Meu capacho desfiado e encharcado me encara me baixo pra cima com seu recado gringo de bem-vindo. Quase consigo senti-lo sorrindo com uns dentinhos desgastados e caídos enquanto encharco seu tecido com as lágrimas do céu incrustadas na sola do meu sapato gasto. Se você pudesse, me olharia grato por mais uma pisada e me imploraria pra eu não abrir a porta e sair de cima de você, mesmo que vá doer pra sempre até nossas peles ficarem dormentes, se fundirem e virarem uma coisa só.
Mas naquele fim de tarde chuvosa, eu abri a porta e percebi o bafo quente da casa abafada me receber de volta. Mesmo que eu passe pouco tempo aqui, ela nunca se cansa de dar boas vindas e de se prostrar de joelhos na minha frente e me pedir pra eu ficar até depois do horário de eu me atrasar.
Me joguei no sofá e me deixei ser engolido por aquilo: uma massa bem acolchoada de almofada que nunca foi lavada. Tão cansada de ser esmagada pelo peso do meu corpo, tantos de mim, um dentro do outro empilhados meios roucos de tanto de tanto se engasgar com gritos que nunca foram ditos, mas todos foram sentidos; explodido nos tiros que eu dei no ar e mataram pássaros inocentes a voar no céu errado. Desculpa, eu não queria ter te machucado. Sinto o peso de todos eles se jogando de novo e de novo por cima de mim. E pouco a pouco encontro minha glote a se abrir e me entalar aqui pra sempre.
Mergulho no fundo da minha mente em reprise de todas as coisas que eu poderia ter feio se pudesse voltar no tempo e impedir eu mesmo de atirar pra cima e matar os pássaros inocentes. Eu me olharia nos olhos e diria que a culpa é dele, ele não devia sair por aí descontando a frustração da vida dele em pássaros, batendo asa a ermo, e que provavelmente, ele nunca mais ia ver de novo. E talvez ele me dissesse que se eu era tão civilizado, consciente de mim mesmo, altruísta, por que eu não pensei nisso antes? "Porque eu sou você," respondi, "e você é inconsequente, imaturo e egoísta." "Já parou pra pensar que se você sou eu, eu também sou você, e que eu posso estar aí escondido só esperando pra voltar e matar os pássaros, derrubar helicópteros e abrir buracos em nuvens? Mais cedo ou mais parte eu vou voltar, nem que seja como o vulto de um fantasma pra te arrancar o sono só te cutucando ou sussurrando sílabas no seu ouvido. Eu sempre vou estar em você." E me daria um sorriso sinistro que me arrepiara a barba mal feita e se seguiria de um "a menos que.. " nossos olhos se encontraram numa linha fina e tênue que nos amarrou por instantes e ele me guiou para o metal cilíndrico em repouso na palma de sua mão. "Se você me odeia tanto, por que não?"
Minha mão calejada toca o gatilho da arma deitada na linha do horizonte que nos cruza em quatro e me faz perder no compasso do pensamento me percebendo de volta no sofá. "o que será que eu devia ter feito"