CAPÍTULO 13 — A FERIDA
A chuva havia diminuído quando Liam e Yasmin deixaram o Lago Ashford.
Mas nenhum dos dois conseguia falar.
O silêncio dentro do carro era diferente daquela vez.
Não era confortável.
Era pesado.
Cheio de perguntas que nenhum dos dois sabia por onde começar.
Yasmin segurava a pequena caixa encontrada na casa.
Liam havia colocado a chave e a fotografia no porta-luvas.
A fita cassete permanecia dentro do bolso de seu casaco.
De tempos em tempos, Yasmin olhava para ele.
Liam continuava dirigindo.
Os olhos fixos na estrada.
A mandíbula contraída.
Os dedos apertando o volante.
— Você está pensando demais.
Ele não respondeu.
— Liam.
— Estou tentando entender.
— O quê?
— Como você lembrou da minha mãe.
Yasmin franziu a testa.
— Eu não lembro dela.
— Você disse que a mulher da janela parecia sua mãe.
— Eu sei o que disse.
— Então por que não consegue lembrar do rosto?
Ela ficou em silêncio.
Essa era justamente a parte que mais a assustava.
Ela conseguia lembrar da voz.
Dos cabelos.
Da sensação de estar sendo observada.
Mas o rosto permanecia escondido em algum lugar dentro de sua memória.
Como uma fotografia que alguém havia queimado antes que pudesse ser revelada.
— Talvez eu tenha bloqueado.
Liam olhou para ela.
— Crianças fazem isso quando alguma coisa é traumática.
— Você fala como se soubesse.
Ele voltou os olhos para a estrada.
— Eu sei.
Yasmin percebeu.
— Você também bloqueou coisas?
Liam demorou a responder.
— Muitas.
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A PRIMEIRA LEMBRANÇA
Liam tinha seis anos quando descobriu que adultos também mentiam.
Até então, acreditava que mentiras eram coisas que crianças contavam quando quebravam alguma coisa.
Seu pai ensinou o contrário.
Naquela tarde, Liam estava sentado no escritório.
As pernas ainda não alcançavam o chão.
O pai estava diante dele.
Um homem alto, sempre vestido de maneira impecável.
Não precisava levantar a voz.
Nunca precisou.
Bastava olhar.
— O que você fez?
Liam segurava um carrinho quebrado.
— Eu deixei cair.
— Eu perguntei o que você fez.
— Eu...
O menino abaixou a cabeça.
— Eu deixei cair.
O pai se aproximou.
— Errado.
Liam levantou os olhos.
— O quê?
— Você não deixou cair.
— Mas eu deixei.
— Não.
O homem se ajoelhou diante dele.
— Você perdeu o controle.
Liam não entendeu.
— É diferente.
— Quando algo acontece e você não consegue impedir, a culpa é sua.
O menino olhou para o brinquedo.
— Mas eu não sabia que ia cair.
— Esse é o problema.
O pai colocou a mão sobre o ombro dele.
— Você precisa aprender a prever as coisas.
— Como?
— Observando as pessoas.
Liam franziu a testa.
— Pessoas?
— Pessoas são previsíveis.
O homem se levantou.
— Descubra o que elas querem.
— E depois?
— Dê a elas.
— Por quê?
O pai sorriu.
— Porque quem sabe o que alguém quer... sabe como controlar essa pessoa.
A lembrança terminou.
Liam piscou.
Estava novamente dentro do carro.
Yasmin observava.
— Você ficou distante.
— Lembrei de uma coisa.
— Seu pai?
Ele assentiu.
— Ele me ensinou a manipular pessoas.
Yasmin ficou quieta.
— E você aprendeu.
— Aprendi.
— Mas você não nasceu assim.
Liam soltou uma risada amarga.
— Ninguém nasce assim.
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A MÁSCARA
Yasmin observou o perfil dele.
— Você sabe qual é a pior coisa?
