se retirar. Helger ordenou que os soldados da guarda chamassem os lordes do conselho, muitos deles chegaram antes do rei por terem seus aposentos perto da sala. O rei entrou juntamente do irmão,ele analisou cada um de seus lordes, e notou que Reedgate estava faltando, quando iria perguntar ele entrou com passos apressados. 

— Sentemo-nos – ordenou o rei. — Irmão, pode falar. 

Jahel se ajeitou na sua cadeira. 

— Como outrora decidido mais cedo, por ideia do lorde Thorne, escolhi soldados para iniciar as investigações amanhã. Cinco deles irão pela manhã e outros cinco à tarde, e escolhi dois para irem disfarçados ao anoitecer. 

— E quem são eles, meu lorde conselheiro? — disse Thorne, inclinado para frente. 

— Sor Aly e Eric, meu lorde. 

— Ótima ideia lorde conselheiro, enviar dois grupos em horários diferentes e dois disfarçados é um trunfo. Se há algo além, certamente os que estão disfarçados saberão. — argumentou Blackmere. 

— De fato, lorde Blackmere. Precisamos acabar com esse problema. 


Reedgate apenas observava a discussão, o rei notando o silêncio perguntou: 

— Está analisando o cenário, Reedgate? 

— Sim, meu rei..acredito na inteligência do lorde conselheiro. 

Thorne o observava desconfiado, mas não ousou tomar a palavra. 

— Então, amanhã as investigações começam. E que os deuses tenham piedade se houver um traidor nesta mesa. — o rei fez uma pausa, olhando para cada um – terminamos por hoje. — ele se levantou, e os demais fizeram imediatamente. 

Ao sair da sala, os demais lordes também saíram, Blackmere deu uma golada no vinho e disse antes de sair: 

— Não sei vocês, meus caros lordes. Mas isto não é somente sobre peixes. — e saiu. 

— Ele fala com ar de conspiração.. — afirmou Reedgate 

— Conspiração ou não, ele tem razão. Não gostaria de ser um traidor quando começarem a investigar. — ao concluir, Thorne saiu e Reedgate após algum tempo também o fez. 


As horas se passaram, e já estava no entardecer do dia. Ulf e Lyonel já estavam preparados para partirem da cidadela, Jahel chegou discretamente até eles, antes de partirem.

— Ulf…Lyonel. 

— Meu lorde. — disse Ulf, curvando a cabeça em reverência. 

— Desejo boa sorte na missão que confiei em vocês. Que O Sábio lhes conceda astúcia, e que honrem o seu rei. 

— Assim o faremos, meu lorde — respondeu Lyonel. 

— Que os deuses sejam com vocês. — ao dizer isso, se retirou. 

Ulf e Lyonel saíram por uma saída secreta da Cidadela, nos salões inferiores onde se guardavam espadas e escudos. Vestiam roupas simples e não levaram consigo espadas ou qualquer  tipo de arma, apenas um saco de 60 pratas (o mínimo para comprar pão e pagar um dia numa taverna), e seguiram para fora dos muros da cidade, indo por uma porta não conhecida nos muros. 

Ao saírem, a lua já se via nascendo no horizonte, o vento gelado que vinha do Mar de Gane. Acharam uma taverna simples na estrada que levava para a capital, no quarto. Ulf apagou a chama da vela e deitou-se para dormir, Lyonel estava deitado também, mas nenhum dos dois conseguia dormir. 

— Será que há algo além de simples peixes, Ulf? — perguntou Lyonel enquanto olhava para o teto escuro. 

— Se há eu não sei, mas brevemente saberemos. 

E dormiram. Vestidos como homens comuns, Sor Ulf Rivers e Lyonel Salton atravessaram os portões da cidade antes do nascer do sol.

Naquela manhã, eles entrariam nos portos como simples trabalhadores.

Mas nenhum dos dois sabia que os peixes podres eram apenas o começo. 




Capítulo 2: Os Olhos e Ouvidos

Manhã cedo, 378 d.C

Era cedo. A luz atravessava as janelas altas e repousava sobre o rosto de Ulf, que ergueu a mão, franzindo o cenho, para proteger os olhos do sol.

Ele soltou um resmungo baixo antes de se inclinar e empurrar, com certa impaciência, o companheiro na cama ao lado.

— Acorda… já tá na hora. — murmurou, a voz ainda rouca de sono.

O outro virou o rosto, afundando mais no travesseiro por um instante, antes de soltar um suspiro irritado.

— Pelos Seis… que horas são? — respondeu ele, ainda sonolento, esfregando os olhos.

Ulf deu os ombros, ainda semicerrando os olhos por causa da claridade.

