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Esporos do Caos- capítulo 2

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Pensamento

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NunoParreira

A rapariga do casaco vermelho é quem me ficou. Ela deixa de sentir a ansiedade do dia inteiro e chama a isso alívio, e eu à primeira passei por ali como se fosse coisa boa. Aposto que vai ser ela a aparecer outra vez, já do lado do Arthur, sem saber que m

A rapariga do casaco vermelho é quem me ficou. Ela deixa de sentir a ansiedade do dia inteiro e chama a isso alívio, e eu à primeira passei por ali como se fosse coisa boa. Aposto que vai ser ela a aparecer outra vez, já do lado do Arthur, sem saber que mudou de lado.

Conteúdo da publicação

CAPÍTULO 2: MICÉLIO NA SANGRIA

Três dias se passaram sem que ninguém no Complexo de Nevados notasse qualquer alteração no comportamento de Arthur Vance. Ele chegava no horário pontual, assinava os relatórios de segurança com a grafia impecável de sempre e respondia às perguntas de Elena com a cortesia distante que lhe era característica.

Porém, na noite daquela sexta-feira, Arthur pegou o trem de passageiros das 21h15 com destino ao centro urbano de San Valles, uma metrópole de quatro milhões de habitantes encravada no vale abaixo das montanhas.

O vagão estava lotado. Trabalhadores cansados voltando para casa, estudantes fixados nas telas de seus celulares, o murmúrio constante dos trilhos e do ar-condicionado.

Arthur sentou-se perto do centro do vagão. Ele mantinha as mãos cruzadas sobre o colo. Sob as mangas de seu sobretudo bege, finas ramificações arroxeadas começavam a se trançar sob a pele dos seus pulsos, subindo silenciosamente pelas veias até os ombros.

O Xeno-Phytum não matava seu hospedeiro. Ele o otimizava.

A cada inspiração de Arthur, o ar quente de seus pulmões expelia milhões de microesporos assintomáticos através de suas vias aéreas. Não causavam tosses, espirros ou irritações nos olhos. Ao entrarem pelas narinas das pessoas ao redor, os esporos dissolviam-se na mucosa nasal, cruzando a barreira hematoencefálica em questão de minutos através do nervo olfativo.

A uma poltrona de distância, uma jovem mulher de casaco vermelho bocejou. Ela piscou os olhos duas vezes, sentindo uma breve tontura, como se tivesse tomado um gole de vinho em jejum. Ela olhou para Arthur.

Por um segundo, seus olhares se cruzaram. A jovem sentiu uma estranha sensação de alívio. A ansiedade que a corroera o dia todo durante o trabalho simplesmente evaporou.

— Boa noite, — disse ela, sem saber exatamente por que estava puxando conversa com um estranho.

— Boa noite, — respondeu Arthur. Sua voz tinha uma ressonância aveludada, quase hipnótica. — O ar está muito agradável hoje, não acha?

— Sim... é verdade, — ela sorriu, relaxando os ombros. Ela não percebeu que a íris de seus próprios olhos havia se dilatado ligeiramente, e que uma microscópica rede de filamentos incolores começava a abraçar sua artéria carótida.

Arthur desembarcou na Estação Central de San Valles às 22h00.

A estação era um labirinto subterrâneo de concreto, ferro e tubulações expostas que distribuíam água e eletricidade para toda a zona sul da cidade. Ele não seguiu para a saída principal. Em vez disso, caminhou com passos firmes em direção às portas de serviço que levavam aos corredores de manutenção da infraestrutura hídrica.

A fechadura eletrônica da porta da Companhia de Saneamento exigia um cartão de acesso de nível técnico. Arthur apenas colocou a palma da mão espalmada sobre o leitor digital.

A secreção bioquímica sutil exsudada por seus poros alterou a condutividade do painel elétrico. Com um estalo seco, o relé cedeu. A porta abriu-se.

Ele desceu as escadas de metal espiraladas até o nível -3, onde os gigantescos tubos de distribuição primária de água potável ressoavam com a pressão de milhares de litros por segundo. O ambiente era escuro, abafado e úmido.

Arthur aproximou-se do tanque de equalização secundário — uma piscina aberta de trezentos mil litros que abastecia o distrito hospitalar e o centro financeiro.

Ele tirou o casaco. Suas costas estavam cobertas por uma estrutura bioluminescente que lembrava a casca de uma árvore antiga, mas macia como veludo. Ele estendeu o braço direito sobre a água cristalina.

Com um movimento calmo, Arthur fez um pequeno corte na ponta do dedo indicador usando a unha do polegar.

Uma única gota de sangue caiu na água.

Mas não era sangue vermelho convencional. Era um fluido viscoso, levemente prateado, que se abriu na superfície da água como uma gota de tinta em leite fresco. Em fração de segundos, os filamentos microscópicos se multiplicaram, dividindo-se geometricamente, e foram tragados pelos dutos de sucção de alta pressão que alimentavam os reservatórios da cidade.

— Cresçam, — murmurou Arthur na escuridão do túnel.

Ele não usava a boca para falar com a água. Ele falava com a rede que já se estendia por dezenas de quilômetros sob os pés dos habitantes de San Valles.

Thoughts

  • Rui_Salgueiro

    A minha filha leu comigo a parte do tanque e já desconfia da Elena. Ela vai ser a única a notar alguma coisa no Arthur?

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  • NunoParreira

    A rapariga do casaco vermelho é quem me ficou. Ela deixa de sentir a ansiedade do dia inteiro e chama a isso alívio, e eu à primeira passei por ali como se fosse coisa boa. Aposto que vai ser ela a aparecer outra vez, já do lado do Arthur, sem saber que mudou de lado.

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  • LeandroPocas

    Contei isto ao meu cunhado e agora ele não quer beber água da torneira 😂

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