— O quê?
— Você fala dessas coisas como se estivesse falando de outra pessoa.
Liam permaneceu em silêncio.
— Como se o menino que sofreu aquilo não fosse você.
Ele respirou fundo.
— É mais fácil assim.
— Por quê?
— Porque se eu lembrar demais...
Ele parou.
— O quê?
— Eu lembro do que eu perdi.
Yasmin tocou levemente o braço dele.
Liam se afastou.
Não com agressividade.
Mas por reflexo.
Yasmin percebeu.
Ele não gostava de ser tocado quando estava vulnerável.
— Desculpa.
— Não precisa.
— Você não gosta que cuidem de você.
— Não sei o que fazer quando alguém tenta.
Ela sorriu tristemente.
— Eu sei.
Liam olhou para ela.
— Como?
— Porque quando você está machucado, você fica mais irritado.
Ele franziu a testa.
— Eu faço isso?
— Fazia quando criança.
Ela sorriu.
— Quando caía, você dizia que não doía.
— Não lembro.
— Eu lembro.
— Como?
— Porque eu era a única pessoa que conseguia perceber.
Liam ficou olhando para ela.
Yasmin continuou:
— Você apertava os lábios desse jeito.
Ela imitou.
— E mexia o pé.
Liam olhou para os próprios pés.
Ele estava fazendo exatamente aquilo.
— Você ainda faz.
Ele ficou sem resposta.
Yasmin sorriu.
— Acho que algumas coisas nunca mudaram.
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A MENINA DO LAGO
A lembrança voltou para Yasmin.
Ela tinha oito anos.
Estava sentada no cais.
Liam estava ao lado.
Os dois tinham acabado de discutir.
— Você é chato.
— Você também.
— Eu não sou.
— É sim.
Yasmin cruzou os braços.
— Então vai embora.
Liam levantou.
— Tá.
Deu dois passos.
Parou.
Voltou.
— Você quer mesmo que eu vá?
Yasmin olhou para ele.
— Não.
— Então por que mandou?
— Porque estava brava.
Liam sentou novamente.
— Então quando você estiver brava, fala.
— Falar o quê?
— "Liam, estou brava."
— E você vai ficar?
— Vou.
Ela sorriu.
— Promete?
Ele estendeu o dedo mindinho.
— Prometo.
Yasmin entrelaçou o próprio dedo no dele.
— Mesmo quando eu for chata?
— Principalmente.
A lembrança desapareceu.
Yasmin abriu os olhos.
Uma lágrima havia escorrido.
Liam percebeu.
— O que foi?
— Nada.
— Yasmin.
Ela respirou.
— Eu lembrei de você.
Ele sorriu.
— De quê?
— Você prometendo que ficaria.
O sorriso de Liam desapareceu.
— Eu prometi.
— E depois você desapareceu.
Ele abaixou os olhos.
— Eu sei.
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A NOITE DO DESAPARECIMENTO
Liam tinha oito anos.
Era madrugada.
A casa dos Blackwood estava silenciosa.
Ele acordou com vozes.
Saiu do quarto.
O corredor estava escuro.
A voz da mãe vinha do escritório.
— Você não pode fazer isso.
A voz do pai respondeu:
— Já foi decidido.
— As crianças não têm nada a ver com isso.
— Eles são a única coisa que ainda pode nos comprometer.
Liam ficou parado.
Seu coração começou a bater mais rápido.
A mãe respondeu:
— Você está falando do nosso filho.
Silêncio.
Depois:
— Estou falando de todos eles.
Liam não entendeu.
Então ouviu uma coisa cair.
Um objeto quebrando.
A mãe gritou:
— Não!
Liam deu um passo.
A porta abriu.
Sua mãe apareceu.
O rosto estava assustado.
Ela viu o filho.
Por um instante, tudo parou.
— Liam?
Ele não respondeu.
Ela correu até ele.
Ajoelhou.
