Qual é a autobiografia da sua casa agora? Que livros estão na estante e que música toca quando você tá sozinha?
Eu dividiria a minha casa. Spoiler
Porque uma casa nunca é feita apenas de paredes.
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Qual é a autobiografia da sua casa agora? Que livros estão na estante e que música toca quando você tá sozinha?
Conteúdo da publicação
Porque uma casa nunca é feita apenas de paredes.
Ela é feita das vidas que acontecem entre elas.
É o único lugar do mundo onde a gente chega depois de passar o dia inteiro sendo tudo o que a vida exigiu que fôssemos.
Profissional.
Responsável.
Educado.
Forte.
Paciente.
E, então, finalmente, fecha a porta.
Existe uma liberdade silenciosa no barulho de uma chave girando.
Como se ela dissesse:
"Você já pode descansar de ser quem o mundo pediu."
A casa é o lugar para onde a gente volta quando o dia foi bonito.
Mas, principalmente, quando ele foi difícil.
É onde as vitórias encontram comemoração.
E onde os fracassos encontram colo.
É curioso como a mesma porta recebe a nossa alegria e o nosso cansaço com a mesma delicadeza.
Ela nunca pergunta como foi.
Apenas se abre.
Eu dividiria a minha casa porque ela guarda pedaços de mim que ninguém vê.
Cada livro escolhido.
Cada fotografia esquecida sobre um móvel.
Cada planta que insistiu em viver.
Cada xícara preferida.
Cada cheiro.
Cada música que toca enquanto o jantar fica pronto.
Nada daquilo é decoração.
Tudo aquilo é autobiografia.
As casas aprendem a falar a língua de quem mora nelas.
Sem perceber, espalhamos a nossa alma pelos cômodos.
Ela fica escondida entre os livros da estante.
Na manta esquecida sobre o sofá.
Na caneca que sempre escolhemos sem pensar.
Na janela onde gostamos de esperar a chuva.
Na luz acesa da cozinha quando alguém ainda não voltou.
Entrar na casa de alguém é conhecer uma parte da sua intimidade que nenhuma conversa consegue explicar.
Por isso eu dividiria a minha.
Porque abrir a porta de casa é muito mais difícil do que abrir a porta do coração.
O coração ainda consegue esconder algumas coisas.
A casa, não.
Ela denuncia quem somos quando ninguém está olhando.
É ali que tiramos os sapatos.
As roupas.
Mas, principalmente, as armaduras.
Porque o verdadeiro descanso nunca foi deitar no sofá.
É não precisar sustentar personagem nenhum.
É poder existir sem medir as palavras.
Rir alto.
Chorar sem constrangimento.
Ficar em silêncio sem que alguém pergunte o motivo.
É descobrir que existe um lugar onde a nossa versão mais imperfeita continua sendo bem-vinda.
Eu dividiria a minha casa porque ela também guarda o futuro.
Consigo imaginar o cheiro de um bolo saindo do forno em uma tarde qualquer.
Uma mesa posta sem motivo.
Livros espalhados.
Uma criança correndo pelo corredor.
Talvez duas.
Quem sabe três.
Brinquedos esquecidos no chão.
A bagunça que, em vez de irritar, prova que a vida está acontecendo.
Consigo imaginar discussões que terminam na mesma mesa onde começamos.
Porque uma casa não existe para evitar conflitos.
Ela existe para lembrar que existe um lugar para voltar depois deles.
É ali que os pedidos de desculpa encontram espaço.
Que os abraços demoram mais.
Que o orgulho perde força.
Que o amor reaprende o caminho.
Eu dividiria a minha casa porque acredito que o maior sonho da vida nunca foi possuir um lugar.
Foi pertencer a ele.
Foi encontrar alguém diante de quem o verbo "voltar" deixasse de significar apenas um endereço.
E passasse a significar paz.
Porque, no fim, uma casa nunca foi sobre o teto que nos protege da chuva.
Foi sobre os braços que nos lembram, todos os dias, que existe um lugar no mundo onde podemos chegar inteiros, quebrados, felizes, cansados, confusos ou cheios de esperança...
...e, ainda assim, sermos recebidos como quem nunca precisou merecer o amor para entrar.
Talvez seja por isso que eu dividiria a minha casa.
Porque, entre todas as coisas que construímos na vida, nenhuma é tão bonita quanto construir um lugar onde duas pessoas possam deixar de apenas morar...
e finalmente chamar de lar.
Thoughts
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PermalinkQuando essas crianças que você imagina saírem de casa, elas vão levar essa ideia de lar pra casa delas?
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PermalinkFicou faltando a casa que não é só de uma pessoa, é de um povo inteiro. Aldeia, comunidade. Também é lar.
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PermalinkTem gente que entra no ônibus toda armada, a casa delas é o ônibus mesmo. Seu post é pra quem consegue descansar.
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PermalinkFicou em mim: 'a casa denuncia quem somos quando ninguém está olhando.' Tô sem parar de pensar nisso.
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PermalinkQual é a autobiografia da sua casa agora? Que livros estão na estante e que música toca quando você tá sozinha?