Por que a gente tem tanto medo de pedir conforto quando está caído? Por que tem que esperar para precisar dividir edredom?
Eu dividiria o mesmo edredom nos dias frios. Spoiler
Porque o frio nunca parece vir apenas de fora.
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Por que a gente tem tanto medo de pedir conforto quando está caído? Por que tem que esperar para precisar dividir edredom?
Conteúdo da publicação
Porque o frio nunca parece vir apenas de fora.
Há dias em que ele nasce dentro da gente.
Depois de um dia longo.
De uma notícia difícil.
De um cansaço que nem o corpo consegue explicar.
E tudo o que desejamos é um lugar onde o mundo pare de nos alcançar.
Talvez seja por isso que eu dividiria o mesmo edredom.
Não para aquecer a pele.
Mas para aquecer o descanso.
Existe uma intimidade muito bonita em dormir ao lado de alguém.
Quando as luzes se apagam, já não existe mais conversa capaz de impressionar.
Já não existem roupas escolhidas com cuidado.
Nem respostas inteligentes.
Nem personagens.
A noite tem o estranho poder de devolver cada um à sua verdade.
Dormir ao lado de alguém é confiar a essa pessoa a única versão de nós que não sabe se defender.
A que sonha.
A que respira sem perceber.
A que, por algumas horas, entrega o próprio corpo à vulnerabilidade mais absoluta.
Eu dividiria o edredom porque ele ensina uma linguagem que não precisa de palavras.
A do pé gelado procurando calor.
Da mão que encontra a outra no escuro sem precisar enxergar.
Do gesto quase inconsciente de acordar no meio da madrugada apenas para cobrir quem ficou descoberto.
Ninguém aplaude esse gesto.
Ninguém fotografa.
Quase ninguém se lembra dele no dia seguinte.
Mas talvez seja justamente aí que o amor more.
Nas delicadezas que acontecem enquanto o mundo inteiro dorme.
É curioso.
Quando duas pessoas dividem um edredom, nenhuma delas fica com ele inteiro.
Sempre falta um pedaço.
Sempre existe um ombro descoberto.
Uma disputa silenciosa durante a madrugada.
Um pequeno puxão sem maldade.
E, ainda assim, ninguém sente que perdeu.
Porque o calor nunca esteve apenas no tecido.
Sempre esteve na presença.
Eu dividiria o silêncio antes do sono.
Aquele momento em que as palavras já fizeram tudo o que podiam e resta apenas ouvir a respiração de quem amamos.
Existe uma paz difícil de explicar em saber que alguém está ali.
Tão perto que basta estender a mão.
Como se o coração finalmente entendesse que, por aquela noite, não precisará vigiar tudo sozinho.
Talvez seja isso que o descanso realmente seja.
Não apenas fechar os olhos.
Mas encontrar um lugar onde a alma também consiga dormir.
Porque existem camas confortáveis que nunca se tornam abrigo.
E existem noites simples, dividindo um único edredom, que parecem curar cansaços que vieram de muito antes daquele dia.
No fim, eu não dividiria apenas um cobertor.
Eu dividiria a última vulnerabilidade do dia.
O instante em que deixamos de controlar a vida e simplesmente confiamos.
Confiamos que o outro continuará ali quando amanhecer.
Confiamos que, se o frio apertar, uma mão sonolenta vai procurar a nossa.
Confiamos que existe alguém cuidando de nós até quando não estamos conscientes para perceber.
E talvez amar seja exatamente isso.
Encontrar alguém diante de quem até o sono deixa de ser um abandono e passa a ser um descanso.
Alguém com quem o inverno nunca seja apenas uma estação.
Mas uma desculpa bonita para descobrir que o maior calor do mundo nunca veio do edredom.
Veio da tranquilidade de finalmente pertencer ao mesmo abrigo que outro coração.
Thoughts
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PermalinkAquele gesto de acordar no meio da madrugada só para cobrir quem ficou descoberto é o que fica comigo. Essas são as coisas.
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PermalinkPor que a gente tem tanto medo de pedir conforto quando está caído? Por que tem que esperar para precisar dividir edredom?
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PermalinkExatamente. Gestos que não mudaram nem com milhares de anos porque estão presos no corpo. A gente reconhece quando alguém quer nos aquecer de verdade.
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PermalinkAdorei! É verdade, ninguém fica com o edredom inteiro, mas ninguém sente que perdeu.
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PermalinkConfiar em alguém a ponto de dormir é pesado. Deixar a guarda baixa é difícil mesmo.
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PermalinkTem coisa que é desde sempre. Compartilhar calor é coisa que a gente faz há milênios e continua sendo o mesmo.