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Enxergando o suicídio como ele é. Sensível

Dorand2026

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Às vezes, quando a dor chega a um ponto insuportável, o suicídio parece uma espécie de saída de emergência. Naquele instante, a pessoa não enxerga portas, janelas ou caminhos; enxerga apenas o fim do sofrimento. Mas, olhando para trás, percebo que existem muito mais contras do que a promessa ilusória de paz e descanso. A emergência psiquiátrica pode parecer assustadora, humilhante ou até mesmo exagerada quando estamos no meio de uma crise, mas ela é justamente uma porta que continua aberta quando a nossa mente diz que todas as outras se fecharam.

Quando alguém tenta suicídio, não é somente a própria vida que entra em colapso. A família também pode mergulhar em um caos. Pessoas que nos amam podem passar a carregar medo, culpa, trauma e perguntas para as quais talvez nunca encontrem resposta. Às vezes, pessoas importantes para nós também adoecem emocionalmente tentando compreender por que não perceberam a nossa dor, o que poderiam ter feito ou por que não conseguiram nos impedir. A morte de uma pessoa não encerra a dor; ela a distribui entre os que ficam.

E existe ainda uma crueldade que muitas pessoas em sofrimento enfrentam: ouvir que fizeram aquilo apenas para chamar atenção. Talvez alguns realmente digam isso. Mas existe uma diferença enorme entre querer atenção e estar desesperadamente precisando de ajuda. Quando alguém está pensando em morrer, qualquer tentativa de alcançar alguém, qualquer pedido, qualquer gesto de desespero deveria ser compreendido como um sinal de sofrimento, não como motivo para julgamento.

Também existe algo que muitas vezes esquecemos: o suicídio pode não dar certo. E sobreviver a uma tentativa pode significar acordar diante de uma realidade ainda mais difícil. Lembro-me bem da última vez em que tentei. Quando percebi que tinha dado errado e acordei, pensei: “Sou tão incompetente que nem morrer consigo.” Hoje consigo olhar para aquela frase de outra maneira. Eu não era incompetente. Eu estava desesperada. E, apesar de tudo, havia uma parte de mim que continuava viva.

Uma tentativa também pode deixar marcas que permanecem muito depois da crise. Eu movimento pouco a minha mão esquerda porque cortei o pulso. Tenho problemas hepáticos decorrentes do excesso de medicamentos e síndrome hemorrágica causada por envenenamento. São marcas concretas de momentos em que eu queria que a dor terminasse, mas não compreendia que poderia sobreviver àquele momento e precisar conviver com suas consequências.

E existe uma pergunta que, para mim, é ainda maior: o que aconteceria com a minha alma? O que aconteceria com a minha família? Não tenho todas as respostas para aquilo que existe depois da morte, mas justamente por não saber, não quero transformar um momento de desespero em uma decisão definitiva. Minha vida tem consequências que ultrapassam aquilo que consigo enxergar quando estou em crise.

Talvez uma das maiores confusões esteja na própria palavra “descanso”. No suicídio, muitas vezes, a pessoa não quer exatamente morrer. Ela quer parar de sentir, parar de lutar, parar de pensar, parar de sofrer. Crescemos ouvindo que quem morre “descansa”, e essa ideia pode se tornar muito poderosa quando estamos exaustos. Mas descanso não precisa significar desaparecer.

Descansar de verdade é chegar depois de um dia agitado e produtivo, tirar os sapatos, deitar a cabeça no travesseiro e permitir que o corpo finalmente desacelere. É dormir e acordar sabendo que haverá outro dia. É receber tratamento quando a mente está doente. É permitir que alguém nos acompanhe enquanto não conseguimos caminhar sozinhos. Às vezes, descansar significa simplesmente sobreviver àquela noite.

Eu também aprendi que não quero confundir descanso com esquecimento. A morte não deveria ser romantizada como uma maneira de finalmente deixar de incomodar ou de desaparecer da memória dos outros. A vida continua para quem fica. As pessoas choram, reorganizam a casa, guardam fotografias, fazem perguntas e seguem envelhecendo. Com o tempo, muitas coisas mudam e a presença que parecia impossível de substituir passa a existir apenas nas lembranças.

Por isso, hoje penso que procurar uma emergência psiquiátrica é uma saída de emergência muito mais verdadeira do que tentar morrer. A emergência não promete que tudo ficará bem imediatamente. Ela oferece algo mais importante: tempo. Tempo para a crise passar, para o corpo ser protegido, para a medicação ser avaliada, para alguém ouvir, para a mente recuperar a capacidade de imaginar um amanhã.

Quando a vontade de morrer aparece, talvez eu não precise resolver a minha vida inteira naquela noite. Preciso apenas não morrer naquela noite.

O resto pode esperar.

Thoughts

  • leituraDaNoite

    Li isso quando cheguei do restaurante, já quase uma da manhã, e a parte de tirar os sapatos e deitar a cabeça no travesseiro me pegou justamente nessa hora. Você pegou a palavra descanso, que todo mundo usa sem pensar, e trouxe ela de volta pro tamanho de uma noite comum, de acordar sabendo que tem outro dia. E a frase que você pensou ao acordar, junto com a resposta que você dá a ela hoje, foi o que ficou comigo depois que fechei a tela.

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