— A mais cedo possível

Lyonel deixou escapar uma risada nasal, balançando a cabeça enquanto se sentava na cama

— Custava dizer que era a do veado, Ulf?

Ulf esticou o braço, pegou o saco de moedas ao lado da cama e o lançou na direção do companheiro.

O outro, ainda sentado na beira da cama, olhando fixamente para o chão, se assustou com o impacto leve contra o peito. Levantou a cabeça de imediato, o cenho fechado em indignação.


— O que é isso agora? Sonhou que ficou com alguma prostituta da Rua dos Prazeres? — ele soltou um suspiro pelo nariz, abriu o saco e começou a contar as moedas com os dedos ainda lentos de sono.


Ulf apenas resmungou, passando a mão pelo rosto.

— Vamos logo pagar a estadia…— disse, já se levantando – e fazer o que Jahel nos mandou. 


Lyonel terminou de contar as moedas e as colocou na mão de Ulf.

Ele deu uma olhada rápida, conferindo o peso, antes de guardá-las no bolso.

Sem dizer mais nada, os dois deixaram o quarto e seguiram pelos corredores estreitos da estalagem.

O piso rangia sob os pés, e a luz era fraca, filtrada por janelas pequenas e sujas.

Lyonel franziu o nariz, desacelerando o passo por um instante.

— Tem um cheiro… diferente aqui. — disse em voz baixa.

Ulf lançou um olhar de lado, sem parar de andar.

— O quê?

Lyonel torceu a boca, como se o gosto tivesse subido pela garganta.

— Mijo… vinho velho… e merda

Ulf apenas suspirou, e continuou seu caminho. 

— O que foi? Não posso nem dizer isso? E porque tá todo putinho? 

Ulf apenas lançou um olhar para ele, talvez fosse desaprovação ou meramente uma provocação. 

— Se pudesse pedir algo aos deuses, com certeza seria para você não ser meu companheiro. 

— Você é realmente um merda - dizia o Lyonel, desacreditado no que ouviu. 

— Vamos logo, não quero esperar que mil carroças nos atrasem. 

— Certo, já tá na hora mesmo. 


Os dois prosseguiram para dentro de uma estalagem, onde pagariam pela estadia. Ao entrar, depararam-se com o salão cheio de viajantes; alguns mais gordos que outros. Alguns cantavam algo impossível de entender, bêbados demais para que qualquer palavra fizesse sentido. Mulheres passavam entregando copos, enquanto os dois se esgueiravam entre as pessoas até chegar à mesa do dono do local. Alguns cambaleavam com copos na mão, Ulf olhava fixo para frente e tentando esconder o desconforto, rezava baixo aos deuses para chegar inteiro na mesa do dono. Lyonel por sua vez, andava observando a todos com um leve sorriso no rosto, seus olhos passavam por todos locais possíveis de se enxergar, sem querer ele se esbarrou numa moça com copos. O choque dos dois fizeram os copos caírem no chão. 


— Inferno! Disse Lyonel – desculpe-me donzela. 

— Tenho cara de donzela para você? - disse a mulher, claramente irritada

— Que? Eu só estav – ele foi interrompido.

— Não seu mendigo andante, não quero suas desculpas. 


Ulf olhou para trás e bufou, Lyonel olhou para ele como quem dizia que só queria ajudar. Dois soldados que estavam sentados numa mesa próxima riam dele.


— Derrubou a cerveja da donzela no chão, mendigo andante - ele ria


— Cuidado para não derrubar mais nada em!  - disse o outro 


— Mendigo andate? – repetiu, olhando para as próprias roupas — já me chamaram de coisa pior.


Um dos soldados ergueu o copo

— Aposto que sim.


— Lyonel! – chamou Ulf já perto do balcão

— Estou indo.

— Você disse isso há algum tempo.

Os soldados riram novamente.

Lyonel abriu um sorriso.

— E vocês? Não deveriam estar guardando alguma coisa em vez de beberem a essa hora?

O mais velho dos dois soltou uma risada.

— Guardar o quê? Peixe podre?

Lyonel parou.

O sorriso continuou em seu rosto, mas seus olhos mudaram.

— Peixe podre?

— Você não é daqui, é?

— Não.

— Vai descobrir logo. Metade do porto fede mais que esta estalagem. – concluiu o soldado dando uma golada no copo.

O outro limpou a boca, passando o antebraço. 

— Estranho é que algumas carroças chegam boas — disse. — Eu mesmo vi descarregarem peixe fresco dois dias atrás. No mercado, no dia seguinte? Podre. 

— E ninguém faz nada? — perguntou Lyonel.

— Fazem. Trocam os homens do porto, mandam mestres, contam barris... — o soldado bebeu novamente. — Depois acontece tudo de novo.

Ulf colocou as moedas sobre o balcão.