Segurou seu rosto.
— Escute sua mãe.
— O que está acontecendo?
Ela olhou para trás.
Depois voltou para ele.
— Você precisa confiar em mim.
— Eu confio.
— Não importa o que disserem depois.
Ela beijou a testa dele.
— Eu amo você.
— Mãe...
Ela se levantou.
Antes de entrar novamente no escritório, olhou para ele uma última vez.
— Proteja a Yasmin.
Liam franziu a testa.
— Por quê?
Mas ela já havia fechado a porta.
Naquela noite, Liam ouviu uma discussão.
Depois...
silêncio.
Quando amanheceu, sua mãe havia desaparecido.
Seu pai disse que ela havia ido embora.
Liam nunca acreditou.
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O SEGREDO
— Ela mandou você me proteger?
A voz de Yasmin trouxe Liam de volta ao presente.
Ele estava estacionado diante da casa.
Não havia percebido quando chegaram.
— Sim.
Yasmin estava pálida.
— Por quê?
— Não sei.
— Você nunca me contou isso.
— Porque eu só lembrei agora.
Ela respirou fundo.
— Então sua mãe sabia que algo iria acontecer.
— Talvez.
— E ela conhecia minha família.
— Sim.
Yasmin abriu a pequena caixa novamente.
Pegou a fotografia.
— Talvez seja por isso que nossas famílias estão ligadas.
Liam olhou para a imagem.
Sua mãe.
Helena Hale.
E, ao fundo, uma porta.
M-04.
— Precisamos ir até a estação.
— Agora?
— Não.
— Por quê?
Liam olhou para ela.
— Porque alguém quer que façamos isso.
Yasmin ficou em silêncio.
— E se for uma armadilha?
— Provavelmente é.
— Então por que ir?
Liam respondeu:
— Porque às vezes uma armadilha é a única maneira de descobrir quem está tentando capturar você.
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DOMINIC
Na mesma noite, Dominic estava sentado no quarto.
Aurora havia bloqueado seu número.
Ele abriu uma gaveta.
Dentro havia um velho caderno.
A capa estava destruída.
Era seu diário de infância.
Dominic nunca permitia que ninguém tocasse nele.
Abriu uma página.
"Hoje papai disse que mamãe foi embora porque eu era fraco."
Outra.
"Prometi que nunca seria fraco."
Outra.
"Quando Aurora chora, eu fico com raiva porque não sei fazer ela parar."
Dominic parou.
Aquilo o incomodou.
Ele passou os dedos sobre a frase.
Nunca havia entendido por que o choro de Aurora despertava tanta raiva.
Até aquele momento.
Ele lembrou da infância.
Sua mãe chorando no quarto.
Seu pai andando pela casa.
Dominic escondido atrás da porta.
A mãe dizia:
— Eu quero ir embora.
O pai respondia:
— Você não vai levar meu filho.
Dominic segurava o brinquedo com força.
A mãe chorava.
O pai batia a porta.
E depois vinha o silêncio.
Durante anos, Dominic acreditou que precisava impedir que as pessoas fossem embora.
Não porque queria controlá-las.
Mas porque, quando alguém ia embora...
ele acreditava que era culpa dele.
O problema era que ele transformou esse medo em prisão para quem amava.
Dominic fechou o diário.
Talvez Aurora não fosse a primeira pessoa que ele tentou impedir de partir.
Ela apenas era a primeira que teve coragem de escapar.
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A ESTAÇÃO
Na manhã seguinte, Liam e Yasmin chegaram à antiga estação ferroviária de Blackwood.
O lugar estava abandonado havia anos.
As paredes estavam cobertas de pichações.
Os trilhos enferrujados desapareciam no mato.
Liam caminhava à frente.
Yasmin segurava a chave.
— M-04.
— Sim.
Eles encontraram uma porta metálica.
Havia uma pequena placa.
M-04
Yasmin colocou a chave.
Parou.