— Lyonel.

Dessa vez, o tom era diferente.

Lyonel percebeu.

— Foi um prazer, meus senhores.

— Achei que éramos “soldados”, mendigo.

— Agora são meus senhores. A conversa melhorou.

Após pagarem a estadia, os dois saíram  rumo aos portões da cidade. 

— Você ouviu? 

— Ouvi o quê? 

— Me chamaram de mendigo andate! 

Ulf passou a mão pelo rosto.

— Os peixes, imbecil! 

— É, eu ouvi essa parte também. 

— Estranho as cargas chegarem boas ao porto, e apodrecerem depois.

Ulf lançou um olhar rápido para ele.

— Então talvez não seja o mar. 

— Algo em mente? 

— Não, ainda é cedo demais para concluir algo. Mas, isso pode nos direcionar. 

Os dois já seguiam pela Estrada do Rei, que levava até Strongtown. Pelo caminho, era comum cruzarem com carroças carregadas de mulheres, crianças, sacos de grãos e mercadorias. Algumas eram puxadas por cavalos; outras, menores, por homens. Soldados passavam na direção contrária, afastando-se da cidade. 

— Muita gente saindo hoje. 

— Soldados? 

— Soldados, mercadores…

— Talvez ninguém goste do cheiro de peixe. 

Prosseguiram mais alguns passos até chegarem aos portões da cidade. Os muros eram enormes e, assim como na estrada, havia intenso movimento tanto de entrada quanto de saída. Ulf e Lyonel se esgueiravam por entre as pessoas. Havia risadas, comerciantes tentando vender suas mercadorias e homens da guarda espalhados pelos portões.

— É mais movimentada do que eu imaginava... — ponderou Lyonel.
— Devo admitir.

— Ali! — apontou Ulf para uma rua que levava ao porto, onde trabalhariam naquela manhã.

A rua era um pouco menos movimentada, Ulf a conhecia vagamente a rua. Seu norte eram os pescadores e organizadores, ele sabia que se os seguisse chegariam até o porto. Ele viu alguns grupo de homens, com redes de pesca e os seguiu

— Vem. – disse Ulf puxando Lyonel com ele. 

Depois de uma caminhada generosa, eles avistaram o porto. Ainda mais movimentado que as ruas, foram caminhando até chegarem na entrada do porto, mas antes que pudessem entrar, um soldado que guardava a entrada do lugar parou eles.  

— Vocês dois, o que querem aqui?

— Viemos de longe para trabalhar,  senhor. – respondeu Ulf. 

— E de onde vem? 

— Vila Velha! – respondeu Lyonel. 

— Vila Velha? Pelos deuses, quantos dias de estrada tiveram? 

— Só os deuses sabem meu amigo, aposto que deve ter sido algo como os Patriarcas cruzando o mar para chegar aqui. – disse Lyonel, rindo. 

Ulf abaixou a cabeça e suspirou. 

— Perdão pela infantilidade do meu amigo, senhor. Acordamos cedo e…pela manhã, meu amigo é bem sonolento e não pensa direito. 

— Não se preocupe, engraçadinho ou não..a sua diversão aqui será sentir o fedor de peixe todo o dia. E conversar com seus companheiros. – disse o soldado, olhando para os dois. 

— Mas me digam, vocês tem alguma experiência com trabalho portuário? 



— Com porto, não. Mas já carregamos sacos de grãos, madeira e barris. Se tiver peso, conseguimos levantar.

O soldado olhou primeiro para Ulf e depois para Lyonel.

— E você?
— Eu supervisionava.

Ulf virou lentamente o rosto para ele.

— Carregava. Ele carregava.

O soldado riu.
— Ótimo. Porque hoje ninguém vai supervisionar porra nenhuma.

— Harl! — gritou o soldado para um homem mais adiante. — Dois braços novos!

Um homem largo, de barba curta e avental sujo de escamas virou-se para eles.

— Sabem carregar?
— Sabemos. — respondeu Ulf.
— Então sabem trabalhar. Venham.


Thoughts

  • rotaAntiga

    Navegam esse mar faz quinhentos anos, constroem portos. Agora a podridão cai nos peixes desse porto, mês três corrido. Rotas antigas não escolhem ao acaso.

    Permalink
  • oquefaltadizer

    Aquela criada Ayla some da história assim que fica pesado. Sempre invisível quando é útil, depois desaparece.

    Permalink
  • mesaDeBar

    Conselho testando rei novo o tempo todo. Peixes podres mês após mês? Tá armado, tenho certeza.

    Permalink
  • guardo_uma_frase

    Aquele menino perguntando se o pai é homem mau... fico com essa pergunta rodando a semana inteira.

    Permalink

Related posts