— Liam.
— O quê?
— Se eu abrir isso...
— Talvez nada aconteça.
— E se acontecer?
Ele olhou para ela.
— Eu estarei aqui.
Ela sorriu.
— Você prometeu isso antes.
Liam segurou a mão dela.
— Dessa vez vou cumprir.
Yasmin colocou a chave.
Girou.
Clique.
A porta abriu.
Dentro havia um pequeno arquivo.
Caixas.
Documentos.
Fotografias.
E uma parede coberta de nomes.
Liam entrou.
Começou a ler.
Um nome.
Outro.
Outro.
Então parou.
Seu rosto mudou.
Yasmin percebeu.
— O que foi?
Liam apontou.
No centro da parede estava escrito:
LIAM BLACKWOOD — OBSERVAÇÃO DESDE 2009
Yasmin sentiu o sangue gelar.
— 2009...
— Eu tinha oito anos.
Ela olhou para outra inscrição.
YASMIN ALMEIDA — OBSERVAÇÃO DESDE 2009
Os dois ficaram em silêncio.
Não era apenas o passado deles.
Alguém os observava desde crianças.
Yasmin se aproximou.
Havia uma última frase escrita abaixo dos nomes.
"Eles não podem descobrir o que aconteceu naquela noite."
Liam fechou os olhos.
Porque naquele instante percebeu uma coisa.
A noite em que sua mãe desapareceu não era apenas o começo da história.
Era o segredo que alguém havia passado quase toda uma vida tentando esconder.
E agora...
eles estavam chegando perto demais.
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A FITA
Liam encontrou um aparelho antigo sobre uma mesa.
A fita cassete.
Ele colocou.
O aparelho chiou.
Primeiro, apenas estática.
Depois...
uma voz.
A voz de sua mãe.
— Se você está ouvindo isso, significa que eu falhei.
Liam congelou.
Yasmin segurou sua mão.
A gravação continuou.
— Liam, se for você...
Uma pausa.
A voz dela tremia.
— Eu preciso que saiba que nunca abandonei você.
Liam fechou os olhos.
Uma lágrima escorreu.
A gravação continuou:
— Seu pai vai dizer que eu fugi.
Silêncio.
— Não acredite nele.
Liam apertou a mão de Yasmin.
Então a voz disse:
— Mas existe uma coisa que você precisa descobrir antes de me procurar.
A gravação falhou.
Estática.
Depois voltou.
— A noite do Lago Ashford.
Liam abriu os olhos.
Yasmin ficou imóvel.
— O que aconteceu naquela noite não foi um acidente.
A fita parou.
Fim.
Nenhum dos dois respirou por alguns segundos.
Liam olhou para Yasmin.
Ela estava assustada.
— A gente estava lá.
— Sim.
— Nós éramos crianças.
— Sim.
— Então nós vimos alguma coisa.
Liam encarou a parede.
Todos aqueles nomes.
Todas aquelas fotografias.
Todas aquelas mentiras.
E, pela primeira vez, uma nova possibilidade surgiu em sua mente.
Talvez sua mãe não tivesse desaparecido para fugir deles.
Talvez tivesse desaparecido...
para protegê-los.
Liam segurou a mão de Yasmin com mais força.
— Agora eu entendi por que ela mandou eu proteger você.
— Por quê?
Ele olhou diretamente nos olhos dela.
— Porque talvez você seja a única pessoa que se lembra do que aconteceu naquela noite.
Yasmin sentiu um arrepio.
— E se eu lembrar?
Liam respondeu:
— Então finalmente vamos descobrir por que nossas famílias passaram quinze anos tentando fazer a gente esquecer.
Do outro lado da sala, um pequeno gravador escondido começou a piscar.
Uma luz vermelha.
REC.
Alguém estava ouvindo.
E, em algum lugar de Blackwood...
alguém acabara de descobrir que Liam e Yasmin tinham encontrado a fita.